várias tentativas

uma imitação de vida

Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas.

Cassie Ainsworth: uma predileção

Um ponto de vista subjetivo da objetividade. Ou o contrário. Não é isso a imitação de vida?


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Já quis ser rica, já quis ser magra, frequentemente quer ser bem-sucedida e até mesmo desejada. Contudo, nunca quis ser Cassie Ainsworth, na verdade, nem pensou sobre isso, mas é o que volta e meia acaba sendo.

Uma solução drástica para problemas aparentemente banais ali, o desejo por um amor correspondido aqui, mais um pouco de rancor e vingança que ferem antes a si mesma do que a qualquer alvo, tudo isso sobre a imagem de um ser doce, sorridente e suave... E, assim, se faz, na pessoa, a personagem. Isso porque não é ilusório enxergar em si várias dessas atitudes e situações, seja no dia a dia, seja por um breve e instável tempo.

Cassie Ainsworth, a menina loira, magra, que repete “wow” e “lovely” nos contextos mais surpreendentes, é uma personagem da série britânica Skins (2007) e parece de simples descrição, como todos se parecem superficialmente. Aí está uma passagem quase nada secreta, embora pouquíssimo requisitada: ir além do que se vê e alcançar o que se é. Cassie passa de mera personagem, de ser inexistente, a uma predileção latente em muitas personalidades da vida, para além da ficção.

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A menina surge na série como a garota adorável e excêntrica, recém saída de um processo pouco explorado de reabilitação. Sem hipocrisia, quando ninguém está vendo e nada precisa ser explicado, é tácito se sentir Cassie. Ficar sem comer não só para chamar atenção da família ou de um amor, mas também para alcançar na alma a leveza aparente. Manter tudo lindo e adorável por fora, enquanto, por dentro, desmorona. E, se perguntam, ela está bem, está sempre bem. Isso faz de alguém uma má pessoa? Dissimular?

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Não é só uma jovem com anorexia e instabilidades psicológicas, há um misto de baixa autoestima e insegurança, o qual é fortificado pelo desamor e pela traição. E a pessoa (ou personagem?!) não sabe mais quem é, nem de que maneira ser, degradando-se como forma de atingir alvos que apresentam ótima capacidade de bloqueio. Tudo volta. Ela sabe que convenções e obviedades nada mudam em seu íntimo. E quanto à preocupação que os outros se sentem obrigados a demonstrar? Um sorrisinho resolve tudo, logo eles tranquilizam a própria consciência e a deixam em seu canto. De canto.

Com sua máscara de comportamento aéreo e despretensioso, Cassie desmascara muito da sordidez nas relações humanas. Em sua vulnerabilidade, ela clama, silenciosamente e a todo tempo, por socorro. Sem contar que, nos intervalos de si, consegue alertar a quem ama sobre a responsabilidade da autonomia de cada um, quanto às máscaras forjadas e o mal que trazem como consequência.

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Estímulos externos podem desencadear comportamentos mais sombrios em Cassie, o que pode ser presenciado na segunda temporada de Skins: uma maturidade fria e desencantada, com certo medo do futuro. Não comer é a sua solução, sua busca por si mesma, por amor, por atenção. Porém, também poderia ser não falar sobre o que machuca, beber mais do que o normal, mutilar-se, dar as mãos ao clonazepam, fingir irretocavelmente que tudo vai bem. Ah, mas isso não é familiar a ninguém, não é mesmo?

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Sim... É tão mais fácil ser excentricamente adorável na dramaturgia! Não há todo esse glamour na vida real. A Cassie, aqui, é uma predileção a ser contida. Mas nada que diminua o carinho por ela. O carinho que cada um tem pela parte mais genuína e instável de seu ser.

Além disso...This is lovely, lovely! Wow!

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Gabriela Souto

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