verbo in-verso

... a palavra poética e seus desavessos...

Fábio Santana Pessanha

Atravessado por palavras... em dobraduras de silêncio...

Um sopro de palavras para Clarice Lispector

Do início da leitura do romance "Um sopro de vida", de Clarice Lispector, nasceram palavras encantadas por dúvidas. Um olhar tornou-se vários e o arrebatamento deu-se repentino. Aqui se encontra um momento de morte, um instante-já onde a vida se torna palavra e devires.


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Este pequeno tecido poético de palavras é para Clarice Lispector... ao começar a ler Um sopro de vida – último romance da autora, concluído às vésperas de sua morte –, fui tomado por instantes de outroras. Num papel qualquer que estava por perto, registrei algumas infinitudes, pois palavras são imagens de infinitos que quando se cruzam com o traço do silêncio desenham tentativas de eternidades nas curvas das letras.

Desse encontro de olhares com a obra de Clarice, o que ficou foi o tempo de uma eternidade em gestação. Cada qual – leitor e obra – com seu rascunho de pensamento inunda o tempo pela brevidade de um suspiro. Respirar é ter a experiência do mundo inaugurando vidas no interior do corpo, da mesma forma que se registram silenciosos atos mortais no epitélio esfumaçante da vida. Assim se coadunam realidades no íntimo de nossos abraços, pois abraçar é se perder em quem somos. Nenhum abraço é dado em vão: cada círculo que se fecha no interior dos braços resgata a dúvida de uma existência revivida, fomenta um “em si mesmo” dentro do mistério da vida corporal. Daí, vislumbra-se a acontecência do outro... E esse outro somos nós no instante em que obliquamos horizontes em nosso ver.

Dadas essas condições de entranhamentos múltiplos, deparei-me com o hoje. E concebi pecados sem cura. Dediquei-me à liturgia do imprevisto e saltei em direção ao verbo. A palavra é uma contingência de afazeres sem função. Falar é ser no repente da letra, dar à voz os contornos de instantes.

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São quatro da tarde e em torno o silêncio. Um pensamento me rouba os sonhos e percebo: a eternidade não começa nem termina. A sensação de fazer parte de tudo que não conheço tem a ver com a criação, com o minuto último que inicie a breve celebração dos dias. O dia é caos!

Quando o olhar ganha a distância do longe, o infinito se refaz lúcido em retinas perdidas. Em torno das quatro da tarde, o silêncio se alarga em todas as direções e eu me invisto nele. O coração crepuscular do tempo bate em frequências translúcidas, trazendo na calma das futuras horas o descampado do porvir. E nesse intervalo onde moram todos os medos, levantei os ombros ao céu, finquei meus pés na terra e me tornei a paisagem onde nascerão os filhos do meu corpo. Meu corpo me contorna e cria imagens várias do que não sou.

Esse silêncio que toma minhas vistas confunde horizontes quando, no que toco, imagens voam de suas asas. A ilusão de meus dias alternam poentes com a razão. Afinal, qual o sentido de colher nos olhos a realidade, se esta não se encantar nas quinas de minhas dúvidas? A certeza é a maior queda. Definitivamente, a errância que compreende um caminho é o destino cravado nas solas de pés fundados na dúvida. E errar é se ater ao limite entre céu e sol.

Com esses dizeres abandonei uma vida e estou partilhando outridades no que concebo ser o agora. Com Clarice Lispector respirei encantos... minha palavra se tornou sal e assombro de quem ainda não sou.

Referência

LISPECTOR, Clarice. Um Sopro de Vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.


Fábio Santana Pessanha

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