várias tentativas

uma imitação de vida

Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas.

Um filme para chamar de meu: “Jogo de Cena”.

A verdade parece mentira, a mentira é verdade, o presente e o passado são contemporâneos. Mais do que alguns motivos para ver e rever essa produção de Eduardo Coutinho, este é um convite à imitação de vida.


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Se há alguém que acompanha o que costumo escrever, já deve ter percebido que minhas impressões sempre acabam por relacionar a arte com o que é vivido, por isso as várias tentativas de se embrenhar nas imitações de vida. Meu ser é um exemplo de como a arte pode ser arrebatadora. Existem produções artísticas que, além de tornarem a si mesmas e a seus autores imortais, garantem ao público uma experiência que ultrapassa o secular. “Jogo de Cena” (2007) é um exemplo disso. O filme-documentário de Eduardo Coutinho é uma experiência, no mínimo, inspiradora.

Respondendo a um anúncio de jornal que seleciona mulheres para integrar um filme, as candidatas escolhidas têm por tarefa contar histórias de sua vida na frente de Coutinho, em um majestoso teatro vazio. Paralelamente a isso, atrizes encaram o desafio de recontar essas histórias, interpretando-as.

jc4.jpg O anúncio: ponto de partida

A forma como a arte se inspira na vida, deformando-a e imitando-a, é um processo consagrado; mas ver isso desvelado nesta produção, em seus meandros, artifícios e dramas, é surpreendente e inspira tanto atores e roteiristas quanto o público em geral. Este, muitas vezes, se reconhece nas narrativas e percebe o quanto há poesia e arte na vida, a mesma vida que, ao ser vivida, parece tão banal.

Assim, da perspectiva de uma espectadora arrebatada, faço alguns destaques para quem irá assistir (pela primeira ou milésima vez) ao “Jogo de Cena”.

Primeiro, chama atenção o fato de mulheres (in)comuns e a princípio diferentes demais entre si unirem-se pelas experiências que seus relatos revelam, construindo uma narrativa que não seria tão coesa e coerente se fosse apenas inventada: a complexidade em relação à maternidade, o fato de criar filhos sem a presença de um pai; além da dificuldade de ser filha sem deixar de ser mero desdobramento dos pais. Conflito e amor interligam histórias que envolvem perda de bebês, gravidez inesperada, filhos mortos, relacionamentos familiares conturbados, sonhos premonitórios e, claro, felicidade.

jc1.jpg Atrizes ou personagens: mulheres

As tensões de falar de si, ao que me parece, tentam ser minimizadas pelas “personagens” mulheres, o choro verdadeiro tenta a todo custo ser escondido; contudo, quando estas são representadas, as atrizes carregam uma emoção que traz um novo ar, por vezes, um peso a mais. Talvez pela tensão de sabermos que essa história não é delas, talvez por escolherem os pontos principais, originando uma linguagem menos dispersa, mais condensada. Por exemplo, ao falar do bebê perdido por sua “personagem”, a atriz Andréa Beltrão chora sem conseguir se conter, enquanto a mulher sustenta sua serenidade. Já na vez da “personagem” que é interpretada por Marília Pêra, a mulher chora muito e tem uma emoção exalante, enquanto a atriz cria uma figura bem mais contida.

Outro ponto alto do filme está concentrado no fato de, algumas vezes, a pessoa narrar a história com tanta verdade, que se chega a duvidar se ela é mesmo uma “personagem” real ou uma atriz a interpretando. Como no caso da babá que emociona com seu relato de mãe solteira, cheio de ingenuidade e pequenas alegrias, o qual mostra como tudo ocorreu de maneira surreal. E, quando estamos enlevados por sua narrativa, ela vira para a câmera e denuncia o jogo de cena pelo uso da terceira pessoa: “Foi isso que ela disse”. Quase um susto!

jc7.jpg “Foi isso que ela disse”. Representação inesperada.

Por fim, aponto duas personagens que ganharam minha atenção – isso não tem um motivo especial, é apenas questão de gosto, talvez identificação.

A primeira delas é Aleta, a moça que salienta o seu comportamento não assertivo (tão original e tão identificável!) e o quanto isso e outras questões a vão afastando do que genuinamente anseia. Quando ela conta sobre sua gravidez nada planejada aos 18 anos, das restrições que enfrenta, elenca de modo simplório e emotivo tudo que há de importante na vida: faculdade, filha, sustento, obrigações e, por último, questiona, frágil e impactante – na interpretação de Fernanda Torres: “E têm os sonhos, né?” (1:21:18).

E ficamos assim, absortos... Nossos sonhos. Na ficção também se abandonam sonhos? Sonhar é fictício? Faz-se a inspiração do tipo aperto no peito com a continuação de suas palavras – agora na fala da “personagem” real: “(...) como se agora eu tivesse só que estudar e trabalhar, pensar no futuro... Só que eu não quero isso. Eu não quero a merda de um emprego em que eu trabalhe onze meses e viva um mês pra, no final da minha vida, comprar uma casa na Região dos Lagos. Eu não quero isso da vida". E, de repente, o conteúdo do relato supera a questão de quem o está contando, mulher e atriz se completam para nos contar uma vida.

Além disso, atriz Fernanda Torres se vê em um desacerto ao interpretar Aleta e não para de repetir a Coutinho: “Que loucura! Parece que eu to mentindo”. Conforme suas conclusões, com a “personagem” real [e tão presente], a realidade esfrega na sua cara onde você poderia estar e não chegou.

jc8.jpg Aleta: comportamento não assertivo

Finalmente, é a vez da mocinha dos olhos parados – minha preferida, não nego – em uma emocionante/devastante história contada como se nada fosse, ou, pelo menos, como se fosse bem mais simples do que realmente é: ela afirma que deixou de gostar de seu pai e que não falou mais com ele até seu falecimento. O curioso é que ninguém a interpreta, e ela se autodenomina atriz. E eu só vejo a jovenzinha com olhar de poço fundo, tão sem expressão, que é cheio delas, resultado de uma “opressão/repressão” paterna – palavras dela – que, além de a terem feito sofrer, fizeram-na culpada.

De novo, há a possibilidade de identificação, de como nossa vida banal pode ser filme, pode ser arte, afinal, não é nada extraordinário deixarmos de gostar de uma pessoa apesar de amá-la. E diante de um relato tão duro, de uma moça tão doce, sobra certo estarrecimento. A mim, uma identificação estranha e um dos trechos favoritos do filme, sobre o que somos versus o que somos criados para ser: “Ele [o pai] me criou para ser médica, ele queria que eu fosse médica, ele me achava uma pessoa muito inteligente, mas eu não era, eu era normal. Era esperta só... E ele me criou para ser médica (1:28:24)”.

jc3.jpg “Eu deixei de gostar do meu pai”.

“Jogo de Cena”, além de didático dramaticamente, é catártico para um mero telespectador, que vai assistir ao filme sem pretensão nenhuma e se depara com o fantástico presente na vida comum. Na nossa vida comum. E, de repente, a arte somos nós ou, ao menos, depende em parte do nosso ser.

Filme completo: http://www.youtube.com/watch?v=RUasyqVhOuw


Gabriela Souto

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