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Infinitas possibilidades entre o caos e a calma

Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta

Quando o moralismo nos tira a voz

Um grito de liberdade nesse mundo de moralismos exacerbados. Um pedido de trégua aos vigilantes de plantão que julgam cada palavra e cada ato ao redor, viralizando uma vida que parece perfeita, mas que é apenas medíocre.


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No livro 1984, de George Orwell, o extremo totalitarismo toma conta. O Grande Irmão - Big Brother, e daí que veio o nome do programa Global - é o rosto vigilante. O terror em sair da linha acua a população que vive cercada por câmeras.

Na história, palavras foram banidas do vocabulário para que fossem esquecidos seus sentidos. Para pensarmos, utilizamos a linguagem, se ela for limitada, também limitam-se os nossos pensamentos. Dessa forma, há um controle do próprio ato de pensar à medida que a liberdade de pensamento nos é saqueada. Qualquer semelhança com os dias atuais será mera coincidência?

Eis que chegamos ao auge da ditadura do politicamente correto. Temos que atentar o tempo todo ao que estamos falando para, sem querer, não ofender alguém. Tudo é proibido, tudo é feio, tudo é preconceito. Mesmo que não seja. Em um mundo de câmeras e wifis, tem sempre alguém espiando, esperando, julgando. Pronto para dar o bote a qualquer falha sua.

Cuidado, o Grande Irmão está observando você!

Para Leandro Narloch, autor de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, o politicamente correto é "uma patrulha ideológica, uma perseguição a modos diferentes de agir ou ver o mundo". Li por aí algo que diz muito sobre o mundo em que vivemos atualmente: "o politicamente correto silencia e torna as pessoas inaptas a detectar o que é ou não a verdade. Sem senso de verdade, não há liberdade". Já dizia Winston, personagem do livro 1984, “a liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro”.

E assim, todo dia uma polêmica, um escândalo, um desagrado e, nós, cada vez mais enterrados em nossa culpa pela imperfeição, por sermos diferente, por sermos melhores ou piores. Só que somos todos diferentes, sim! Pensamos de formas diferente - conforme nossos próprios filtros e visões de mundo -, temos múltiplas versões das mesmas coisas e daí que vem a criatividade, a vivacidade, isso que faz o mundo ter graça. A questão é que não existe uma verdade absoluta, cada um tem os seus pontos de vista e viva a diversidade! Imagina que coisa terrível se todos fossem iguais e pensassem da mesma forma?!

Sou super defensora da igualdade, afinal, somos todos pessoas, seres humanos. Só que, acima de tudo, sou a favor da liberdade individual, e o que vejo é que essa lei do politicamente correto beira à censura e devasta a democracia. E que mundo medíocre nos espera do outro lado. Agora não se pode mais discutir, não podemos nos exaltar, extrapolar, perder as estribeiras. Ninguém mais pode discordar, desgostar, antipatizar. Tudo virou preconceito, violência, agressão, abuso. Tudo é visto como uma relação de poder, autoritarismo, a “maldita meritocracia”. A menos que venha dos nossos heróis defensores dos fracos e oprimidos.

Que papo furado é esse de tolerância, quando tudo virou alvo da mais absoluta intolerância? Nada passará, e todos nós vamos ficar aqui nesse marasmo com cérebros de panquecas nesse mundo tão correto que beira a loucura. Todos vivendo como robôs, controlando seus próprios instintos e reações o tempo inteiro para não ser xingados publicamente por vigilantes moralistas julgando e apontando o dedo para cada deslize, cada ação, cada resposta, distorcendo a realidade para reafirmar suas teorias.

Sorria, você está sendo filmado!

Quem pode saber o que é melhor para mim além de mim mesma? Não é isso que dizem os moralistas de plantão?

Aparentemente sim, mas na prática, são eles os que cagam regras alegando ter o remédio e a cura para todos os males. Enquanto vitimizam e diminuem “as minorias”, tomando-os como impotentes, indefesos e totalmente sem opinião, tornam-se eles os próprios agressores, que julgam e atacam cruelmente. Mas se tu que não concordas com eles, tu é quem és do mal.

Que futuro insosso esse mundo nos guarda. Que terrível tédio, leseira, desânimo. Que vida perfeita de merda em que ninguém pode se expressar. Tudo o que o ser humano preza é a liberdade e quem quiser tirar a minha liberdade de pensar, de opinar, de gostar ou não do que eu quiser e também de ficar de saco cheio, não passará!

Na grande TV aberta que virou o mundo, é muito dedo apontado e pouco olhar sobre si mesmo. Para tudo existe prós e contras, e eu acredito nos dois lados.


Lucia Righi

jornalista, curiosa, metida, contraditória por definição, daquelas que prefere o caos e a desordem pra se encontrar, que quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo e sempre por dentro de tudo que acontece na volta e no mundo, que pretende ler os livros do mundo em uma vida. Um dia ainda dou conta.
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