várias tentativas

uma imitação de vida

Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas.

As sem-razões do afeto: Confissões de Adolescente

Para o afeto, nem sempre há passado, muito menos motivos. Por esse viés, a obra "Confissões de adolescente", de Maria Mariana, ocupou seu lugar na arte e na vida de gerações.


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Obsessão? Saudosismo? Mania? Não, nada disso. No máximo, carinho. Ser criança e ter irmãs adolescentes maravilhosas faz com que você anseie esta fase de um jeito que cria vínculos capazes de transpor o tempo, o qual não passa de uma convenção frente ao afeto. Pelo menos, comigo foi assim. Confissões de Adolescente, de Maria Mariana, é não só uma obra que marcou a iniciação artística de muitas jovens nos anos 90, como também fez mais: funcionou como um vislumbre às crianças que ainda passariam por essa fase, e isso resultou em um elo carinhoso.

Sabe aquele estágio que quase todo mundo tem e depois supera? Enfim, Confissões é algo que não superei. Nem quero. Assim, esta não é uma lista de motivos para gostar de, trata-se, antes, de um singelo convite para observar essa obra para além do óbvio e do excesso de efemeridade: as não razões de uma arte que se fez inarredável, a motivação do meu afeto.

Afeição 1: Ser a irmã adolescente quando as outras já são adultas; sobrar em casa; revirar gavetas em um dia de tédio e descobrir, em agendas dos anos 90, um poema, que na verdade é uma letra de música:

Alien, o oitavo passageiro ou Apaixonada demais

Meu mundo interno já nem fala mais, ele berra, esperneia, urra. Tem um bicho que briga na minha barriga. Não me deixa dormir e me diz coisas que eu não quero ouvir. Vaidosa demais, Burra demais, Abstrata demais, Absurda demais, Cobaia demais, Dependente demais, Perdida demais, Metida demais, Catita demais, Gostosa demais. Eu só não sei se esse bicho,essa coisa que me parte é vontade de morrer ou é obra de arte.

Clichê certeiro no coração: acreditava, até então, que só eu era tudo demais! Além disso, essa transcrição estava acompanhada de um já amarelado ingresso do espetáculo. Existia mais arte envolvida! Pré-adolescentes são doidos para saírem do “pré”, e esse sentimento todo gritou como uma emancipação em mim: “entrei para esse universo, sou adolescente”.

Afeição 2: A descoberta do livro.

capa3.jpg Capa original do meu exemplar (na verdade, da minha irmã mais velha).

Das agendas para o livro, foi um pulo. Bastou revirar mais uns armários. Quem sabe esteja aí todo o início de minha paixão pelas Letras, uma iniciação artística tão jovenzinha e tão pessoal, que era quase um abuso – um desrespeito ser tão íntima assim de uma leitura! A rebeldia versus a enorme insegurança que rondam não só essa fase da vida – a adolescência –, mas que nela são vividas com mais intensidade; os temas mais óbvios, como a primeira transa e o primeiro baseado, apareciam lado a lado com a temática do primeiro poeta, em um dos melhores textos do livro, que também me levou a, com 11 anos, descobrir poesia:

Existem coisas boas na vida. Os poetas são as coisas boas da vida. Um dia eu enlouqueci por um. Seu nome, me perdoem os outros poetas, é Vinícius de Moraes. Ninguém nunca o amou como eu amei. (MARIANA,1992,p.47)

Ali fiquei sabendo tudo: uma garota, seu diário, dando origem a uma peça simplória – no porão do Teatro Laura Alvim, quatro jovens atrizes de vestidos floridos, um muro pichado como cenário – e, por fim, uma obra escrita.

2.jpg Carol Machado, Ingrid Guimarães, Maria Mariana e Patrícia Perroni na montagem original para o teatro.

Afeição 3: A peça

O primeiro sentimento foi de revolta: Já não morava no Rio de Janeiro e a peça, havia anos, não estava mais em cartaz. Mundo injusto. Como pude perder tudo isso?! Guardei, por sonho, anos e anos, investir em uma remontagem para mim e para todos que, como eu, perderam todo esse primor. Fora que só eu saberia encenar com veracidade meu afeto preferido: Os impulsos são bolhas de sabão (a partir da página 31, no livro).

Apropriei-me. E se fez arte em mim. Sem volta. Estava sempre pensando sobre Confissões, foram anos de paixão; tentava até conversar com amigas da minha idade a respeito, mas não era da época delas, nem da minha. Apropriei-me por puro carinho, sem razão de ser, só de sentir. Desde então,a arte me levou por muitos caminhos – vida adulta, faculdade de Letras, gosto pela escrita e pela leitura –, virou amor de vida, mas Confissões sempre estava ali, latente. Precisava de uma ideia para montar uma aula sobre crônica? Já me lembrava de um trecho do livro. Sentia saudade da fase de paixão? Ia para a internet e assistia a todos os episódios do seriado que, quando passaram na TV, acabei perdendo pela pouca idade.

seriado.jpg Daniele Valente, Maria Mariana, Georgiana Góes e Deborah Secco: seriado para Tv que, confesso, vi mais pelo Youtube, depois de adulta.

E assim é até hoje. Confissões de adolescente resiste na memória afetiva, na minha e na de muitos outros, por existir entre múltiplas formas de arte: música, teatro, literatura, televisão. É um deleite confrontar, agrupar, as narrativas do livro, da peça e do seriado. O episódio “O aborto”, por exemplo, parece-me construído cheio de inferências no livro, é bastante obscuro no seriado, mas se apresentou mais leve na montagem teatral a que pude assistir, com boa atuação de Isabella Camero, a qual, em muitos momentos, faz o público rir.

3.jpg Clarice Falcão, Sophie Charlotte, Isabella Camero e Louise D'tuani, na remontagem a que tive oportunidade de assistir, em 2009.

Talvez por isso, beirando os 30 anos, eu ainda defenda tanto, e de modo que soa até ingênuo, a obra Confissões. Aliás, quando assisti à remontagem da peça, em 2009, a moça da bilheteria fincou pé para que eu pagasse meia-entrada. Ares adolescentes conservados. Uma das vantagens do meu afeto.

Para dar mais saudade: a primeira abertura

Pequena observação: Eu ainda não assisti ao filme, o apreço não está nem aí para o tempo, então, nem sempre segue datas e lançamentos. Há certo receio, que até agora não me havia rondado, em torno da atualização cinematográfica desse trabalho que me é tão caro; mas sei que, de qualquer modo, já faz parte da história. De Confissões de adolescente e da minha. De alguém mais?


Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas..
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