ver·bor·rei·a

Falar é preciso com a mesma precisão de correr em círculos.

Josué Avelino

Desnecessário. Amante de muitas coisas, muda frequentemente de prioridades (e opiniões). Tenta escrever sobre coisas que gosta, na maioria das vezes só consegue escrever sobre o que sente. Analista do comportamento e crítico da Psicanálise.

Transição

A vida é marcada por etapas e transições que vivenciamos entre estas. Comemoramos aniversários, virada de um ano para outro, casamentos, formaturas e etc. Não é diferente com nossos gostos, em particular a música, ainda que não comemoremos quando esquecemos de um artista enquanto nos aprofundamos em outro.


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Grande parte de nós não mantém pela vida inteira o mesmo gosto musical ou os mesmos artistas favoritos, é até comum que a música acompanhe diretamente os períodos em que vivemos e como vivemos, e soaria estranho se num momento de felicidade nos isolássemos no quarto ouvindo aquela velha playlist de canções depressivas a nível corta pulsos, ou talvez não, deve existir quem se sinta feliz ouvindo as músicas mais tristes do mundo. E como gosto de dizer, o gosto musical e o que se sente escutando suas músicas favoritas são determinados, em maioria, por contingências individuais. Só a pessoa sabe do que sente e do que lhe agrada, e isso dificilmente nos é acessível, a não ser por relato verbal do próprio indivíduo. Ainda que siga modismos, tendência ou só acompanhe o que a rádio/tv mostra, acredito que gostar de música envolve mais do nosso aspecto emocional do que podemos presumir.

Vou evocar o lado mais pessoal para conseguir falar de nós, que de certa forma, vivenciamos a música como parte intrínseca de quem somos e como nos sentimos. Lembro que segui uma ordem cronológica muito incomum aos meus amigos, que começaram do mainstream e foram se aprofundando nos redutos do underground ou se perdendo completamente na música pop. Também comecei com as bandinhas óbvias de new metal, mas logo saltei pro fervoroso e religioso Black Metal e seus agregados, me rendendo e buscando artistas que ninguém, além de um punhado de estranhos na internet, havia ouvido falar. Fui daqueles garotos esquisitos que gastavam horas do seu dia reclamando do cristianismo ao som de Mayhem, Sarcófago, Satyricon e Samael, sem esquecer o Marduk, como num grito desesperado por atenção ou aceitação. Era uma fase de conflito, de confusão, de desespero e todas essas bandas, que já nem consigo ouvir com a mesma simpatia, diziam muito de mim e de como me sentia. E sendo Black Metal era cabível presumir que eu me sentia horrível. Não me lembro o ano ou em que momento eu decidi voltar os ouvidos para outras coisas, lembro que baixei por acaso o Something To Write Home About do Get Up Kids, num primeiro momento detestei, mas algo naqueles acordes me convenceu a continuar escutando, ainda mais por ser um gênero detestado, o tal do emo, e eu ter uma inclinação ao que considerem subversivo ou tosco. De certa forma foi uma virada em minha vida, algo como um réveillon de fase musical, mas dizer isso seria tosco demais.

Desde então o meu gosto musical tem passeado por áreas diversas, gêneros praticamente antagônicos, tanto quanto as pessoas que conheci. Mas a música continua falando por mim, dizendo do meu estado de espírito/humor ou de como a vida tem me agraciado ou castigado. Muda-se de ritmo na medida em que muda-se de amigos, roupas, discos, livros. Ainda que muitos, como eu, permaneçam grande parte da vida com uma mescla de tudo isso. Amigos novos e antigos, roupas velhas e roupas a comprar, discos preferidos e descobertas aleatórias numa madrugada de insônia. E penso que, para as gerações recentes, essas que vivem conectadas, a variedade só cresce, os gostos mudam rápido e o acesso a coisas novas é uma crescente sem precedentes. Talvez sem a internet eu seria como aqueles velhos musicalmente religiosos, presos a mesma tribo e gênero durante toda a vida. O fato é que a informação global nos deu um mundo de possibilidades e, mais do que nunca, a música é uma experiência tanto coletiva como individual. Alguns até diriam da relação direta entre música e espiritualidade. Mas essa é outra história e não é agora que eu vou contar.


Josué Avelino

Desnecessário. Amante de muitas coisas, muda frequentemente de prioridades (e opiniões). Tenta escrever sobre coisas que gosta, na maioria das vezes só consegue escrever sobre o que sente. Analista do comportamento e crítico da Psicanálise..
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