várias tentativas

uma imitação de vida

Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas.

Para o ex-amor

E mais cinco músicas para curtir a fossa (enquanto ela não passa).


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Sim, eu sei que combinamos, mesmo que implicitamente, um afastamento. E, ainda que a escrita seja o que mais nos une (ou unia), parecendo um jeito de bater o portão com muito alarde, eu lhe escrevo. Porque agora, quase um ano depois, sinto-me confortável em falar de nós, sabendo que somos dois. Ou melhor: que somos cada um.

Lembra quando eu vivia pelas suas bordas? Aliás, eu queria ser seu contorno, bordada em você, como algo bonito. E, para retribuir, você fazia de mim, tão confortavelmente, parte de sua pessoa. Era, de um modo irônico, engraçado: não havia você sem mim, nem eu existia sem a sua companhia. Misturamos cada personalidade, e as perdemos na tal relação.

Pois é, se isso fosse hoje, a imagem que me vem à cabeça me faz, sinceramente, rir... Fosse hoje, você não aguentaria- nem por instantes de pseudorromance - e arrebentaria com meu peso.

Ah, não! Não pense que me tornei um fantasma, arrastando correntes e carregando mágoas. Longe disso. Você não suportaria, porque cresci, porque agora sou! A suposta leveza que trazia em mim, era um vazio. Enquanto achava o bastante ser uma prolongação sua – o que até lhe fazia feliz por um tempo –, simplesmente esquecia o que era ser só. Só por mim. Assim, ao me ver sozinha, precisei tanto de quem sou, que me descobri ali, num cantinho, protegendo minha identidade.

Isso não é maravilhoso, ex-amor? Minha identidade se autopreservou, e eu só precisei resgatá-la. Não foi um processo fácil, já que ela estava tão magoada por ser deixada de lado, que quase foi extinta. Enfim, aconteceu. Espero que também tenha reencontrado a sua.

E adivinha? Eu descobri que não preciso achar normal súbitas mudanças de comportamento; que posso ficar em casa até cansar; que não tenho mesmo de tomar cerveja sem gostar; que não devo achar ruim ter filhos ainda jovem; que posso dizer não; e, finalmente, que eu não preciso fingir para ser amada. Nem para amar. Aliás, amar não funciona como obrigação, amar acontece.

Não que eu fizesse algo por ser compelida, apenas tomei para mim hábitos que não eram meus... Quer saber? Agora eu cresci tanto, sou um misto de desapego bom, liberdade e amor, que penso mesmo: talvez haja em mim bastante da pessoa que você sempre quis. Daí esta carta. Veja se não é irônica a vida, a pessoa que você sempre quis almeja algo que você não pode ser, pois cresce paralelamente às suas possibilidades. Querer que alguém seja algo faz paralelismos. Isso é absurdamente admirável!

Somos cada um como um dia havíamos esquecido. Sim, ambos esquecemos, ex-amor. A propósito, explico que lhe chamo assim por mera questão pragmática, já que amar é querer bem, e isso, em mim, nunca vai deixar de ser. Como despedida e como forma de me desprender totalmente de você, deixo cinco músicas de presente. Elas embalaram o fim, a fossa e o recomeço também. São/Foram nossas.

Boa vida!

1 Trocando em Miúdos - Chico Buarque

2 Uno los dos - Miranda!

3 Ex-amor - Martinho da Vila

4 Obrigado (por ter se mandado) - Cazuza

5 Mulher Phill Veras


Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas..
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