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Porque "o futuro é sempre maior do que as nossas análises..." (Bernard Bro)

Anderson Francisco

Aprendi que o futuro é sempre maior que nossas análises; por isso mesmo não perdoa nossas omissões.

O filósofo de botequim - uma digressão sobre a morte

Montaigne disse, certa vez, que filosofar é aprender a morrer. Não se trata de exercitar ou descobrir formas de por fim à vida, mas preparar-se para o inevitável. Afinal, o transcurso da vida de cada ser o leva ao mesmo destino: a morte. Uma pergunta, portanto, é fundamental: quando a "indesejada das gentes" chegar, como nos encontrará?


Imagen Thumbnail para BingWallpaper-2015-11-01.jpgA cultura mexicana encontra na morte um elemento lúdico. Imagem: Bing Wallpaper

Era um sábado, como tantos outros, ensolarado e quente. Alguns amigos e eu conversávamos descompromissadamente em torno de uma mesa quando ouvi de um homem - que estava em outra mesa tentando, como nós, amenizar o calor entre um gole e outro - a seguinte frase:

– Cada um tem o seu dia. Tudo mais é utopia.

Foi como se me tivessem acertado uma pedrada. Depois de um momento, porém, voltei à conversa com os amigos, mas, a frase continuou na minha cabeça e foi a única que guardei na memória de todas que foram ditas, sobre os mais variados assuntos, naquela tarde de sábado.

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A maioria das pessoas evita falar sobre a morte. No entanto, muita gente também gosta de falar sobre ela. A morte é tema das mais diversas áreas do conhecimento humano, como a literatura, a psicanálise ou a filosofia. É um assunto incômodo e ao mesmo tempo interessante. A morte sempre esteve presente, mas também nos parece algo “fora de lugar”, como uma geladeira em cima da cama ou uma TV dentro do forno.

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Sigmund Freud acreditava que possuímos uma tendência de “por a morte de lado, de eliminá-la da vida” ou ainda “reduzi-la ao silêncio”. Para o pai da psicanálise, essa tendência nos leva a enfatizar as causas da morte como uma maneira de justificá-la ou racionalizá-la. Expressões como “foi um acidente, uma tragédia”, “já estava doente”, “a idade já era avançada” reforçam, inconscientemente, aquele sentimento de que “algo está fora do lugar”. É preciso encontrar a causa pela qual a morte bateu à nossa porta. Freud ainda nos dá um exemplo curioso dessa sensação de deslocamento provocada pelo contato com a morte: “diante do morto, assumimos uma atitude particular, quase que uma admiração”. Evitamos, inclusive, criticar o morto: de mortuis nil nisi bene, ou seja, “não se fale mal dos mortos”.

ocu.jpg "No dia seguinte ninguém morreu" - As intermitências da morte.

Na literatura, vários escritores trataram da morte em suas obras. O português José Saramago, Nobel de literatura, imaginou, em seu romance As intermitências da morte, o que aconteceria se a morte decretasse greve ou se começasse a enviar cartas às pessoas avisando-as sobre o dia em que morreriam. Outro Nobel de literatura, o colombiano Gabriel García Márquez, também tomou a morte como inspiração. Em um de seus contos, O afogado mais bonito do mundo, é a presença da morte, na pessoa de um afogado encontrado na praia, que enche de vida uma pequena vila de pescadores do Caribe.

afogado.jpg Ilustrações de uma das edições do "O afogado mais bonito do mundo" de García Marquez.

O filósofo grego Epicuro afirmou que “a morte não é nada para nós”, pois quando ela chega, nós nos retiramos. Ela é, se preferirmos ainda, “a curva da estrada”, segundo Fernando Pessoa: contornando-a, deixamos de ser vistos. De tudo que até aqui se disse e que poderia ser dito ainda sobre a morte, uma coisa é certa: ela é o que nos torna iguais. Do mais poderoso ao mais simples, todo homem é mortal. E essa certeza é o que permite que um homem qualquer, em uma mesa de bar qualquer, em um sábado qualquer, quente e ensolarado, possa igualar-se ao mais eminente filósofo, poeta ou escritor.

“Cada um tem o seu dia. Tudo mais é utopia”, disse o filósofo de botequim.

Ainda bem que não sabemos quando ele chegará.


Anderson Francisco

Aprendi que o futuro é sempre maior que nossas análises; por isso mesmo não perdoa nossas omissões. .
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