victor requião

Vivências além do óbvio em Comportamento, Empreededorismo e Poesia

Victor Requião

Victor Requião é escritor do blog victorrequiao.com, é empreendedor, poeta e seu esporte preferido é subir montanhas...

Conversas de fim de Maio

Não andou a passos largos como era de costume, foi sentindo de cada vez os pés pisando o chão do corredor claro que dava até a sala de embarque, mas Louise ainda tinha 20 minutos antes que a porta do avião se fechasse e que alguma voz renitente começasse a chamar o seu nome pelo sistema de som. Um belo exemplar de Siddharta em capa dura lhe saudou ao cruzar pela entrada larga da loja de conveniência que dava para o corredor...


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Não andou a passos largos como era de costume, foi sentindo de cada vez os pés pisando o chão do corredor claro que dava até a sala de embarque, mas Louise ainda tinha 20 minutos antes que a porta do avião se fechasse e que alguma voz renitente começasse a chamar o seu nome pelo sistema de som. Um belo exemplar de Siddharta* em capa dura lhe saudou ao cruzar pela entrada larga da loja de conveniência que dava para o corredor, não pestanejou muito e foi até a pequena seção de bebidas logo ao fundo depois das revistas e segurou uma pequena garrafa de vinho tinto seco, destas que servem para o brinde solitário de quem precisa apenas de uma única taça. “Senhora, aqui está o seu troco“, precisou a atendente aumentar o seu timbre de voz tímido já que a primeira tentativa de se fazer ouvir não foi capaz de trazer Louise de volta ao caixa da loja, onde ela estava havia pensamentos que mais lhe interessavam que o som tremido das moedinhas ao lhe caírem nas mãos.

Nada mais saboroso que um momento de pausa na agitação do momento e um gole de vinho (mesmo em copo de plástico), Louise deixou que as maçãs do rosto ainda rubras se aquecessem do frio que envolvia a todos sem exceção, tanto os calmos quanto os apressados. Sim, a garrafa pequena não tomou mais que o tempo necessário para Louise dar os goles que precisava para por-se novamente em pé e continuar a sua caminhada até o embarque. Com os lábios levemente roxos do vinho movimentou um sutil “obrigado” ao rapaz que lhe destacou a passagem ao dizer “apenas estávamos aguardando pela senhora“, pelo menos os seus passos rápidos de agora haviam lhe poupado a voz renitente ecoando a sua procura pelo sistema de som.

Alguém que não se recordava o nome havia lhe dito que as horas dentro de um avião poderiam ser as mais produtivas de uma semana inteira, os pensamentos ganham ar como a própria aeronave e lá a sua única escolha é deixá-los fluir trazendo a tona os seus significados, “você não tem escolha, é sentar e quieto ficar“, disse certa vez a tal pessoa. São nestes momentos que ao afrouxarmos as rédeas os pensamentos se mostram mais lúcidos que quando tentamos controlar a nossa própria cabeça. Afinal, viajar de avião é entregar-se ao mesmo destino que os outros passageiros, então quando o corpo aquieta a mente mostra quem está de verdade no comando.

Só que a sua mente se recusou levá-la para longe, os seus pensamentos simplesmente pairaram logo ali na poltrona ao lado. Os mesmos pensamentos fizeram Louise sentir que manter os olhos fechados não era mais uma postura cômoda, ela então os abriu fitando sem querer o objeto de detalhe vermelho-rubro que o homem ao seu lado segurava em uma das mãos. Apesar de ele estar de olhos semi-cerrados sentiu que havia um olhar atento ao seu lado e levemente abriu os olhos, o suficiente para que Louise percebesse que nele havia uma porta. Era o sinal de que a porta que aquele homem representava não estava fechada como a da maioria das pessoas, a maçaneta desta especificamente estava sem trava e nada impedia que a mulher de lábios ainda roxos a girasse para que ela abrisse sem fazer o rangido que as portas empoeiradas geralmente fazem. E o objeto de tom avermelhado naquela imagem simbólica da porta mais parecia estar preso a ela como uma guirlanda de Natal, daquelas que instigam a curiosidade de saber o que se passa lá dentro quando se entra e fecha a porta por dentro.

Primeira vez que conheço um Aronis na vida“, brincou ela num sorriso descontraído enquanto olhava nos olhos do homem que de imediato retribuiu o gesto, os lábios dela aos poucos voltavam ao rosado natural. Aronis ouviu e falou sobre muitas coisas, contou que desde que havia mudado de cidade essa era a primeira vez que ousava ir para um lugar diferente, era quase que um hábito até então somente voltar para a sua cidade de nascença, visitar os familiares, amigos, amores… “Apenas uma desculpa para não ousar mais do que eu poderia ser“, soltou esta frase momentos depois num suspiro ao olhar para a escuridão lá fora da janelinha do avião e ver as luzes distantes de uma cidade que neste momento dormia. Louise no íntimo não sabia porquê viajava, representaria a empresa numa reunião de negócios no dia seguinte e pensava em emendar o final de semana por sua própria conta para “aproveitar a cidade“. Mas confessou a Aronis que esta não era uma questão de escolha, mas um paliativo para não se sentir inútil no final de semana, afinal, fora do mundo corporativo ela também precisava ousar “mais do que poderia ser“, ser rainha e súdita do seu próprio mundo. Ambos se olharam novamente nos olhos, de imediato sentiu que Aronis poderia lhe ensinar um pouco disso, ele também sabia.

“Isto aqui é um Mala, um pequeno colar de contas usado no oriente como guia à meditação, vou passando com os dedos por cada uma de suas contas quando quero ouvir a minha mente falar, me ajuda a manter a boca fechada e me deixar guiar pelo meu próprio silêncio interior.” – Louise tocou o objeto nas mãos de Aronis e pode sentir o quanto aquelas contas tão simples eram capazes de mostrar um caminho silencioso no interior daquele homem que gostava de falar, ele aparentava ter uma vida agitada pelas frases que soltou durante partes da conversa e o tal objeto parecia lhe ajudar a equilibrar as coisas. Louise notou que este era o seu grande aprendizado naquela viagem, equilibrar a si mesma como ponto de partida para equilibrar as coisas ao seu redor. Imediatamente deu razão à tal pessoa que havia lhe dito certa vez que as horas num avião podem ser as mais úteis de uma semana inteira. De fato, este era um novo hábito que deixaria aflorar, saber a hora de desligar o ruido lá fora e deixar-se falar por dentro. E quando o barulho interior fosse alto demais, por que não usar umas continhas como guia até uma estrada mais quieta?

A conversa seguia entre palavras e cochilos de ambas as partes, e àquela hora da madrugada na pouca claridade da cabine do avião o Mala na mão de Aronis reluzia palidamente o seu detalhe vermelho-rubro. Mas em um destes momentos entre o sono e a vigília o olho esquerdo de Louise foi cruzado pelo sol que raiava, isto é suficiente para romper aquele cochilo incomodo e doloroso típico das poltronas de avião. Enquanto a mulher de lábios agora rosados se remexia acordando do desconforto, o dia clareava e o homem fitava distraído a janela à sua esquerda. Conversaram um pouco sobre coisas sem muita importância, sobre a temperatura que deveria estar fazendo lá fora quando o avião pousasse, que queriam um café, etc. – então silenciaram. Mal Aronis tirou os olhos da janela, notou que Louise cochilava como criança, de boca aberta e com a cabeça pendendo para o lado direito como se buscasse instintivamente um ombro de apoio.

Não se sabe ao certo quanto tempo passou, Louise despertou de súbito como se algo a acordasse e olhou ao redor notando que não havia mais ninguém, apenas lá na frente a fila de passageiros diminuía aumentando o vazio da cabine do avião. No assento da poltrona já desocupada ao seu lado havia um cartão escrito “Aronis Hanister”, ao segurá-lo notou que embaixo estava o Mala com o seu detalhe vermelho-rubro, ele havia despertado também.

* Sidarta (versão em Português), livro de Hermann Hesse.

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Victor Requião

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