veja bem

uma análise minuciosa de coisa alguma

Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo

JOGUE SEU BEBÊ NA PISCINA

A segurança é o carro-chefe do mundo civilizado dos tempos modernos. Vigilância, proteção, cercados e alarmes protegem bebês da possibilidade de afogamento tanto quanto pais protegem seus filhos da possibilidade de falhas, desilusões e derrotas. O resultado é vivermos negando aos filhos a existência não somente da piscina, mas também da vida como ela geralmente se apresenta: perigosa e difícil. O problema é que, ao contrário do que fazemos com o objeto de lazer dos dias de Sol, não há a possibilidade de cercarmos a vida.


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A Flórida tem o afogamento como maior causa mortis de crianças de até quatro anos.

O número de infantes que tem a vida terminada dessa maneira é sempre relativamente alto na região e não raras são as notícias de morte por afogamento na TV e periódicos locais, bastando uma mera busca na internet para que se verifique a presença corriqueira dessa triste realidade. Basta uma distração dos pais ou responsáveis para que o pequeno mergulhe, geralmente de maneira mortalmente silenciosa, e tenha um trágico destino.

Sabendo desse cotidiano preocupante, os governos de diversos condados do sul da Flórida, como o de Broward, por exemplo, promovem campanhas de conscientização e de primeiros socorros para os familiares, orientando-lhes das mais diversas maneiras. É-lhes dito, por exemplo, que supervisionem as crianças quando estas se encontrarem perto da água, mantendo-as a uma distância segura; orientam quanto ao uso de cercas com trancas automáticas, cadeados nas portas e cobertura sobre as piscinas; pedem que os pais as matriculem na natação assim que os bebês estejam engatinhando; pedem que os responsáveis procurem imediatamente nos lugares que contenham água quando perceberem o sumiço do bebê, dentre outros. As orientações vão das mais genéricas às mais específicas, visando sempre a segurança daqueles que não podem se virar sozinhos numa situação de afogamento.

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Nada mais natural que exista toda essa orientação para a segurança de crianças. Afinal de contas, a segurança em todos os seus níveis sempre foi um dos maiores indicativos de civilidade no processo social humano. Durante muito tempo realmente acreditou-se, e isso persiste até hoje, que quanto mais segura e confortável fosse uma sociedade, mais próxima estaria ela de um patamar superior no que diz respeito ao ato de civilizar.

Assim, escolher e comprar carne de boi, devidamente cortada em pedaços, pedaços esses com nomes específicos, e num local específico, é bastante mais civilizado que ir à caça de um bisão, e isso se dá por mera segurança. Também bastante mais civilizado é tratar um ferimento num lugar higienizado e com pessoal capacitado para tal ao invés de fazê-lo com água e orações à Deus para que a ferida não infeccione, e isso se dá também por uma questão de segurança. Também, ninguém irá discordar que proteger a criança de um lugar com piscina, colocando cercados, colocando alarmes e vigiando seus passos, tal como sugere a campanha na Flórida, é bastante mais civilizado que admitir que não estará presente a todo momento e deste modo ensinar a criança a boiar caso ela acidentalmente caia na piscina em um desses momentos de ausência ou distração dos responsáveis.

Aliás, ensinar a criança a boiar, nesse caso, seria para muitos o atestado de incompetência parental, pois sugere que você não será competente para assegurar ao infante a proteção e, consequentemente, a segurança. É admitir que mesmo sob a sua tutela a criança porerá vir a cair na água e morrer. É admitir, sobretudo, que você poderá falhar, sendo que o mundo de hoje se pretende infalivelmente seguro. Por isso, ensinar sua criança a boiar, ao invés de protegê-la até mesmo de sua intrínseca curiosidade de criança, é absolutamente incompatível com o mundo de hoje. Mas... Será?

Algumas tribos indígenas ensinam bebês a caçar, tratar e ingerir uma espécie de formiga comestível, que inclusive reage à caça mordendo pés e pernas dos caçadores. Os pais permitem que os filhos sigam sozinhos em busca destes formigueiros específicos enquanto os adultos saem em caçadas mais difíceis e que demandam dias e até semanas. É certo dizer que esses pais não protegem seus filhos, dado que a caçada mais densa e seus componentes poderiam, estes sim, causar-lhes a morte? Essa mesma tribo considera que um menino de 10 anos já é apto para proteger e, veja você, garantir a segurança de irmãos mais novos e da mãe recém-parida no caso de o pai ter de ir nessas campanhas de caça. Ao menos o menino saberá trazer algumas formigas e alimentar seus irmãos e mãe enquanto o pai não regressa. Também o menino poderá sobreviver caso o pai não mais regresse. É uma tribo indígena e, para muitos, tribos indígenas são a verdadeira marca de um traço civilizatório ultrapassado, que deve ser tido somente como um exemplo a não ser seguido ou uma prova viva de uma sociedade primitiva.

O que dizer então deste vídeo atual abaixo, que nada mais é do que crianças de pouquíssima idade, de meses, eu diria, tomando verdadeiros cursos de flutuação, para sobreviver caso caiam na água e seus responsáveis não percebam ou não estejam presentes? As campanhas, cercados, proteções e vigilância não foram suficientes ou estamos admitindo que as intempéries da vida se sobrepõem à nossa interferência diante dela? Venceu o ambiente ou a interferência a ele? Cabe dizer que o curso é tão específico para esse tipo de situação que as crianças treinam as quedas com as roupas que cotidianamente usam, para que nada interfira no processo de autosalvamento caso o uso da técnica de floating seja necessário. E isso é especialmente interessante pois demonstra que, de tão evoluídos, reconhecemos que não somos absolutos. Também nos prova que talvez as tribos ditas primitivas estejam à nossa frente no que diz respeito à plena consciência de qual é o ambiente ao nosso redor e somente agora voltamos a compreender a importância dessa exata compreensão.

Seria esta uma hipótese de regresso aos tempos idos, época em que o ambiente nos dominava mais do que nós a ele, ou uma evolução no sentido de entender que, mesmo dominadores do ambiente, mesmo capazes de colocar cercados, alarme e proteções nas piscinas, entendemos que somos falhos e por isso temos de fazer com que nossos bebês saibam se virar sozinhos no caso de falharmos?

A segurança, em todos os seus níveis, sempre foi um dos maiores indicativos de civilidade no processo social humano, ainda hoje é assim e sempre será. Contudo, o soerguimento da segurança se deu por ela ser a melhor maneira de promover a sobrevivência, e foi disso que nos esquecemos. O passar dos anos fez-nos crer erroneamente que a segurança era um fim em si mesmo, mas a segurança objetiva um fim maior que é justamente o de sobreviver.

Estamos no mundo não para viver bem, mas para sobreviver bem. No entanto, vivemos diante de uma geração que, de tão segura e acostumada com a segurança, já não consegue mais se visualizar enquanto ser vivente objeto alvo principal do mundo. A nossa geração não tem o senso de sobrevivência natural, e eu não falo aqui de aprender a caçar formigas, mas sim de brigar com o mundo e vencer valendo-se da exata noção de qual o ambiente a nosso redor e da conquista que vem através do esforço de quem luta intensamente pela própria vida. Muito pior do que não ensinar a flutuarem, os pais já não ensinam seus filhos a cairem, a perderem ou a ansiarem. Não ensinam sequer que na vida se ganha quase com a mesma facilidade e frequência com que se perde. Aos meninos é dado vencer sempre, flutuar sempre, mesmo que nunca tenham caído antes em uma piscina sem a companhia dos pais.

E assim os filhos crescem com a sensação de que sobrevivem pelo mero fato de estarem seguros em suas convicções, protegidos. Crescem absolutos, com a ilusão de que vencem, como se o mundo fosse identificá-los como vencedores pelo mero fato de existirem. E o que acontece depois? Vem a vida e prova de forma simples que vencedor é quem sobrevive, e não quem existe. Criar seu filho como se não existissem piscinas é bem diferente de mostrar a ele o que fazer caso acidentalmente caia em uma.

A vida parece até uma piscina sem proteção, cercado e alarme. E sobreviver é questão de aprender a flutuar.

Jogue seu bebê na piscina.


Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo.
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