veja bem

uma análise minuciosa de coisa alguma

Felipe Vega

Adepto do livre pensamento crítico-imaginativo

ZILLA E A CAVERNA DE PLATÃO

Quão facilmente acreditamos em realidades distorcidas?


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Um dos meus primeiros textos como colaborador da Obvious tratava exatamente da preponderância da aparência em detrimento da realidade, muitas vezes cruel e desoladora, na qual estamos submetidos. Dizia eu, à época, que hoje em dia mais vale aparentar felicidade, boa forma física e intelectualidade do que necessariamente viver nesses estados de consciência.

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Com a popularização da internet e sua evolução, grande parte dos contatos passaram a ser feitos por transmissão de dados. E as relações interpessoais lamentavelmente seguiram esta nova tendência. Não mais era necessária a presença física, pois a comunicação acontecia sem que nenhum dos interlocutores deixassem o conforto do lar ou do trabalho. O telefone já fazia este papel afastador de corpos, é bem verdade, mas a internet tratou de fazer com que nem mais a voz fosse necessária.

No entanto, a eterna vontade de nos mostrar permaneceu e as redes sociais se revelaram uma ótima alternativa para o suprimento da nossa carência socioafetiva. Sem que precisássemos largar mão do conforto e da escuridão das nossas cavernas, tudo poderia ser compartilhado - mesmo as mais diversas inverdades.

Nesse diapasão, as fotos e vídeos se elevaram à posição de elementos comprobatórios das distorções do real que tanto são reproduzidas. A rede social virou uma espécie de sombra da caverna de Platão e, voltados à ela e sem podermos nos desvencilhar, tomamos aqueles espectros audiovisuais como sendo a própria realidade, ao passo que projetamos nos muros os nossos próprios espectros. E tal como a de Platão, qualquer um que ouse sair dessa caverna, descobrir o mundo real e voltar para nos contar como ele é corre o risco de ser ignorado, tomado como louco e morto por inventar mentiras.

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Nunca foi tão fácil burlar a realidade porque nunca estivemos tão distantes dela.

Foi o que recentemente provou a holandesa Zilla van den Born, designer de 25 anos que mentiu para a família que faria uma viagem de férias para o sudeste da Ásia e se trancou por 42 dias em casa. Não levantou a menor suspeita nem preocupou seus familiares pois todos eles acreditaram que ela tinha realmente feito a viagem - seus pais até a levaram ao aeroporto - já que sua rede social foi sempre sendo atualizada com fotos dela, todas editadas no Photoshop, nos lugares mais diversos. Até chamadas por internet den Born fez aos pais e bastou um guarda-chuva e algumas luzes pisca-pisca de Natal para que ela simulasse um hotel asiático. Some-se à isso pratos típicos por ela mesma cozinhados, bronzeamento artificial e fotos de um mergulho feito na piscina de sua própria casa e você tem uma perfeita projeção da realidade.

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A experiência decorreu de um projeto acadêmico levado bastante a sério pela holandesa que rendeu não somente bons resultados na universidade como teve enorme repercussão na internet. Todo o processo pode ser visto através de vídeos e fotos postadas por ela na rede.

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"Eu queria provar quão facilmente acreditamos em realidades distorcidas", ela disse. "Eu quis que as pessoas ficassem mais atentas ao fato de que as imagens que vemos são manipuladas. Nós criamos um mundo ideal online que não mais se relaciona com a realidade".

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Felipe Vega

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