várias tentativas

uma imitação de vida

Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas.

A vida por Lícia Manzo

Sobre a inspiração que pode ser a autora de Sete Vidas.


LíciaManzo.jpg Divulgação

Trabalho e escrevo sem grandes preocupações teóricas ou neuroses, o processo criativo por vezes me atropela; mas, se pudesse talvez entrar em um ritmo mais organizado – ainda que sem muitos anseios –, um alguém textual-roteirista de quem eu ousaria me aproximar seria Lícia Manzo.

A autora da atual novela das 18h da Rede Globo, Sete Vidas, parece esquadrinhar sentimentos, obsessões, relacionamentos, pequenas felicidades cotidianas, sofisticando-os e fazendo com que o telespectador se reconheça ao mesmo tempo em que se conhece. É um “como se fosse a primeira vez”, e, para quem (re)vive, ele o é.

Sete Vidas: sensibilidade desde a abertura

A capacidade desta sensível roteirista de dar ênfase a diálogos legítimos, inteligentes, mais próximos da escrita do que da fala – e não por isso caricatos e menos causadores de identificação por parte do público – sem prejudicar em nada a ação da narrativa é inspiradora, sobretudo porque possível.

A novela anterior de Lícia, A vida da gente (2001-2012), já sinalizou muito de suas marcas autorais e de estilo, sua delicadeza ao tratar da condição humana e das peripécias do viver. Destaco a harmoniosa união de arte e vida, em uma trama altamente crível, na qual o passar dos anos e o amor construído fez com que o relacionamento entre a simplória Manuela (Marjorie Estiano) e o mocinho Rodrigo (Rafael Cardoso) vencesse uma paixão que, em qualquer folhetim, acordaria do coma junto com a personagem Ana (Fernanda Vasconcellos). Mas a escrita de Lícia Manzo é vida. E vida não é idealizada, ela vai sendo.

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Agora, em Sete Vidas, ouso referir-me à responsabilidade do ato criativo (BAKHTIN, 1920/1924), ao perceber que a autora traz para a arte um tema tão contemporâneo e científico – inseminação artificial e novas famílias – da maneira mais subjetiva, singela e atemporal: sete irmãos tentando recuperar na vida o elo biológico que descobriram.

Há diversos sentimentos e situações que prejudicam esse novo convívio, mas uma escolha pode tudo melhorar ou, ao menos, consertar: o amor. E o amor, em Sete Vidas, transborda em olhares, toques, delicadezas, no cuidado entre as personagens, nos momentos perspicazes e verossímeis de descontração e afeto. Isso sem falar nas tramas secundárias originadas desta.

Não, arte e vida não são a mesma coisa, mas podem ser unidas de maneira responsável por quem tem na escrita criativa a habilidade de fazê-lo. Por isso, arrisco a supor, quem sabe um dia, ser algo como Lícia Manzo.


Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas..
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