viagem imaginária

Conhecendo mundos sem sair do lugar

Fernanda Mendonça

Editora do Assiste Brasil e estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

“Não sou freira, nem sou puta”

As mulheres de Almodóvar são tão reais que parecem sair da tela e extrapolar os limites da emoção e razão. Expressões e cores as tornam surreais, quentes, fortes. Enfrentando a sub-representação da figura feminina no cinema e o machismo que rodeia o meio, o diretor é conhecido por suas célebres protagonistas – mulheres, sempre.


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Personagens passivas ou patéticas: a figura feminina constantemente é vítima dos estereótipos construídos e reafirmados pelo meio machista. Apesar do cinema aos poucos dar espaço para a discussão de gêneros, é fácil se deparar com mulheres interpretando personagens que obedecem à dicotomia virginal/sedutora, submissa/solitária.

Mas é aqui que entra Pedro Almodóvar, conhecido por suas protagonistas ilustres – mulheres: nem freiras, nem putas. O diretor demonstra uma relação de intimidade com a representação feminina desde a escolha dos nomes de seus filmes: Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón, Kika, La Flor de mi Secreto, Hable con Ella, Mujeres al Borde de um Ataque de Nervios, Todo sobre mi Madre.

Estando ou não em seus títulos, as mulheres de Almodóvar são desenhadas com fortes traços de realismo, pintadas com peculiares cores – marcantes, quentes, fortes. Em Volver, por exemplo, o foco está na relação entre três gerações de mulheres. Apesar de suas histórias divergirem em diversos pontos, há sempre um encontro, um mútuo reconhecimento – e faz parecer como se a fantasia se encontrasse com a realidade, e vice-versa.

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(…) Afirmam que o papel da mulher no cinema tem sido sempre estereotipado. A obra de Almodóvar se caracteriza, em geral, por não reproduzir os clichês, mas por tomar os próprios clichês como objeto crítico e temático de seus trabalhos.

É o que diz Ana Lucília Rodrigues em seu livro Pedro Almodóvar e a Feminilidade, em que analisa o filme Kika para traduzir a relação íntima que o diretor possui com o universo feminino. Apesar de ser apenas uma das dezenas de produções do diretor que trazem a mulher no papel principal, a escolha por Kika pode ser justificada por Kika - e apenas Kika - ser toda a trama, todo o drama.

Kika poderia ser eu, poderia ser você. Kika expira luz, alegria, força, otimismo, vida. Ela é a protagonista de uma das cenas mais longas de estupro da história do cinema e, parecendo superar os limites da natureza, sai do papel de sofredora para ser “ativa na sua passividade”. Kika tenta manter uma conversa com o estuprador, em um momento tão íntimo que até vale compartilhar seus problemas cotidianos. Surreal e inspiradora: a mulher é toda reviravolta.

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E como discordar de Almodóvar quando diz que "os homens também choram, mas as mulheres choram melhor”? Sentimentos à flor da pele, suas protagonistas são um exagero, um misto de sensibilidade e força – mulheres, as melhores representações da beleza e dor da vida. São elas a base e desenvolvimento de seus filmes, juntamente com toda dramaticidade. Elas estão ao centro, e o que as circundam são retalhos delas mesmas - seus maiores medos e anseios, reprimidos ou incontroláveis.

Sole, Irene, Raimunda, Kika, Lena, Pepi, Luci, Bom, Lydia, Huma, Elena. Elas, tão difíceis de desvendar – tão reais que a dor e alegria de cada uma pode ser compartilhada. Almodóvar foge do ideal e apresenta a mulher humana, mãe, filha, puta, santa, que sofre, luta e não se cala. A vida das mulheres vai além do que está enquadrado na tela. Suas histórias repetem-se rotineiramente nas casas de família e prostíbulos, de norte a sul. Almodóvar dá às mulheres a dose de reconhecimento que os rastros de machismo no cinema insistem em ocultar.


Fernanda Mendonça

Editora do Assiste Brasil e estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
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