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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

A tecnologia pode esperar

É tanta tecnologia que não tem mais volta, estamos enredados nas teias da vida virtual, esquecemos quem está ao lado para falar com pessoas do outro lado do mundo. Enquanto isso, a vida vai acontecendo bem diante do nosso nariz...


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Chegamos à Era dos smartphones. E tanta tecnologia saiu do controle, ocupou todos os espaços do nosso dia, nos tirou o sono e o foco. Já repararam o quanto as mídias sociais estão alterando a nossa consciência e afetando nossas relações interpessoais? Intrometem-se em nossas vidas, relacionamentos e interações.

Tantos recursos tecnológicos facilitaram incrivelmente o cotidiano e botaram a informação na palma de nossas mãos. Se informação é poder, hoje somos os mandantes. Temos grande parte desse poder ao nosso alcance. O universo digital abriu nossas mentes, revolucionou nossas vidas, ampliou a realidade, desmistificou conceitos, alterou nossa relação com o tempo e o espaço. Mudou nossa forma de nos comunicar com os outros e com o mundo. E isso vicia.

É, amigos, não em mais volta!

Já dizia Sócrates, lá em meados do século V a.C: “Só sei que nada sei”. Quanto mais sabemos, mais percebemos o quanto temos a aprender e mais queremos saber. A internet proporciona um milhão de possibilidades diárias, abre caminhos para novas ideias, negócios e relacionamentos. Tudo parece perfeito. E assim, ficamos comprometidos com o fato de que tudo está à disposição. Há urgência em usufruir. Quanto mais demanda, maiores as tentações. Impossível resistir.

Só que é assim que ela também nos afasta do que está acontecendo ao nosso redor e de quem está bem diante do nosso nariz. Num mundo extremamente conectado, a gente simplesmente se desliga, aniquila o presente. Deixamos de prestar atenção na realidade em que estamos inseridos, tão distraídos nos encontramos enredados na teia da tecnologia conquistada.

Seja no trabalho, nas refeições, na roda de amigos ou no trânsito (!), os smartphones e os encantos da internet invadem nossas vidas, fragmentam nossa atenção e provocam sobrecarga diante de uma enxurrada de informações. A necessidade avassaladora de informação se alastrou pelos escritórios e foi encher as cabeças daqueles que estavam ali quietinhos fazendo o seu trabalho roboticamente. Fez todo mundo pensar demais, dispersar demais e... viver de menos o aqui e o agora. A questão que fica é: deixar meus funcionários mergulharem nessa fonte inesgotável de conhecimentos ou trancafiar os computadores a sete chaves para que não percam o foco? Será que a segunda opção é realmente eficaz nos dias de hoje?

Numa foto que virou meme na internet, uma cafeteria avisa: “Não temos wifi, conversem entre si”, gerando um choque de realidade no mundo virtual. Não é a toa que no meio de tudo isso surgiu aquela ânsia em aparecer na telinha, e foi da necessidade de atenção que surgiram os 'selfies', aquelas fotos de si mesmos que as pessoas postam o tempo inteiro nas redes sociais. E começamos a nos descaracterizar, nos despimos de nós mesmos para assumir uma postura que mereça atenção.

Hoje, o mundo virtual está ocupando caminhos sinuosos e até para relacionamentos “da vida real” lançamos mão das mídias digitais para nos comunicar, perdendo oportunidades de encontros face a face. Essa tecnologia diminui distâncias físicas ao mesmo tempo em que cria barreiras com quem está bem ao nosso lado. E agora se aproveita da boa onda para dar um empurrãozinho em novos relacionamentos.

Com tantos namoros virtuais, pautados por tele-conferências que vemos por aí, parece mesmo fácil engatar um relacionamento no século 21. Porém, essas relações “arranjadas” na internet têm um quê de superficiais e oportunas, os diálogos desconexos dão margem a más interpretações e pouco conhecimento da causa. Tanta tecnologia está fazendo com que o real e o virtual inevitavelmente se confundam. A coisa tá ficando séria.

Já dizem que a geração Millenium, nascida após 94, já não sabe o que é vida fora do virtual, e vincula seu cotidiano totalmente à internet e suas arestas. Para essa gente, que cresceu em frente a tela dos computadores assistindo videos no youtube, o real e o virtual fazem parte de uma coisa só, são inseparáveis. Não, não tem mais volta!

No filme Her, que acontece num futuro próximo, o escritor solitário Theodore engata um namoro com um robô, na voz da sedutora Scarlett Johansson e se apaixona pela inteligência virtual, à qual carrega em seu dispositivo para todos os lugares que frequenta. A série Black Mirror apresenta diversas situações que retratam a solidão causada pela tecnologia, entre elas a falsa vida de aparências do episódio "Perdedor", em que todos se trocam notas e vivem vidas medíocres atrás de aceitação, o aterrorizante "Volto já" em que a esposa ressuscita o marido através de uma realidade virtual e "Quinze milhões de méritos" em que as pessoas vivem em um perverso sadismo social, cercadas por televisões e são obrigadas trabalhar pedalando em bicicletas ergométricas para gerar energia, a única esperança de uma vida remotamente melhor é ficar famoso e aparecer do outro lado da tela acompanhada diariamente por todos os operários.

Mas, pára tudo! Ainda dá tempo de olhar para o lado. O negócio é retroceder um pouquinho nessa sede por tecnologia. Deixar o celular de lado, dedicar-se às pessoas a nossa volta e viver o presente ainda parece a decisão mais honesta e garantida. Nesse caso, a tecnologia pode esperar...


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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