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Susy Freitas

Susy Freitas é formada em Letras e Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e hoje se aventura no mundo mágico da pesquisa acadêmica em Ciências da Comunicação. Adora cinema, livros, músicas velhas e rúcula.

Músicas sobre violência doméstica e sexual


trio.jpgCertas músicas causam sensação de surpresa quando paramos para prestar atenção em suas letras. Esse é o caso das canções listadas abaixo, que tratam de diversas formas de abuso físico e emocional. Algumas se tornaram grandes hits e seu conteúdo passou despercebido para os que não entendem a língua em que são cantadas ou para os que apenas curtiam o ritmo, enquanto que outras enfrentaram grande resistência da indústria e do público. Conheça agora algumas dessas curiosas canções.

“Luka”, de Suzanne Vega

A alegre melodia de “Luka” fez bastante sucesso no final dos anos 1980, mas sua letra tratava de um tema pesadíssimo: abuso e violência contra a criança. Tanto os versos quando o ritmo dançante podem ser encarados como uma metáfora para o sentimento de negação que muitas vítimas de agressão sentem, preferindo o isolamento e o segredo ao invés de denunciar a situação.

Como estratégia para cativar o ouvinte, Vega começa a música cantando na voz do garoto Luka. Ele se apresenta, explica que mora no andar de cima do prédio e só então introduz elementos na ‘conversa’ que levam a crer que algo errado acontece com o menino. Até hoje “Luka” permanece em terceiro lugar no ranking da Billboard Hot 100.

“Rape me”, do Nirvana

“Rape me” incomodou muita gente. Em meados dos anos 1990, a Wal-mart exigiu alterações na letra para soar menos agressiva (o que é irônico, uma vez que a rede vendia cigarros e armas). A banda quase foi tirada do ar ao vivo no MTV Video Music Awards de 1992 por tocar alguns segundos da canção, que foi substituída por “Lithium” a tempo de não ser censurada.

Kurt Cobain explicou na época que a canção, que faz parte do quarto álbum do Nirvana, “In Utero” (1993), foi composta como se fosse uma resposta de uma vítima de estupro. “É como se ela dissesse ‘estupre-me, vá em frente, estupre-me e me bata. Vou sobreviver a tudo isso e vou estuprar você um dia e você nem vai saber’”, afirmou o cantor à Revista Spin. Para a banda, “Rape me” era uma forma de se posicionar contra a violência às mulheres, ao passo que pode ser entendida como uma metáfora para a maneira negativa com que Cobain encarava a atenção da mídia.

“Me and a gun”, de Tori Amos

A cantora Tori Amos conseguiu superar o silêncio e falar sobre o estupro do qual foi vítima em algumas de suas canções, sendo “Me and a gun” uma das mais conhecidas. A música faz parte do álbum “Little Earthquakes”, de 1992, e sua letra fala do abuso de maneira implícita, focando mais nos sentimentos da cantora perante a situação ao invés de descrever o acontecido.

O estupro de Amos aconteceu nos anos 1980. A cantora havia terminado um show em um bar e aceitou a carona de um homem que a ameaçou com uma faca por horas antes de conseguir escapar. Ela conta que após assistir o filme “Thelma e Louise” compôs a música. Hoje Tori Amos é co-fundadora da RAINN, uma rede nacional norte-americana de combate ao estupro, abuso e incesto, e leva uma vida normal ao lado do marido, o engenheiro de som Mark Hawley, e da filha, Natashya.

“Run for your life”, dos Beatles

Até o Fab Four tem uma canção sobre o tema, que apesar de muito conhecida, não deve ser motivo de orgulho. “Run for your life” fala de um homem ciumento que ameaça matar sua namorada por ela ter ficado com outro homem. A letra foi escrita por John Lennon, que supostamente manteve um histórico agressivo para com a ex-esposa Cynthia Powell em seus anos pré-Yoko Ono.

A canção fala do ponto de vista do agressor e não tem nada a ver com a aura de paz e amor que os Beatles abraçariam no decorrer da carreira. Anos depois, Lennon afirmou que “Run for your life” era sua música menos preferida dos Beatles, apesar de ser uma das favoritas de George Harrison.

“He hit me (and it felt like a Kiss)”, das The Crystals

Sem dúvida, uma das canções mais estranhas da lista, pois traz uma apologia positiva à violência contra a mulher. Com um ritmo totalmente pop, a banda de garotas The Crystals bem que tentou levar a música como um “hino a um amor inconsequente”, mas trataram de jogar “He hit me” para escanteio após uma onda de protestos. Elas não se importaram, pois odiavam a canção e só a gravaram por insistência do produtor Phil Spector, que nos anos 2000 foi condenado por ter matado a atriz Lana Clarkson em sua mansão.

A canção é inspirada em um fato real e foi escrita após os seus compositores, Gerry Goffin e Carole King, descobrirem que uma cantora amiga chamada Little Eva era violentada regularmente pelo namorado. Ao perguntarem porque ela tolerava a situação, ela retrucou dizendo que ele a machucava por amor. A letra de “He hit me” tem muito do sentimento confuso da moça que inspirou a canção e não abre espaço para metáforas em trechos como “If he didn't care for me/I could have never made him mad/But he hit me,/And I was glad”. Doentio.

“Daddy”, do Korn

Metáfora é um elemento que passa longe na música “Daddy”, do Korn. A letra fala claramente sobre uma criança que é estuprada pelo próprio pai e cuja mãe se omite do fato. O fato de o vocalista do Korn e autor da canção, Jonathan Davis, ter admitido que sofreu abuso sexual na infância levou muitos fãs a acreditarem que a canção era 100% autobiográfica, mas o cantor nega ter sido estuprado pelo pai. Ele explicou em algumas entrevistas que foi vítima de uma mulher amiga da família quando tinha 12 anos, e que seus pais não acreditaram quando ele relatou o fato na época.

Estranhamente, “Daddy” se tornou muito popular entre os fãs do Korn, que sempre solicitam que a banda toque essa música nos shows da banda. Davis, no entanto, nega todos os pedidos por acreditar que jamais conseguiria reproduzir com tamanha intensidade o que se ouve na gravação. É só ouvir para entender.


Susy Freitas

Susy Freitas é formada em Letras e Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e hoje se aventura no mundo mágico da pesquisa acadêmica em Ciências da Comunicação. Adora cinema, livros, músicas velhas e rúcula..
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