veja bem

uma análise minuciosa de coisa alguma

Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo

A ÚLTIMA FOTO DE SUA VIDA

Falar que o mundo de hoje é marcado por especulação e aparência é chover no molhado. Elementos de comunicação, redes sociais e a própria vida virtual comprovam a todo instante que nunca valeu tanto aparentar ter ou aparentar ser. Ou os dois. Em uma sociedade conectada e marcada por esse tipo de conduta, as fotos, maiores ilustradoras e promotoras das maiores ilusões, exercem um importante papel: o de mostrar que, ao contrário da realidade desalentadora, naquela imagem você emana felicidade.


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Eu costumo dizer que, se numa festa você perde tempo tirando fotos com o único objetivo de postá-la instantaneamente numa rede social famosa acompanhada de uma legenda animada, talvez isso signifique que a festa não esteja tão agradável e divertida assim, caso contrário você não estaria entretido com a internet e a função câmera do seu dispositivo eletrônico da moda, mas sim com a ambientação e a agradabilidade da festa a qual você acabou de ilustrar e elogiar no mundo virtual.

Se a festa estivesse boa como sugere a fotografia postada, você estaria tomando um drinque, flertando, dançando, conversando sem usar os dedos ou interagindo. E, consequentemente, essa foto jamais existiria.

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Parece paradoxal mas, de tão real, chega a ser assustador: o primeiro objetivo das pessoas dos tempos modernos parece ser o de aparentar viver uma suposta felicidade e registrar a mentira através de uma foto postada na internet. Se a imagem reproduz a realidade, pouco importa. Se a festa está ruim a ponto de não merecer nem uma foto 3x4, não importa. O importante é que a impressão de coisa boa seja transmitida.

Já perceberam que hoje todo mundo na rede social fala três idiomas, é íntegro, não gosta de mentiras, se solidariza com a causa dos animais e das costureiras de bolsas de Taiwan, pratica esportes, fala sobre qualquer assunto e leu mais de 250 livros? Todo mundo tem a palavra certa, a atitude certa e a citação correta. Todo mundo consegue falar sobre tudo, qualquer tema, qualquer ramo e qualquer coisa. Todo mundo é tão bom que eu nem sei como existe tanta miséria e desgraça no mundo. Vai saber. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo, já dizia o saudoso poeta.

A questão fulcral é que a grande rede exterminou a materialidade nas relações entre as pessoas e a aparência das coisas prevaleceu diante da realidade. Além disso, não existe mais a materialidade nas relações como elemento comprobatório. Ou seja, você pode aparentar ser bonito e inteligente na internet e jamais se deparar com uma situação real capaz de desmascará-lo. Vive-se anos e anos apenas aparentando e não raro é constatarmos que para alguns a aparência se transformou na própria realidade.

O único elo entre o mundo real e o mundo virtual, além das pessoas, é claro, nesse contexto desalentador é a fotografia. E é aqui onde eu quero chegar.

A fotografia hoje é o que comprova que aquela mentira é verdadeira. É a basicamente a foto que hoje sustenta a aparência como sendo a própria realidade. Não é à toa que os programas de edição de foto são os tipos mais requisitados e procurados e nunca o editor de fotos foi tão importante, sobretudo na mídia impressa, periódicos e noticiários em geral. Se não há mais a visão de maneira direta, fizeram da fotografia os nossos novos olhos e, assim, olhamos não mais a realidade como ela é, mas como querem que seja.

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Dia desses me deparei com uma notícia daquelas tão vazias que, em tese, não deveriam nem ocupar espaço em lugar algum, mas que existem e seguem existindo em nome da perpetuação da alienação de boa parte do planeta. Enfim. O protótipo de escrita noticiosa em questão revelava que a cantora americana Britney Spears havia "desfilado suas celulites em Nova York", notícia, claro, acompanhada de imagem denunciadora das referidas celulites. Tempo depois, surge o outro lado afirmando veementemente que as pernas da cantora supracitada não se encontravam naquele estado e que as fotos "mostravam celulites demais naquela região", o que seria uma montagem bizarra intencionando atacar a imagem da moça. Celulites à parte, tem-se que há duas fotos totalmente antagônicas veiculadas na mídia e capazes de justificar duas coisas totalmente distintas. E isso é assustador. Talvez não no caso da cantora, mas se pensarmos que a notícia poderia ser importante desta ou daquela maneira, a coisa fica um pouco mais séria, pois temos duas fotos aparentemente reais e não poderemos saber jamais qual o real estado da cantora, nem que lado diz a verdade.

A notícia -ou algo do tipo- supracitada somente serve para ilustrar que foi por essa razão que a menina, lá no início do texto, tirou uma foto de uma situação aparentemente legal e com uma legenda animada e é por isso que vive-se hoje uma espécie de descreditação da fotografia: se antes se usavam as fotos também como ilustradoras da realidade, hoje elas são tomadas como sendo as maiores manipuladoras da realidade. Seja no noticiário ou nas redes sociais, seja para noticiar imbecilidades ou coisa séria.

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E quem nunca postou uma foto inalterada que atire a primeira pedra. Ou melhor, que não atire mas que tire nesse exato momento uma foto na webcam e a poste para que todos vejam como a realidade é feia e como o fenômeno, se me permitem o neologismo, da 'aparenciação' é bastante mais aprazível. Estamos inseridos no mundo das aparências e, assim sendo, aparentaremos. Antes valia mais o ser que o ter, depois vivemos a supremacia do ter. Em seguida veio o fenômeno do aparentar ter em detrimento do ser e hoje, absurda e paradoxalmente, vivemos o aparentar ter e o aparentar ser, tudo junto. Ou seja, hoje nada somos ou temos.

Ah, você deve estar se perguntando o porquê de o texto não ter feito qualquer referência à "Última Foto de Sua Vida", mas agora tudo se explica: Somente que eu acho que as pessoas iriam achar bastante interessante, acho até que você ganharia alguns comentários e curtidas nesta foto, mesmo após a sua morte, caso você conseguisse postar em sua rede social a foto do seu último momento enquanto vivo. Basta que o lugar aparente ser bem divertido ou que você sorria para a câmera e aparente felicidade.

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Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo.
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