veja bem

uma análise minuciosa de coisa alguma

Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo

Pureza

"Cresceu, pois, o bebê, um mal crescido. Não falava direito. Aliás, não conseguia falar. O pior é que era ele a esperança da família. Uma família amargurada. Que depositava naquela criança toda a esperança de uma família amargurada. Seria ele um ator de novela. Seria um arquiteto. Ah, claro que seria um doutor, advogado, médico. Mas tudo acabou com a queda. Bateu a cabeça. Sequelas."


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Caiu das mãos da prima. Um baque forte. Sangue. Emergência. Sequelas.

Cresceu, pois, o bebê, um mal crescido. Não falava direito. Aliás, não conseguia falar. O pior é que era ele a esperança da família. Uma família amargurada. Que depositava naquela criança toda a esperança de uma família amargurada. Seria ele um ator de novela. Seria um arquiteto. Ah, claro que seria um doutor, advogado, médico. Mas tudo acabou com a queda. Bateu a cabeça. Sequelas.

Sequelas dele e da família.

E a culpada foi Pureza. Pureza era a prima. Formosa. Belas curvas. A puberdade tinha feito bem a ela. Cresceu como quem nunca houvesse derrubado primo recém-nascido algum. O tempo tratou de debochar dela, ao dá-la culpa e beleza imensas.

Já Cássio, o menino prodígio que não foi, cresceu aleijado. Cresceu aleijado de corpo e de espírito. Cada frase que ele não dizia exalava um cheiro forte de desagrado. Malmente pronunciava. No começo, até tentou com a terapia fonoaudióloga. Sem sucesso. Depois parou sequer de tentar dizer o que quer que fosse. Preferiu que o silêncio constrangedor e seu aspecto falasse por si sós.

Passou um tempo.

Pureza, sempre bela e sempre culpada, cuidava do primo. Dava-lhe comida. Dava-lhe banho. Já havia constatado que o sangue circulava bem em sua intimidade e tantas e tantas vezes imaginou como seria se ele nunca tivesse caído de suas mãos. Teria tido namoradas. Satisfá-las-ia bem, a julgar pelo tamanho. Faria filhos. Constituiria uma outra família amargurada. Mas, claro que não. Ela tirou dele a possibilidade dessa sensação.

E de novo a culpa.

E Cássio não falava, mas pensava. Sabe-se lá o que pensava. Imaginavam que o cérebro também tinha se alterado com a queda. Mas, se o cérebro fosse aliado dos instintos, razão e emoção não brigariam tanto, afinal de contas. E o instinto aflorava-lhe. O instinto de homem.

Pureza, a dona de toda a culpa, teve um namorado. Foi o cara que disse a ela, numa negativa da moça às suas investidas, que o homem precisava de coisas. Coisa que não era preciso dizer. Era instinto. Ela refletiu. Terminou depois com o namorado. O cara não trabalhava, só falava em ser escritor. E não dá pra viver de sonhos. Vai saber.

A falta de voz e de vontade de falar do filho só alimentavam a tristeza do pai. Ele, é claro, queria ver o filho dizer. Imaginava sempre como seria a criança argumentando com o pai que não era problema tomar sorvete antes de almoçar. E depois o rapaz argumentando com o pai que não foi ele quem causou aquela mossa no carro. Pureza sentia a culpa nisso tudo. E a pior culpa é sempre aquela que não vem pelo apontar de dedos dos outros, mas cresce dentro de nós, alimentada por nós mesmos.

Não importa. Pureza não havia esquecido da fala do antigo namorado que dizia que o homem precisava de coisas. E associava aquilo tudo ao infortunado menino que, mesmo se precisasse de coisas, teria de ter a benevolência de alguma mulher para facilitar-lhe os trabalhos. Começou a pensar que teria visto, aqui e ali, olhares desejosos de Cássio. O homem precisa de coisas, afinal.

Era isso.

Se ela tirou-lhe a fala com a queda, que pagasse dando-lhe aquela parte da masculinidade que faltava a ele. O aleijado não seria capaz de reclamar. Nem falar ao tio o quão vagabunda ela era a dois. Nem dizer aos amigos o quanto ela se dedicava naquelas práticas. Pensou que poderia também usar o primo sempre que quisesse satisfazer, ela, os seus desejos. Sorriu. Fazer o primo gozar pela primeira vez era um pensamento que também a deixava excitada como nunca.

Observe como é a vida.

Em um dos banhos habituais, tocou ela a ele provocativamente. Percebeu com sensualidade os olhos inicialmente assustados de Cássio, mas que depois compreenderam que aquele não seria um banho comum. Seu sexo reagiu. Ergueu-se. Ela então se posicionou. De fato, ela era dedicada. O primo, ainda que falasse, somente sentiria. Qualquer homem naquela situação deixaria de lado as palavras, de modo que pouco valia o seu não-dizer. Sensação única. Dele, que nunca tinha experimentado aquele contato íntimo e dela, que compreendeu que o excesso de sentimentos truncados pelas circunstâncias daria a ela também toda uma singularidade de sentir. A culpa misturou-se ao ressentimento e ao desejo, que se misturaram à caridade, ao amor. Não tinha dúvidas de que fazia isso por amor. A constatação terminava em excitação ainda maior. Amava o primo e queria pedir perdão a ele com o sexo, mesmo depois de tanto tempo. Deixaria que as intimidades dialogassem para que as almas se entendessem. É assim com todo mundo, afinal. E em mais um banho de excitação, fez seu primo chegar ao ápice.

"É o que você sempre quis, não é?"

Assim, Cássio gozou. Sentia-se cansado, satisfeito e vingado. Sentia-se apavorado e violento. Jamais imaginou, mesmo tendo ele as imaginações adulteradas, que os olhares da prima significavam aquela quantidade de desejo. Mas, não. Era benevolência. A prima nunca foi capaz de dar a ele qualquer tipo de esperança nesse sentido. Mesmo tendo ele olhado com volúpia para aquele corpo perfeito diversas vezes. Ela nunca os retribuiu, ele pensava. Era como imaginar que uma mãe sente desejo por um filho. Impossível. Mas que havia acabado de acontecer. Era inexplicável e real. Logo ele. Torto. Aleijado. Maravilhado.

Pureza ainda se recolhia, juntava as suas roupas quando Cássio – veja você – se preparava para dizer algo. Ela sabia disso pelo balbuciar. Também pelos olhos revirados graças ao esforço que ele fazia. Gozar é fácil. Já falar, nem para os de boa dicção. Estava vermelho e em meio a tanta agonia se debatia a formular, letra por letra, peso por peso, o pensamento.

"Pu..."

Estava engasgado, pela vida e por tantos anos com aquela palavra presa na garganta. Pureza, curiosa e extasiada com aquilo tudo, aguardava que o esforço se transformasse em som depois de tantos anos. Ele vai dizer. Vai falar o nome daquela que talvez tenha dado a ele o maior presente que ele jamais vai ter: O da liberdade plena promovida pelo gozo sexual. Iria finalmente reverenciar a sua nova deusa, dizendo-lhe seu nome. Foi isso que ela pensou, quando já se preparava para sorrir com complacência diante das primeiras sílabas que se formavam.

“Pu...ta..!”

Ninguém jamais soube que Cássio, o aleijado de corpo e de espírito, disse qualquer palavra dentro daquela casa.

Pureza nunca tinha ouvido tanto.


Felipe Vega

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