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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

DESTINO: Como vim parar aqui?

O que o destino nos reserva? Estou hoje aqui, em frente a este computador porque foi onde a vida me trouxe. A partir desse exato ponto, as minhas decisões revelarão o meu futuro. Todo dia uma nova encruzilhada no caminho, todo dia novas escolhas que me levarão ao meu destino.


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"O homem é, não só como ele se concebe, mas como ele quer ser; como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência, o homem não é mais do que o que ele faz de si mesmo. Tal é o primeiro princípio do existencialismo."

(Jean Paul Sartre, em O Existencialismo é um Humanismo)

Quando eu era criança, gostava de pensar que temos um destino traçado. Que tudo o que acontecia, cada virada, mesmice ou novidade eram coisas do destino. Como um livro já escrito a ferro e fogo que tinha que acontecer, o meu destino estava escrito nas estrelas.

Eu pensava que o destino era como uma estrada que a gente percorria, sem opção de dobrar a esquina, de voltar ou desistir. Que tínhamos que seguir o nosso trajeto pré-determinado. Ele nos levaria onde deveríamos chegar. Não era preciso ter medo ou receio, o destino sabia o que fazia.

Era até fácil lidar com o destino nos tempos da infância. Afinal, não tínhamos o peso das decisões importantes da vida, que eram tomadas por nossos pais. Só que, o tempo foi passando e a coisa foi ficando difícil. Uma série de escolhas foram surgindo, e eu me pensava: “Meu Deus, a minha escolha é o meu destino”. E isso é muita responsabilidade. Mas se o destino era certo, obviamente que eu faria a melhor escolha. Don´t panic!

E esse pensamento foi amadurecendo na minha cabeça. Sim, a minha escolha é o meu destino. Eu tenho uma escolha. Sou eu, e mais ninguém quem escolhe o destino que quero ter. Ok, superada minha ideia ingênua e infantil do que é o destino, parece óbvio que fazemos escolhas e que somos donos da nossa vida e das nossas decisões. Mas na prática, não é bem assim que percebemos.

A cada dia eu enxergo, não sem certo calafrio, o quanto estamos no comando das nossas vidas. E, a medida que vamos virando adultos (e aos 33 anos, ainda me sinto nesse processo de amadurecimento), isso fica mais claro e mais assustador. Só estamos onde estamos hoje por escolhas e atitudes nossas. Somos os agentes e os culpados das nossas condições atuais, por mais que tentemos culpar o destino, a falta de sorte, a mãe ou o ex-marido. Nosso destino é guiado por nós, e somos absolutamente responsáveis pelo caminho percorrido. Temos total livre-arbítrio em nossas ações diárias, e cada mínimo movimento, pode mudar todo o futuro.

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"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem número, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa: tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, siga-o!"

(Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra)

Eu podia ter ido morar no exterior, na cracolândia, no Nordeste, ou ter fugido para as colinas, mas estou aqui. Exatamente onde escolhi estar. Onde o meu destino, que nada mais é do que um apanhado de todas as escolhas que fiz na vida, me trouxe.

Afinal, como vim para aqui?

Segundo a Wikipedia, o destino é geralmente concebido como uma sucessão inevitável de acontecimentos relacionada a uma possível ordem cósmica. Portanto, segundo essa concepção, o destino conduz a vida de acordo com uma ordem natural, da qual nada que existe pode escapar. Seria como uma série de sucessões, coincidências, oportunidades e escolhas jogadas ao acaso e catadas por nós no meio do percurso dos dias.

Sim, dependemos dos outros e das decisões de cada pessoa na nossa volta. Ninguém é uma ilha, não temos o controle total da situação, apesar dos nossos esforços e auto-boicotes contribuírem também nas escolhas alheias. Dependemos das nossas famílias, parceiros e até dos nossos chefes, mas ninguém assume de fato poder sobre nossas vidas, a menos que deixemos. Colocar a responsabilidade na mão dos outros é mais fácil quando nos sentimos miseráveis diante de nossos próprios erros.

A lei do Karma ajusta o efeito a sua causa, ou seja, todo o bem ou mal que tenhamos feito numa vida virá trazer-nos consequências boas ou más para esta vida ou próximas existências. É também conhecida como a famosa “justiça celestial”. Resumindo, ela diz que a decisão inicial nos levará às devidas consequências no final. Ainda assim, houve uma escolha que nos levou àquele fim. Como disse o filósofo alemão Arthur Schopenhauer: “O destino mistura as cartas, nós jogamos”.

É, a vida é muito louca às vezes. Hoje consigo enxergar que na estrada da vida existem bifurcações a cada passo, por onde podemos sair pela tangente, mesmo que a nossa consciência ou suposta obrigação nos convide a ficar. A minha maior descoberta, que mudou minha forma de ver as coisas para sempre, é que sou a única dona das minhas decisões. Não preciso pensar em mais ninguém, se eu não quiser. Sempre vão haver opções.

Sim, é possível fazer a louca, pedir demissão, acabar um relacionamento longo ou ir morar na Austrália. É possível virar a vida de cabeça para baixo hoje (e quem nunca teve alguém que fez isso com a sua de repente, sem permissão?), cortar o cabelo, fazer uma tattoo e sair sendo uma nova pessoa por aí.

Destino não é desculpa. Destiny no good to hide away.

Tudo o que fiz e que me levou onde estou hoje foram as minhas próprias escolhas e motivações. Ninguém é culpado, ninguém tomou as decisões por mim. Ok que a condição financeira influencia, mas só nós mesmos podemos virar o jogo. Até para ganhar na loteria é preciso antes fazer uma aposta.

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A partir deste ponto onde estou, inúmeros futuros me aguardam e somente eu posso escolher qual seguir. Posso mudar de país, casar, virar hippie ou seguir aqui, trabalhando em frente a este mesmo computador. É como se existissem milhares de versões de nós mesmos vivendo em realidades paralelas a cada decisão tomada.

Adoro pensar nessa multiplicidade da vida e no quanto estamos vulneráveis a mudar de vida a qualquer tempo, é só ter coragem, ou ao menos vontade. É possível agir e viver a vida que a gente sempre sonhou, e não a que os outros querem viver.

Ainda que Einstein, na sua Teoria da Relatividade, tenha afirmado que o destino está decidido - para ele, a diferença entre passado, presente e futuro é ilusória e, na prática, tudo o que ainda vai acontecer já aconteceu – todo dia vivido, tivemos uma escolha para seguir nosso caminho e construir o que está lá na frente.

Podemos não ter domínio sobre o tempo, sobre as pessoas a nossa volta, sobre o amor ou sobre nosso cabelo num dia de chuva. Muitas coisas estão alheias a nossa vontade, mas as rédeas da nossa vida temos na mão e depende somente de nós mesmos fazer acontecer o que quer que seja. E por isso o destino é algo que me intriga e encanta.

Quem manda no teu destino?


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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