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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

Certo para quem?

“Inventamos nossas verdades e acreditamos nelas“. Nietzsche


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"O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias." NIETZSCHE

Tenho refletido muito sobre os conceitos de certo e errado, bem e mal, que a humanidade vem impondo ao longo da existência. Chegamos em um momento conturbado da vida social, em que os valores estão se confundindo e confrontando. Condutas tão valorizadas antigamente, hoje perdem espaço para outros estilos de vida. Mudaram os conceitos de respeito, família, atitude. Hoje as normas são outras. Tudo vai se adaptando ao contexto, a percepção sobre as coisas muda ao longo dos anos. As pessoas mudam. Os confrontos mudam.

E quantas vezes não foi assim? Quantas vezes a humanidade teve que mudar seus conceitos, se readaptar a uma nova realidade. Evoluir. Abrir mão de velhas afirmações que já não fazem mais sentido no novo contexto. Até a Igreja Católica abdicou de leis divinas e juízos de pureza e pecado um tanto severos para resgatar seu prestígio em novos tempos.

Já dizia o filósofo Jean-Jacques Rousseau: “O homem está em constante mudança. Pois não é de pouca monta o empreendimento de distinguir o que há de original e de artificial na natureza atual do homem”.

Existe hoje uma dualidade extrema, não só no Brasil, como no mundo, em que cada grupo quer provar porque seus conceitos morais valem mais do que os dos outros. É aí que entra um questionamento que tem martelado há tempos na minha cabeça:

Quem pode afirmar o que é certo e o que é errado? O que é bem e o que é mal? Quem se atreve a julgar?

Esse mundo é muito louco. Depois de tanta luta por liberdade, para que cada um possa fazer o que quiser, sem preconceitos, sem julgamentos, sem limites, agora as pessoas resolveram virar vigilantes alheios, prontas pra criticar qualquer atitude que considerem "incorreta".

Mas afinal o que é o certo? O certo é tão relativo, cada um tem a sua verdade, a sua vivência. E, por isso, tudo vira polêmica. Assim, vemos pessoas clamando tanto por seu direito de ser quem é, ao mesmo tempo em que podam e julgam quem estiver a sua volta com discursos moralistas.

Tristes tempos!

Chegamos ao ápice da opinião. Um quer gritar mais do que o outro suas ideias, mas se vamos avaliar a fundo, ninguém tem opinião nenhuma. Ando cansada de discursos prontos, de gente repetindo coisas só porque é cool ter esse tipo de pensamento. De pessoas que não refletem, só repetem.

O que a maioria não entende é que o que é bom para uma pessoa, não necessariamente vai ser bom para outra. Nem vai ser o melhor para todo mundo. Tudo pode ser relativizado a partir da história, dos filtros, das criações individuais e especialmente da situação única vivida. Ninguém vive pelo outro, nem conhece suas motivações. O certo e o errado são apenas ilusões.

Então, não venha me impor a sua verdade!

Todos os conceitos que temos hoje são invenções do homem, percepções, consensos, construções, "achometros". Sentimentos particulares projetados no outro. Passamos a vida tentando descobrir as verdades do mundo, cobrando bondades alheias, enquanto talvez nem seja isso que as pessoas esperam de nós. Há ainda muita falta de comunicação e entendimento do outro nesse mundo.

Friedrich Nietzsche dizia que, ao tentar se defender de seus instintos, o homem nega sua verdade e, assim, deturpa o sentido de bem e mal. Ou melhor, precisa dar sentido às suas ações, e se martiriza por elas, negando sua essência selvagem. Afirma o homem como um negador da vida, um niilista que busca respostas para coisas que não tem como serem explicadas. Vive atrás de conceitos em um mundo onde não existem verdades absolutas. “A ilusão de que a razão pode penetrar na essência das coisas, separar verdade de mentira, é o que nos leva a considerar o erro como um mal.”

Ele diz que o homem quer saber o sentido da vida, porém como a vida não tem um sentido em si, o ideal acético,conceito criado pelo próprio filósofo, oferece um sentido ao sofrimento e à vida, forjado pela nossa cultura judaico cristã. E, por isso, o homem está sempre se podando e se crucificando por suas ações.

Nietzsche contradiz Kant e seu Imperativo Categórico, que sugere agir sempre baseados em princípios que desejaríamos ver aplicados universalmente. Para o filósofo alemão, o homem nada mais é do que um ser instintivo e, a partir de nossos estímulos, a vida deve ser sempre afirmada. A ideia de uma ordem moral do mundo, segundo ele, é uma forma de negação da vida.

Nietzsche ainda deixa mais um recado: “Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro”. Nunca sabemos o dia de amanhã, a noção do que é certo depende muito da situação e do contexto. Não nos limitemos, porque afinal, há males que vem para o bem! Não precisamos ser tão radicais em um mundo onde as verdades são mutáveis e certo e o errado podem ser o que quisermos que seja! Sempre foi assim!

Novos conhecimentos e novas verdades implicam em novos modos de vida, novas possibilidades. E assim vamos evoluindo.


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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