veja bem

uma análise minuciosa de coisa alguma

Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo

AME O MOLOTOV

Ou deixe que ele te ame.


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Todo mundo sabe o que é um coquetel molotov.

Embora ninguém saiba ao certo o que é que entra na composição de um desses, todo mundo costuma tê-los como perigosos e a sua eficiência é algo absolutamente incontestável.

A quebra da garrafa e a evaporação imediata do álcool gera uma pequena explosão que, em contato com o líquido inflamável presente na mistura, desencadearia o efeito flamejante de dissipação rápida, queimando rapidamente uma boa área em um curto espaço de tempo. Entraria na composição também alguma coisa que desse aderência, garantindo a amplitude do espaço afetado. Há quem faça molotov com clara de ovo, outros preferem o sabor doce do açucar. Detergente, petróleo, gasolina, álcool.

É como se fosse aqueles programas infantis que tem um rapaz ensinando as crianças a desenhar, sabe? "Se você não tem cartolina, pode usar um papel mais grosso, crianças! O efeito é o mesmo! O importante é que você exerça a sua criatividade!". Algo nesse sentido.

Há molotovs para todos os gostos. Eles são como a comida caseira que a sua avó faz aos domingos: Mesmo cada um tendo uma avó diferente, com gostos diferentes e distintos temperos, a noção de comida de casa de avó é a mesma para todos. A diferença de um molotov para a comida da sua avó é que a comida você aprecia ingerindo e constatando a delicia que é, enquanto o molotov você arremessa para que outros, digamos, apreciem.

Tem também um pouco de artesanato na confecção dos molotovs.

Diferentemente de uma cadeira ou um Tomahawk, por exemplo, que faz parte de uma trama de produção industrial em larga escala, todos iguais, bem pesados, bem configurados, com a mesma quantidade de explosivos, produto final de um projeto bem ou mal elaborado, fruto de pesquisa, fruto de testes, fruto de investimentos milionários, sem nada de singular que não seja o número de série, o molotov vai variar de pessoa pra pessoa. Os artífices profissionais vão apresentar mãos ligeiras, concentradas no fazimento daquele molotov singular e, por mais que a fórmula de um molotov esteja na cabeça daquele artista, ele sabe que nenhum molotov será igual a outro. A garrafa pode ser aquela barata, que está encostada no canto, já sem valor. O óleo de carro pode ser aquele que sobrou na lata. Um vai ter uma garrafa diferente, vai caber mais líquido, vai levar mais detergente, vai levar menos alcool, vai ter substância de ignição, vai ter pavio, enfim.

Cada molotov é único. Cada molotov é uma obra de arte.

O artista pintou diversas paisagens com temas urbanos, mas de certo nenhuma pintura foi igual a outra. É assim com o molotov.

Existe algo de nostalgia nos molotovs em geral. Nos remete a tempos de paz e tranquilidade, longe de toda essa parafernalha tecnológica. Eram tempos os quais quase tudo poderia ser resolvido com algumas garrafas de vidro, gasolina e óleo de carro. Um molotov jamais poderá ser lançado por computador, veja você. Um míssil remotamente controlado, talvez. Mas um molotov precisa mesmo que você o faça e o arremesse, afinal de contas permanecerá inerte se assim você o deixar. Claro que você aciona torpedos nucleares através de uma conexão de internet e seria você, ainda que indiretamente, a direcioná-lo.

Mas aí é que tá. Você lança o molotov e é obrigado a ver onde ele vai, você se compromete diretamente consigo, com o molotov e com o mundo. Lançar torpedos através de botões é algo absolutamente descompromissado.

Eu me lembrei de um experimento que certa vez fizeram.

Trataram de colocar um criminoso falso dentro de uma cabine e convidaram pessoas a controlar a descarga elétrica que o suposto bandido levaria. O organizador do experimento é taxativo: Se você chegar nesse ponto aqui a descarga elétrica será suficiente para matar o rapaz que está lá dentro, portanto se preocupe em não deixar o medidor atingir esse número.

Dois grupos distintos participaram, sendo que em um dos grupos as pessoas veriam cara a cara o condenado e em outro grupo, não.

É claro que o grupo que viu o condenado de frente, levando os choques que, diga-se de passagem, era encenação, se preocupou bem mais em não deixar o medidor chegar no nível de eletricidade que levaria o criminoso à óbito. Ninguém quer ver morte alguma diante de seus olhos.

Já o outro grupo, que não tinha contato visual com o falso bandido, não poupou esforços em dar choques mais fortes, acabando por chegar diversas vezes nos limites, e até ultrapassá-los, que em teoria seriam mortais.

A conclusão do estudo foi simples. Tendemos a ser mais cruéis quando não vemos diante de nossos olhos as consequências torpes dos nossos atos. Saber que alguém está tomando choque, passando fome ou sendo bombardeada por mísseis de controle remoto não faz diferença, pois aquilo não afeta a nossa consciência de maneira direta e eficiente como afetaria se estivéssemos vendo acontecer diante de nossos olhos.

É por essa razão que bombardeio de avião é cruel, pois você mata com eficiência sem ver a face de quem está morrendo. Diferentemente de uma facada, por exemplo, situação em que você vê a vida do esfaqueado se esvair diante de seus olhos. É por essa razão, também, que o molotov é muito mais nobre que qualquer avião lançador de torpedos, bomba nuclear e diversos outros aparatos militares tecnológicos de impacto. Há de ter hombridade, nobreza e coragem para se lançar um molotov. Um molotov voa diante de seus olhos.

E falando em tecnologia, imagine que mesmo em tempos tão modernos, de smartphones, de carros automáticos, de sentimentos automáticos e mesmo tudo podendo ser feito no conforto do lar, ninguém ousou atualizar o método de interação de você com o molotov. Perceba o primor, perceba o que é a tradição. É todo ele manual. Nada de twittar o molotov, nada de comentar sobre ele e nem curti-lo no Face. O molotov está aí para ser jogado. Precisa de uma garrafa e de alguém que o lance, que calcule a sua trajetória no ar como quem calcula uma parábola daquelas dos cálculos de matemática e física.

"Uma bola arremessada por João descreve uma trajetória em forma de parábola, cujo vértice tem valor..." falava o professor de física ao resolver determinada questão. E eu sempre pensando que o exemplo ficaria melhor se, ao invés de uma bola, João arremessasse um molotov. Tenho certeza de que as aulas de física ficariam tão interessante quanto as de história se, ao invés de arremessar bolas no vácuo, João arremessasse molotovs na rua. Acho que a dita interdisciplinariedade educacional tem um pouco a ver com isso. Física e História juntas, e o molotov promovendo essa união.

Por falar nisso, o molotov promove a união e com certeza vai aproximar você das pessoas que tanto ama.

Tem um filho que não vai com sua cara? Convide ele para montar um coquetel molotov juntos. Nada pode unir mais que um molotov lançado à dois na mesma direção.

E, caso não tenha a quem amar, ame o molotov.

Ele ama você e precisa somente de uma oportunidade.


Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo.
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