viagem imaginária

Conhecendo mundos sem sair do lugar

Fernanda Mendonça

Editora do Assiste Brasil e estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

American way of life

Em God Bless America, o diretor e roteirista Bobcat Goldthwait não poupa críticas ao comportamento fútil e apático da sociedade do exibicionismo e da alienação.


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Escrito e dirigido pelo norte-americano Bobcat Goldthwait, God Bless America (2011) critica de maneira extrema e escandalosa os valores da sociedade contemporânea. Trata-se de um filme polêmico devido ao excesso de violência e à (suposta) apologia ao uso de armas.

O filme pode ser classificado como algo que varia entre cinema esquizo (ou de esquizofrenia) e cinema de recuperação: protagonistas psiquicamente instáveis e cínicos utilizam métodos escrachados e exibicionistas de violência para se recuperarem do mal-estar momentâneo.

Frank (Joel Murray) aparentemente já não tem nada a perder: solitário e depressivo homem de meia-idade, enfrenta problemas familiares e perde seu emprego após ser acusado falsamente de abuso sexual. Como se não bastasse, Frank ainda descobre que está doente - e em estágio terminal. Sua decadência e a falta de motivação para continuar a viver são motivos que o levam a repensar suas escolhas.

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Cansado das atitudes individualistas, do materialismo capitalista, do consumo excessivo, da futilidade e da espetacularização da vida por parte da mídia, Frank decide mostrar sua indignação. Torna-se um exterminador de pessoas consideradas fúteis e inúteis para a civilização – como estrelas de reality shows, racistas, homofóbicos e aqueles que acreditam que o mundo gire ao seu redor.

Por acaso Frank conhece Roxy (Tara Lynn Barr), uma colegial de 16 anos que se torna seguidora de seus princípios. Enfim juntos, eles dão início a uma espécie de missão "salvadora da pátria". Em meio à ação, sarcasmo e assassinatos, os diálogos e cenas de God Bless America despertam reflexões sobre os rumos que a sociedade do século XXI segue.

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Uma das críticas mais relevantes é feita à filosofia de vida do mundo pós-moderno: tenho, logo existo - o materialismo somado ao consumismo e o desejo de exibir. Apenas os ideais de um homem não o fazem grandioso; porém, os bens materiais que possui têm o poder de trazer felicidade e status social. É desta maneira que dita a mídia: as aparências prevalecem, enquanto a essência é descartada.

Outro ponto a ser notado em God Bless America relaciona-se à alienante indústria cultural americana. O sensacionalismo midiático é consumido de modo imperceptível por telespectadores apáticos e acríticos. A quantidade e o imediatismo prevalecem sobre a qualidade, fazendo dos consumidores seres pouco seletivos, pouco exigentes. Reality shows com temporadas infinitas conseguem expor o ser humano ao ridículo ou ditar novos padrões de vida (e de consumo).

E dessa forma se esvai o senso de decência, de vergonha, de certo ou errado. A nova geração, que nasce imersa nesse meio fluido, compulsivo, ditador, alienante, perde a noção de convivência familiar e social. Na era em que a comunicação interpessoal foi facilitada, quase contraditoriamente o individualismo entra em cena. O fato de que a sociedade é construída pelo somatório de atitudes individuais parece ter sido ignorado – ou esquecido na pauta do reality show da vida.


Fernanda Mendonça

Editora do Assiste Brasil e estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
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