veja bem

uma análise minuciosa de coisa alguma

Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo

KAFKA E O ASTRO POP

Muitas vezes a vida parece até um roteiro de livro que já lemos.


edward-r-shaw-metamorphosis2.gif

Hoje cedo estava eu assistindo ao noticiário quando me veio a notícia de que uma petição que já conta com mais de cem mil assinaturas, feita em rede por meio de uma seção da página oficial da Casa Branca, de nome "We The People" e que serve para que os populares se manifestem por abaixo-assinado e petições, pede que o governo dos Estados Unidos deporte o cantor canadense Justin Bieber.

"Nós, o povo dos Estados Unidos, sentimos que não estamos bem representados no mundo da cultura pop. Gostaríamos de ver o perigoso, insensato, destrutivo, e consumidor de drogas Justin Bieber deportado e com sua permissão de residência revogada" é o que diz um trecho do documento presente na referida seção e agora veiculado em algumas páginas da rede.

Foi nessa hora que me lembrei de Gregor Samsa, personagem de Kafka de algum modo semelhante ao astro pop.

Diz a história que Samsa, um dia, acordou transformado em um inseto gigante. Comerciante que abdicou de sua vida para trazer provimentos aos seus familiares, agora era ele quem não mais trabalhava e necessitaria de ajuda familiar, sobretudo porque agora possuía carapaça e algumas patas. O problema é que o inseto, antes provedor, passou a sofrer a ojeriza familiar por conta de sua aparência repugnante. Desolado, Samsa descobre da pior maneira que era um reles gerador de dinheiro para a família e nada mais. Tratam até de criar nova fonte de renda dentro no seio familiar, pois os seus parentes passam a alugar quartos e não mais precisariam de sua força de trabalho. E, sem necessitar financeiramente de Samsa, não se precisa mais prestar qualquer devoção ao agora inseto.

Procurava Kafka alertar o homem sobre o quão cruel pode ser a reação do mundo à mudança brusca de aparência e comportamento. O prestativo e devotado Samsa, mesmo depois de doar-se à família por inteiro, recebeu rechaço e isolamento ao se ver modificado e transformado em monstro.

Pois bem.

Tal como o afeiçoado Samsa, Justin Bieber financiou, dia após dia e com afinco toda uma cultura. Descoberto em meio à mística da realização do american dream a partir do aproveitamento de uma chance de ouro, o garoto ganhou fama, enriqueceu empresários, alavancou marcas, revigorou o pop americano, batizou produtos com seu nome, novamente enriqueceu empresários, arrancou gritos de adolescentes, fez bilhões para a sua família e tudo isso sem, claro, deixar de lado o seu aspecto religioso. Justin Bieber é canadense, mas era claramente uma amostra de verdadeiro wasp americano: é white, tem evidentes características de anglo-saxan, é protestant e não só gerava e vivia em meio às riquezas da nação, como também partilhava e disseminava a cultura dela. Bieber estava em casa e provinha sustento a si e aos seus familiares.

Contudo, era a hora da metamorfose repentina do golden boy e um dia o menino acordou transformado. A carapaça veio na forma de adolescente inconsequente e revoltado e as várias patas surgiram na forma de vários problemas com drogas, bebidas e depravações. O jovem que proveu à família por anos - sem deixar de cantar em corais de igrejas protestantes, para felicidade geral da nação - agora era o perigoso, insensato, destrutivo e consumidor de drogas Justin Bieber, como diz a referida petição.

E, tal como Samsa, Justin Bieber acabou ficando horrendo e inaceitável para a sociedade e para seus familiares. O astro deve se imaginar importante e deve se sentir amado mas, se a vida real continuar seguindo o roteiro de Kafka, talvez Bieber deva descobrir da pior maneira que é um reles gerador de dinheiro e nada mais.

E a família vai procurará outra fonte de renda.


Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// //Felipe Vega