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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

Mídias sociais: mentira ou vida real?

Atualmente blogueiras do mundo todo compartilham uma vida de fantasia e looks incríveis. Um sonho a cada clique do instagram. Nesta semana, a modelo australiana Essena O'Neill confessou sustentar uma mentira em suas postagens e declarou: 'Rede social não é vida real'. Não é vida real para quem?


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Ok, as mídias sociais talvez não reflitam exatamente a vida real. Isso porque temos uma quase necessidade de compartilhar os melhores momentos de nossas vidas, enquanto outros não tão cool ou interessantes acabam ficando escondidos das câmeras de nossos celulares.

Talvez a gente dê um melhoradinha na pose, no contraste, no cabelo. Talvez a gente busque a melhor luz e o nosso melhor ângulo. Talvez a gente esconda a bagunça de cima da cama, ou a louça que ficou na pia. Arriscamos uma arrumadinha no cenário e até retocamos o batom que passou o dia apagado para postar no instagram. Quem nunca?

Mas nem sempre.

Um dia eu posso querer mostrar a bagunça de verdade, não forjada. Queira dar a cara a tapa, assumir que estou lendo aquele best seller barato, mostrar que hoje meu cabelo tá ruim mesmo, ou que ainda não tirei o pijama. E mostro mesmo! Porque é assim que eu sou. Irregular, desregrada. Gosto de dividir pequenos quadros do meu dia a dia com meus amigos e com quem mais queira ver. Sempre reais, e nem sempre tão cool.

A realidade pode, sim, ser bonita. E sempre vai haver quem se identifique com ela.

Quando a modelo australiana Essena O'Neill deletou suas fotos e chorou diante de seus 700 mil seguidores assumindo que sua vida virtual era uma mentira e afirmando que as mídias sociais não são vida real, fui correndo olhar minhas fotos pela milésima vez, e isso me fez refletir. Peraí, não são vida real para quem?

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No auge do sucesso aos 19 anos, vislumbrando a fama e mendigando seguidores, a pobre (ou rica, no caso) menina se perdeu. Perdeu sua identidade para a câmera somando likes ad infinitum. Abrindo mão de sua vida por uma foto bem tirada. Fotografando um look que nem foi usado e que provavelmente, nunca usaria por sua própria escolha. Mas as redes socias podem ser vida real, sim! E digo mais, as minhas são. Garanto que as suas, caro leitor (a), também.

Tenho um blog de moda há três anos, e confesso certa preguiça mental de atualizá-lo diariamente. Preguiça de largar a minha vida, o meu momento, para me comprometer com um hobby que criei porque me faz bem. Preguiça de deixar de ver uma amiga para atualizar o blog, ou de abrir mão de mais um capítulo da minha série favorita.

Quantas vezes já pensei em desistir por não me sentir apta a ser uma grande blogueira. Justamente porque eu não sei mentir. Não tenho coragem de inventar um vida que não é minha, e mais, eu quero mais é mostrar a minha vida, as minhas ideias, as coisas que eu gosto e admiro, que fazem meu olho brilhar. Porque se não for assim, vai perder totalmente a graça. E daí sim que a preguiça vai tomar conta de vez.

Se Essena se perdeu de si mesma, foi tentando levar coisas de interesse do seu público e quem entende um pouco de marketing sabe isso muito bem. Querendo buscar tendências que gerassem mais likes (e essa indústria de likes só faz crescer). Afinal, quem não fica triste quando sua foto ganha poucos likes, ou não pula de alegria ao ver o número subir? “Wow, nem acredito, minha foto bombou!”

Ela se tornou uma vitrine ambulante de marcas e poses e criou um estilo de vida virtual que nem tinha como corresponder à realidade de uma pessoa normal, que tem olheiras, bad hair, dias tristes e um monte de interesses considerados “boring” para as massas. Virou refém da indústria de beleza. Tanto que ela mesma admite ter aberto mão de sua paixão pela arte, já que isso não dá ibope. Distribuia sorrisos falsos para vender um mundo de fantasia. Ao mesmo tempo em que inspirava outra pessoas, entrava cada vez mais fundo num mar de mentiras que a tornava incompleta e infeliz. Tornou-se o sonho de qualquer menina de sua idade, e isso é uma responsabilidade torturante e irreal.

Acho que faltou autoestima e um pouco de maturidade para a Essena. Conectando-se com meio milhão de seguidores no instagram, ela desconectou-se de si mesma. E criou um personagem que só tinha vida no instagram. Esvaziou sua própria vida de sentido. Ou vai ver que o meu ego que é grande demais ao pensar que os outros vão se interessar pelo que realmente sou. Mas, ainda assim, prefiro que as minhas redes sociais sejam recheadas da minha verdade, das minhas motivações, inspirações, bagunças e personalidade. Sendo minhas, têm que ter a minha cara! Sou eu lá.

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Por isso, dou razão às criticas do americano Zack James, que acusou a australiana de ser a única culpada por sua falsa vida online. “Essena O'Neill está errada: mídias sociais não são uma mentira. Elas podem ser qualquer coisa que o usuário quiser. Deixar você mesma ser pressionada por uma falsa vida que a faz se sentir mal é o resultado de suas próprias ações e vontade", ele disse.

Eu, como defensora master das mídias sociais, acredito que elas vêm para somar e nos aproximar das pessoas. Para que possamos mostrar um lado nosso pouco conhecido e compartilhar momentos. Só tenho a aplaudir Zack e concluir: elas podem ser anjos e demônios. Mascarar e promover. Elas mostram um pedaço do que sou, mas não o todo. Nem têm que mostrar. Não dá para ter um vida de instagram. Existem uma pessoa ali além das selfies, de seus tênis novos e seu batom Mac. Existe muito mais vida não exposta a ser explorada, é provável que exista um ser pensante por trás daqueles filtros todos. E quando não postamos nada, muitas vezes é porque estávamos vivendo tão intensamente, que a foto ficou para depois. Gosto de seguir pessoas de verdade.

Pode ser que a minha vida e os meus interesses são sejam o interesses da maioria (e ainda bem que não são). Mas, são coisas que me preenchem e me enchem de vida. Enchem minha vida de significado e substância.

Focar no que te faz feliz sempre vai ser o melhor caminho. Se orgulhar de ser quem se é, eis a verdadeira beleza. A minha vida e minhas verdades valem muito mais do que 1 milhão de likes. E a tua?

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Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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