várias tentativas

uma imitação de vida

Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas.

Sessão de Terapia

Como nas palavras de Barthes, “a sua vida já não é origem das suas fábulas, mas uma fábula concorrente com a sua obra”.


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Às vezes, em dias que parece sobrar tempo, eu tiro algumas horas para sonhar. E os sonhos têm até ordem cronológica, tanto que a contemporaneidade deles já ultrapassou a minha. Como? Bem, comecei sonhando a infância, sem traumas e com muito amor, me supus quase normal, no máximo com “nãos” de pai e mãe e briguinhas com os irmãos. Nada de madrasta má e vilões destruidores. Uma delícia!

Mais para frente, sonhei que fui uma adolescente com razoável autoestima. Lá se foi o excesso de insegurança, o encolhimento causado pelo racismo, as horas de choro por não me achar boa o suficiente. Sem alisar o cabelo, sem sofrer para me adequar a um padrão que jamais me aceitaria e ao qual, genuinamente, nunca quis pertencer.

Depois sonhei a fase pré-vestibular. Eu podia escolher qualquer curso, sem problema com grana, ser o que quisesse! Então, entrei para uma renomada escola de artes, estudei roteiro, dramaturgia, interpretação, até tivemos um grupo de teatro que viajou um tempo pelo país. Eu fazia de tudo: escrevia, produzia, dirigia, interpretava, ajudava na escolha da trilha sonora. Era um trabalhão, mas era lindo. E feliz na maior parte do tempo.

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Daí chegou a fase de sonhar a vida adulta; época em que sonho e realidade, apesar de distantes, eram contemporâneos. Assim, sonhei que era o momento de fazer uma viagem para o exterior, eu e uma grande amiga fomos. Estudei bastante, comecei a me dedicar mais ao cinema, por trás das câmeras e escrevendo, porque sempre quis a arte com anonimato e, no sonho, é tudo como eu quero. Eu posso querer!

Nunca tinha pensado em casar, mas, na volta ao Brasil, fui a um show maravilhoso e conheci um homem simples, feminista e inteligentíssimo. Além disso, a voz dele era linda. Não deu outra. Casamos sob um dia luminoso de chuva-sol, eu usava um vestido muito simplório e o cabelo solto. Chorei tanto... Agora não paro de pensar em ter um bebê, poder ser e dar para ele condição para a sua felicidade. Seja ela qual for.

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Olho para o relógio, e já passou da hora de sair do sonho. Tenho de me preparar para o trabalho prático, que me rende quase o suficiente para, pelo menos, comer e morar. Preciso tomar meu remédio que ajuda a amenizar as esquisitices herdadas da infância. Também é hora de me arrumar e verificar no espelho que sou/estou linda a despeito de tudo que devo enfrentar pelo caminho. Por fim, preciso lembrar que meus sonhos me ultrapassaram e que eu não tenho a menor ideia do que estou fazendo com a minha vida para alcançá-los. Mais um remedinho, um carinho no meu cachorro. Lá vou eu, sonhar que vivo.


Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas..
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