várias tentativas

uma imitação de vida

Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas.

Uma escolha pela selvageria

El portunhol selvagem non existe, meu bem. Hay que inbentarlo todos los days...


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O famigerado acontecimento da "peleumonia" e os debates resultantes disso me fizeram pensar sobre dois pontos.

Primeiro, sobre o quanto a gramática normativa (ou norma culta, ou variação de prestígio) da língua portuguesa é cada vez menos mobilizada, a não ser em situações pontuais, e, paralela e contraditoriamente a isso, ainda assim, é gigantesca e crescente a patrulha do "bem falar e escrever" como sinônimo de uso desta e somente desta variação. Obviamente, esse movimento ocorre sem quase nunca se consultar um linguista (mas isso é pedir demais, além de ser assunto pra outro momento).

O segundo ponto sobre que pensei foi o Portunhol Selvagem. Sim, variações linguísticas são intrínsecas e constitutivas dos nossos textos (orais e escritos), porém isso ainda parece estar longe de um reconhecimento legítimo, e tomar algo que não norma como válido e não menos importante, sobretudo culturalmente, ainda é uma questão de resistência discursiva.

Douglas Diegues en-realidad-no-existe-el-portunhol-selvagem-y-por-eso-tal-vez-sea-algo-bello-feo-lindo-rupestre-hermoso-monstruoso-anomalo-lucido-_909_573_1268322.jpg www.abc.com.py/edicion-impresa/suplementos/cultural/douglas-diegues-la-gracia-de-lo-inusitado-1398459.html

Muchos amam el power. Muchos amam el dinero. Todo bien. Non tengo nada kontra isso. Yo poderia ser um grande traficante de pedras preciosas. Pero non amo essa playa. Yo amo escribir. Escrever em portunhol selvagem com um lápis paraguayo comprado nel Mercado 4.(DIEGUES, 2016)

O portunhol é amplamente conhecido como uma prática comunicacional que se dá nos espaços fronteiriços, esse modo de fazer uso de português e espanhol é, pejorativamente,tido como uma mistura errônea, resultado da falha no processo de aprendizagem da língua estrangeira. Contudo, tomando-o como discurso, ou seja, inserção do sujeito na e pela língua, nos deparamos com um acontecimento relativamente novo em andamento: o Portunhol Selvagem.

Trata-se, em linhas gerais, de algo que posso chamar língua, mas que tomo primordialmente por movimento estético-cultural. Vários artistas, em especial Douglas Diegues (o moço da foto), escolhem mobilizar um Portunhol inventado e sempre atualizado, em produções literárias. Este é positivamente Selvagem, já que, como resistência, escolhe não se submeter às normas totalitárias em vigência para a língua, nem mesmo no texto escrito, resultado da arte; inventa-se a cada criação, mobilizando, além de português e espanhol, línguas indígenas e variadas seleções estéticas e pontuais de francês, inglês, italiano , e sabe-se lá mais o que a selvageria tiver vontade.

POEMA DE LA FELICIDADE (por Ronny Someck) Estamos puestos/ sobre la torta/ como muñecos/ de nobio y novia./ Kuando venga la kyse/ aun intentaremos/ permanecer nel mismo pedazo. *Teletransportado a lo portunhol selvagem por Douglas Diegues

Para quem ainda não conhece o Portunhol Selvagem, hay que experimentarlo! É uma das estéticas culturais de nosso tempo, explorando essa existência contemporânea que se dá em várias línguas, mas que não as une simplesmente, ou seria um idioma descritível. O portunhol selvagem, por sua vez, é "sentível", como decreta Diegues, ele "non existe, meu bem. Hay que inbentarlo todos los days...".

Assim, a resistência não se deixa limitar, liberta-se a cada tentativa de descrição e incomoda com seu status de língua também escrita. Artisticamente escrita.

Si el portunhol selvagem non te liberta de la prisión de la vida, del cárcere de la gramática normativa, del apego al nuebo acordo ortográfico, de la prision de la língua como representación del estado, la nación, la pátria, el escambau etc e tal, enton el portunhol selvagem nunca valerá puerra ninguma para usted. (DIEGUES)

Para saber mais: http://portunholselvagem.blogspot.com.br


Gabriela Souto

Escritora, roteirista, compositora, artista, letrada, boa filha. Várias tentativas..
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