verbo in-verso

... a palavra poética e seus desavessos...

Fábio Santana Pessanha

Atravessado por palavras... em dobraduras de silêncio...

sete maneiras de dizer não a perguntas impossíveis

dizer não é uma dádiva, isso não é novidade. o importante é como permanecer no absurdo, então, o não funciona para além de uma negação: é um encantamento palavral. aqui, sete modos de enaltecer o impossível.


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desde a cara que te olha em cobrança pela afirmação de uma resposta que não existe até o tronco esquálido daquele que te mira de soslaio, na expectativa de uma derrapada, queda ou trambicagem, o difícil é dizer não. para embaralhar ainda mais o assunto, lanço ao vento e aos leitores interessados em corroer a certeza por dias melhores essa proposta para usos desusados do não, sem que se precise baixar a cabeça para a concordância com quem necessita de um lastro inestimável de paragem. ao besta que te pede sim, diga não, assim:

1 - quer acreditar nessa salvação que te tira da tua própria ira e te faz passivo assíduo da tua perdição?

não, a perdição é meu guia, nela me embrenharei. cada susto, cada queda, cada ínfima agonia tece a roda que me gira no meio das vidas e erros tirados da falsa cisma de um caminho sem esquinas.

2 - aceita trocar de alma para uma menos perfurada, com mais retidão?

não, as nuances me deleitam. as curvas me comprazem. a epifania brilhante dos meus dias excede o labor floral das retas ávidas pelo descanso dos meus pés. eu só calço o descaminho.

3 - deseja comprar uma lasca dos seus infinitos futuros?

não, o momento é desse instante. o agora, um levante pelos atos de uma vida por amores. a ruína de uma dor abastece de escombros o próximo salto. só o tempo sabe a distância desse enredo, do elevado feito de uma história a se contar.

4 - e o passado, convém?

não, do que foi agora só sei o que me burla. passado digno de ser passante é aquele que não retorna, mas que se refaz a cada trova. as lembranças de ruas percorridas não convêm, e sim o presságio das encruzilhadas cravejadas na memória.

5 - posso bater à sua porta e te oferecer o fim dos seus infortúnios?

não, a cara que atravessa o umbral do meu seio inebria de vertentes o muro além da palavra não pronunciada. não há dádiva que fortaleça a recusa da mansidão. todo olhar é vesgo quando se mira um destino que não seja inventado.

6 - o prazer é mais fácil que o absurdo?

não há prazer que se refira apenas à fertilidade dos encantos. em todo riso, os lábios se refazem ao se entortarem os ditos cheios de rancor. o absurdo é meu senhor e nada me endireitará! o sortilégio do segredo sempre se intumescerá.

7 - a dimensão do não é mais funda que o gosto saudade?

dizer não é uma dádiva para despertencimentos. a profundidade de sua chegança enaltece os riscos de saltos mal concebidos. deixar-se no vão do pulo requer méritos e desavenças com o que é irrevogável. a saudade atrela fundos ao meio do caminho por nunca se apagar da paisagem do improvável.


Fábio Santana Pessanha

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