ventilador de ideias

Arte e Cultura nos envolvendo como uma brisa

Gustavo Silva

Mestre em História pela UFCG na área de Cultura e Cidades. Além de produzir sobre sensibilidades urbanas, possui grande interesse em cinema, futebol e outras artes.

O protagonismo da violência no atual cinema sul-coreano em 7 bons exemplos

Como a política e a cultura da Coreia do Sul, associado a diretores ousados, praticamente criaram uma nova forma de se fazer filmes de ação/violência no cinema mundial.


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Explosões, rajadas de tiros quase intermináveis e mocinhos musculosos lutando contra vilões que representam o mal encarnado. Esqueça estes arquétipos típicos de Hollywood nos filmes de ação/violência produzidos na Coreia do Sul. O país do Oriente vive um momento de grande ascensão de sua economia, e este fator de certa forma repercutiu diretamente na indústria cinematográfica, pois nunca se fez tantos filmes na Coreia como nas últimas décadas. As produções são diversas: dramas, comédias, suspense, ação. Sendo este último um dos mais consumidos naquele país e no resto do mundo, expondo singularidades fantásticas no mundo da Sétima Arte.

Os filmes de ação coreanos possuem elementos de violência muito peculiares, refletindo diretamente aspectos da cultura e das leis locais. A Coreia do Sul possui uma rígida política de desarmamento dos seus cidadãos, possuindo uma das mais baixas médias de número de armas por habitante – menos de 1% da população possui armas de fogo. Mas por outro lado, o clima de tensão existente com a vizinha Coreia do Norte é responsável pelo rígido serviço militar de dois anos de duração, no qual os homens são obrigados a aderir.

Com a posse de armas sendo algo tão raro, os filmes de ação sul-coreanos utilizam outros mecanismos para dar uma pitada de verossimilhança às suas produções. Deste modo, os filmes mais icônicos do estilo quase não fazem uso de armas de fogo, gerando um resultado muito legal: coreografias mais realísticas - nada de sonoplastia exagerada para socos e pontapés, e muito menos golpes de artes marciais onde o mocinho é capaz até mesmo de voar. Algumas brigas parecem acontecer no improviso como socos que erram o alvo, escorregões, dedos nos olhos e mordidas, gerando um clima de “briga da rua” muito interessante e que pode ser encontrado nos excelentes Old Boy (2003) e O Caçador (2008). Tudo isso acabou tornandosingular as produções do estilo neste país; qualquer tentativa de comparação com os filmes de violência feitos no Japão, China ou nos países do Ocidente será frustrada. Outro fato marcante no atual cinema de ação da Coreia do Sul é a ausência de heróis ou de qualquer tipo de idealização do ser humano. Os protagonistas geralmente questionam e batem de frente com as questões da moral e dos bons costumes, ocupando lugares sociais extremamente marginalizados tanto no ocidente como no oriente.

Abaixo segue uma lista com alguns filmes repletos de viciados, cafetões, mafiosos, policiais corruptos e matadores de aluguel descendo a porrada.

Old Boy (2003)

De: Chan-wook Park

Talvez o mais conhecido filme do gênero e que acabou de ganhar um remake hollywoodiano. A película conta a saga de Oh Dae-Su, homem que foi sequestrado e trancafiado por 15 anos dentro de um apartamento. Sem qualquer explicação ele acorda livre na cobertura de um prédio. Mesmo confuso ele tem dois objetivos: Saber os motivos que o levaram ao cativeiro e em seguida a se vingar com todas as forças.

Cena marcante: Ótimas cenas de ação são encontradas nesta obra prima de Chan-wookPark, mas a da luta com o martelo é sensacional.

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No Mercy for the Rudes (2006)

De: Park Chul-hee

Este filme mescla violência com pitadas de humor. Um chef solitário trabalha nas horas vagas como matador de aluguel para poder pagar uma caríssima cirurgia que lhe devolverá o dom da fala. Sem dizer uma só palavra o personagem conhecido apenas como “Killar” está sempre recebendo novos trabalhos seguindo apenas uma regra pessoal: matar apenas quem merece morrer.

Cena marcante: A forma como Killar utiliza a faca em suas vítimas.

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O Caçador (2008)

De: Na Hong-Jin

Este é um dos mais perturbadores filmes de violência que já vi. Joong-Ho é um ex-policial que se tornou um cafetão no submundo coreano. Ele percebe que o desaparecimento de duas prostitutas em poucos dias não foi obra do acaso, dando início a uma trama de perseguições e busca por justiça com as próprias mãos.

Cena marcante: A perseguição entre protagonista e assassino pelas ruas é de pular do sofá.

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Eu Vi o Diabo (2010)

De: Jee-woon Kim

Um policial quer se vingar do serial killer que matou sua namorada de uma forma lenta e dolorida: Ao invés de simplesmente prender o malfeitor, aplica-lhe uma bela surra e sem que ele perceba, instala um rastreador no seu corpo. Agora toda vez que o bandido está prestes a agir, o vingador aparece, desce a porrada e mutila uma parte de seu corpo e novamente o liberta, seguindo esse ciclo até que não exista mais nenhum membro para ser quebrado.

Cena marcante: A luta na estufa é sangue no olho!

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Lady Vingança (2005)

De: Chan-wook Park

Uma estudante de 19 é presa acusada de ter matado uma criança de 5 anos, gerando uma grande comoção nacional. Após pagar uma pena de 13 anos de prisão, sofrendo vários tipos de violência, ela quer se vingar do verdadeiro assassino, um personagem acima de qualquer suspeita. Este filme fecha da trilogia da vingança de Chan-wook Park.

Cena marcante: É difícil dizer uma cena marcante sem soltar nenhum spoiler, mas garanto que o final é daqueles que marca!

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Senhor Vingança (2002)

De: Chan-wook Park

Não direi muito, apenas leiam uma das sinopses mais populares sobre o filme e me digam se não dá vontade de ver imediatamente: “Ryu é surdo-mudo. Sua adorada irmã precisa com urgência de um transplante de rim. Na ausência de doadores compatíveis, Ryu recorre ao mercado negro, mas é trapaceado e perde todas suas economias, bem como o próprio rim. Ryu então é convencido por sua namorada a sequestrar a filha de quatro anos do empresário Dong-jin para custear a cirurgia de transplante. Mas o sequestro não funciona como esperado: a irmã de Ryu se suicida e a menina raptada morre afogada. Sem outros motivos para viver, Dongjin e Ryu vão preparar implacáveis planos de vingança um contra o outro. Senhor vingança é a primeira parte da trilogia de vingança de Park Chan-wook.” E aí? Não tem como uma história dessas não ser instigante!

Cena marcante: Todos os acertos de contas entre Ryu/mafiosos/Empresário.

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Influenza (2004)

De: BongJoon-Ho

Este média metragem é diferente de todos os outros aqui citados. Se trata de um documentário realizado a partir de câmeras de segurança espalhados por Seul que testemunharam a evolução criminosa de um aparente mal sucedido cidadão comum que se torna ladrão. As câmeras captaram suas ações de forma tão crua e sua violência é tão sufocante que me fez questionar se aquilo ali não teria sido montado ou ensaiado. Um relato desnudo sobre a banalização da violência urbana e desigualdade social.

Cena marcante: O roubo final no caixa eletrônico ficou martelando na minha cabeça por dias.

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Gustavo Silva

Mestre em História pela UFCG na área de Cultura e Cidades. Além de produzir sobre sensibilidades urbanas, possui grande interesse em cinema, futebol e outras artes..
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