variando

Visões diferentes para um mesmo mundo

Murilo Trevisan

Muito mais que uma garota no trem

"A Garota no Trem" traz um filme com diversas interpretações para o espectador. Com uma mensagem social forte, o filme tem todos os elementos para instigar o espectador.


1.jpg Fonte: AdoroCinema (Copyright 2016 Constantin Film Verleih GmbH)

Tenho escrito pouco por aqui, isso é verdade. Fato é que a vida nem está tão interessante assim, por isso mais um grande hiato. Sou inquieto, e quando alguma coisa cutuca essa inquietude, fica difícil controlar. Foi isso que aconteceu depois que eu assisti “A Garota no Trem” precisava explanar em algum lugar o que esse filme fez comigo. Ainda bem que esse espaço existe.

O filme conta a história de Rachel, uma mulher atormentada por problemas com bebidas e um casamento frustrado no passado. Rachel divide sua história com Anna e Megan, outras duas mulheres que, querendo ou não, enfrentam relacionamentos abusivos dentro de casa. Mas o foco do filme acaba sendo a luta de Rachel contra ela e contra todos.

Rachel pega o mesmo trem todos os dias, e passa pelas mesmas casas, observando as mesmas pessoas e suas rotinas. Megan é uma das observadas, assim como seu ex-marido Tom e a atual esposa Anna, que moram na mesma rua.

A narrativa pode ser resumida muito bem em: é melhor cuidar da sua vida e esquecer os problemas dos outros. Mas são justamente as investidas de Rachel na vida alheia que envolvem a trama do filme e levam ele para um lado mais sombrio e agoniante. A trama lembra, e muito, “Garota Exemplar” outro filme adaptado de um best-seller que segue quase a mesma linha. Um casal idealizado, um desaparecimento que envolve as personagens e um final inesperado.

É justamente nesse quesito que “A Garota no Trem” ganha vantagem. O final é imprevisível, são diversas alternativas para o espectador viajar tentando achar um ponto final no meio de um novelo de acontecimentos, que são vários, já adianto.

Mas muito além de um filme de suspense bem feito e cheio de atuações impecáveis (Queridos do Oscar, não se esqueçam de Emily Blunt, obrigado), “A Garota no Trem” pode ser visto com um olhar mais social, visando os relacionamentos abusivos que as mulheres sofrem em silêncio hoje em dia e muitas vezes acabam assumindo uma culpa ilusória por algo que não fizeram.

2.jpg Fonte: AdoroCinema (Copyright Metropolitan FilmExport)

O filme pode ser visto também como a libertação dessas mulheres (que já adianto, estão ligadas entre si por um acontecimento), uma vitória contra elas mesmas e contra a passividade diante de relacionamentos que não levavam a lugar nenhum. Rachel encontrou o conforto na bebida e com isso quase destruiu sua vida.

Pode ser que esse artigo pareça um pouco exagerado, mas é que eu estava precisando de algo que me permitisse interpretações diferentes para uma mesma narrativa. E esse filme apareceu justamente para isso, me fazer pensar. E digo mais, como é bom sair do cinema com a cabeça lotada de percepções diferentes, fazia tempo que isso não me acontecia.

Acredito que o filme seja um dos melhores do ano e provavelmente aparecerá na temporada de premiações em 2017. É impossível ignorar o poder de um roteiro tão bem feito partindo de um livro, a riqueza de detalhes, grandes atuações e um valor social muito importante para os dias atuais. “A Garota no Trem” abre os nossos os olhos para a idealização dos relacionamentos e como essa idealização pode muitas vezes ser uma mera ilusão.

3.jpg Fonte: AdoroCinema (Copyright 2016 Constantin Film Verleih GmbH)


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