várias tentativas

uma imitação de vida

Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas.

Alguém na vida

Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, mais do que aceito a condição: eu a reconheço, eu a acolho, eu a sou.


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Um pé mais curto, sempre em descompasso com o mundo; um jeito de pensar nada prático ou rentável; uma sensibilidade exagerada versus uma frieza egoísta; um atraso; uma ansiedade... E essa estranheza toda dá conta de um ser. Que medo de ser assim! Como lidar com o estado de pessoa, com as circunstâncias de que se depende, sendo elas nem sempre tão favoráveis assim? Clarice Lispector decreta: “A condição não se cura, mas o medo da condição é curável” *.

Aceitar quem somos exige sempre um tipo de processo, não é algo instantâneo, que passa sem ser notado. Há dramas, problematizações, fugas e buscas por alternativas, subterfúgios. Invariavelmente, chega aquela dificuldade de, antes mesmo de nos aceitarmos, nos percebermos. Ninguém se conhece genuinamente enquanto não se desbloqueia para essa aventura. E, mesmo na luta para não passar por algo doloroso, certas condições insistem em ser penosas antes de aceitáveis. Nunca somos o plano perfeito que planejamos.

Além disso, há partes de nós que escolhemos ser. E essa seria a porção boa, algo trabalhosamente recompensador, quando lutamos por aquilo que escolhemos ser: seguro, profissional, inteligente, do bem, tranquilo, atraente, estudioso, cheio de amor... O desafio talvez esteja em saber unir os dois lados, o que somos e o que, pelas variações da vida, podemos escolher ser. Os defeitos, ou supostos defeitos que fazem parte de nossa condição, não podem ao menos ser vencidos se não os reconhecemos como nossos. Como saber se não são apenas qualidades mal exploradas, se já os rejeitamos por puro medo?

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Ser é condicional. Há condições escolhidas, há condições inerentes, aquelas que muitas vezes bagunçam todo um modelo pré-imaginado. Por isso, parece que o medo de escolher e o medo de ser muito errado frente a uma idealizada normalidade atravancam vidas mais do que qualquer condição. É curável o sentir-se inferior; é curável esconder-se pela excessiva importância com julgamentos alheios, é curável o receio por não estar sempre seguro. Nem que isso envolva um tratamento constante, uma autolembrança diária de que não ter medo de ser é condição de vida.

Fora isso, seria muito sem graça se todos andássemos em compasso com o mundo; se ninguém tivesse uma cabeça avoada para ousar pensamentos subjetivos; se fôssemos sempre emocionalmente controlados. O medo da condição é curável porque ela nos perfaz. Se não tenho medo de mim, posso até me aproximar de você.

*citação retirada de: LISPECTOR, Clarice. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. 9.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982


Gabriela Souto

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