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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

A terrível zona do não saber

Tudo o que não sabemos nos parece assustador, distante, difícil. Preferimos fugir do que enfrentar desafios. Mas é justamente lá, um pouco mais além, que estão as coisas mais interessantes, que nos transformam em uma melhor versão de nós mesmos. É onde a magia acontece!


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Quando eu era criança, nos anos 90, não saber algo que os outros sabiam era terrivelmente desconcertante e até mesmo humilhante. As pessoas guardavam secretamente sua falta de habilidade com determinadas coisas, fingiam saber, inventavam que sabiam. Compravam atestados frios para a educação física temendo ser a última a ser escalada para o time, diziam que leram o livro quando só tinham lido a orelha, que frequentavam um lugar popular, quando só tinham visto por foto.

Daí veio a moda da cumplicidade para nos salvar. A grande sacada: ninguém é perfeito, você não precisa saber tudo, é normal não saber. E aí, tudo ficou mais fácil, relax, e o mundo deixou de se preocupar com isso. Se não tem problema não saber, porque vou me empenhar? Se tem outro que sabe e faz, posso seguir aqui na minha ignorância. E assim foi.

E tem mesmo gente para saber sobre tudo nesse mundo. Ainda bem!

Mas tenho percebido o quanto essa aceitação, esse não querer saber, gerou um efeito rebote nos dias atuais. Parece que agora ninguém quer mais saber de nada e se orgulha disso. Existe algum tipo de prazer e convicção em não saber as coisas, como se isso fosse bom.

Ninguém quer aprender nada que saia do círculo de suas atribuições e isso me parece meio desesperador. Eu sempre fugi da mediocridade e me sinto culpada se acho que não aprendi nada novo e genial durante um dia inteiro e não entendo quem se contenta em não saber e pronto.

Seja por meio de um texto incrível, seja uma inquietação pessoal, fazer um fogo na lareira em um dia frio ou testar uma nova receita para um jantar em família, preciso estar em constante aprendizado, incitando meu cérebro a se desafiar.

Em três meses, o tédio me domina em um emprego repetitivo. Sempre tive pânico de ficar remoendo problemas, melhor enfrentar de uma vez, resolver hoje, agora. Sempre odiei usar as mesmas roupas, do mesmo jeito. Preciso me desafiar a estar sempre criando, sempre em evolução.

E o que vejo por aí são pessoas apáticas, e bem sem-vergonhas, dizendo:

“Não sei usar maquiagem”.

“Não sei pintar a unha sozinha”.

“Não sei nada sobre política”.

“Não sei trocar chuveiro”.

“Não sei trocar pneu”.

"Não sei usar redes sociais".

“Não sei o que fazer”.

Geralmente são coisas práticas do dia a dia. Coisas simples e fáceis de resolver. Mas as pessoas preferem dizer que não sabem e fazer daquilo um problema sem solução, mesmo que nunca tenham tentado. Preferem usar desculpas esfarrapadas para esconder sua falta de coragem.

Desde que me conheço por gente, vejo meu pai fazendo pequenos consertos dentro de casa, inventando criativas alternativas para probleminhas caseiros. Vejo minha mãe brigando com as panelas e com os livros de receita, clamando ao mundo o quanto despreza a vida doméstica, e ainda assim resolvendo tudo lindamente. E eles sempre fizeram tudo parecer muito simples, do meu ponto de vista observador.

Tudo é questão de tentativa, repetição, erro e acerto. Todo mundo pode aprender e, digo por experiência própria, não tem sensação melhor do que aprender algo novo todos os dias, conseguir, ou mesmo chegar próximo ao sucesso! E especialmente, não precisar de ninguém para resolver seus perrengues diários.

Não existe não saber, só não sabe quem nunca tentou ou quem realmente não quer. E, ao não querer saber, estamos nos limitando. Talvez seja o medo de encarar o novo ou de errar. O risco de ganhar mais uma atividade. Algum tipo de bloqueio psicológico. Pura preguiça. Ou uma mania irritante de dizer que não sabe.

O site de vídeos Youtube oferece zilhões de tutoriais sobre qualquer assunto. Não há desculpas! Em tempos de crise, nada como economizar uma graninha com o velho "faça você mesmo". Garanto que pode ficar até melhor do que aquele servicinho terceirizado e impessoal. Às vezes, são as coisas mais simples que geram as grandes sacadas para um grande projeto.

Ninguém nasce sabendo, é preciso começar um dia, experimentar, e daí você vai ver que nem era tão difícil assim quanto parecia. Aprender é sempre um fator motivador, que traz muitas compensações, e conhecimento nunca é demais. Triste a pessoa que se permite estagnar e acha mais fácil ficar ali dentro no seu mundinho do que quebrar a casca e arriscar.

Treine, dê o primeiro passo, estude, descubra, aprenda, faça cursos, se aperfeiçoe, pergunte, invente. Tem que meter a cara! Enfrentar nossos medos de frente e se aventurar ao desconhecido é libertador e um grande diferencial em meio a pessoas medianas. Já dizem por aí que além da zona de conforto tem um lugar mágico, cheio de possibilidades e todas aquelas coisas incríveis que você não conhece, pois nunca esteve lá.


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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