vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Runaway - Hip Hop para todos

O Hip Hop elevado a um patamar superior. Kanye West é além de um grande produtor, um rapper que pisca o olho a outros estilos, como o rock, o pop, ou mesmo o indie. Esta curta certamente terá um papel fundamental no panorama do hip hop, a longo prazo. Hip Hop para todos.


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É fácil cair no cliché de não se gostar de Hip Hop, usando a desculpa de que ” é tudo igual”! A primeira vez que ouvi o nome de Kanye West, foi no rescaldo do furacão Katrina. Estava com Mike Myers, o Austin Powers, faziam ambos um spot em directo, ajudando à recolha de donativos para as vítimas do furacão. Kanye decide fugir do guião estabelecido, e demonstra a sua indignação perante a forma como as autoridades encararam aquela catástrofe natural, acabando a sua declaração com um veemente "George Bush Doesn't Care About Black People”.

Nasce em Atlanta e cresce em Chicago, para onde foi morar com a mãe depois dos pais se divorciarem. O pai era um antigo Black Panther, que mais tarde se tornou um fotojornalista galardoado, a sua mãe era professora Universitária. Cresceu num ambiente equilibrado onde não eram sentidas as dificuldades, que flagelavam grande parte das comunidades urbanas negra e latina, no começo dos anos 80. E foi neste caldeirão, que se cozeu a cultura Hip Hop. Estudou artes e ainda chegou a frequentar a Universidade, mas era na música que se sentia à vontade. Iniciou-se como produtor para outros músico, na segunda metade dos anos 90, já o Hip Hop era a personificação da nova cultura negra dos E.U.A. Produziu muitos nomes consagrados do panorama musical, como Jay Z, NAS, Ludacris ou DMX,.

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Quando Kanye se decide lançar como rapper o seu passado “confortável” de classe média alta, foi sempre visto como um entrave. Algumas editoras acharam que ele não era matéria vendável, era apenas um bom produtor. O perfil do rapper da altura, era o do sobrevivente das ruas, “da rua para a fama”, um lema muito ao bom estilo da mega estrela Curtis James Jackson III, mais conhecido como 50 Cent. Foi o auge do “Gangsta Rapper”, uma evolução natural do “Thug Rapper”, personificado pelo já desaparecido Tupack Shakur. Mas o Hip Hop de Kanye não é, (só) o dos “yo´s” e das mulheres voluptuosas de bikini, não é só das correntes de ouro e dos maços de notas. É também o de alguém que têm um profundo conhecimento do mundo que o rodeia, que é ecléctico o suficiente para usar recursos que vão beber inspiração ao rock, à música clássica, ao Folk e principalmente à cultura Indie, de que Kanye é apreciador e grande conhecedor. É esta sua capacidade de se movimentar em territórios diferentes do seu, mas sem nunca perder a sua identidade, que faz deste artista algo diferente. É perito nos jogos de palavras, e mestre na arte de fazer sampling, aliás esta última técnica é o que melhor caracteriza e distingue o trabalho deste artista. O tema Runaway é primeiro o single extraído do seu 5º álbum de originais, ” My Beautiful Dark Twisted Fantasy”.

O conceito de cultura Hip Hop tornara-se muito vasto, assim como o ecletismo de West. Neste álbum colaboraram rappers como: Jay Z, Rihanna, mas também os Bon Iver, uma banda de origens predominantemente indie e folk. West é um camaleão! Consegue pegar em diferentes estilos, trabalhando-os para que se moldem ao seu próprio conceito. É tão comum ouvir um violino ou mesmo um piano, para logo de seguida, sentir a batida de uma caixa de ritmos com samples de música Soul. Esta promiscuidade de estilos musicais, faz com que as suas músicas tenham um “je ne sais quoi” que as torna incontornáveis, gostando ou não, nunca nos são indiferentes. Mas Runaway é também o título de uma curta-metragem de 35 minutos, uma compilação de músicas do álbum” My Beautiful Dark Twisted Fantasy”. Aqui está reunido o que de melhor foi feito no álbum. A fotografia desta curta é simplesmente fantástica, fazendo com que uma força estranha actue, e nos faça ficar colados ao sofá a olhar para o ecrã, não piscando os olhos para não perder pitada. Aqui eleva-se o Hip Hop a um nível superior, só em paralelo com a elevação de Kanye West enquanto artista. Deixa de ser apenas um rapper e passa a ser algo mais, algo que deixa uma marca profunda no estilo e na própria cultura do Hip Hop. Toda a estética do vídeo foi pensada ao detalhe, daí ser tão bem conseguida. Bebe influências de Purple Rain de Prince, ou Thriller de Michael Jackson, neste conceito de vídeo alargado, que ganha vida para além da duração da própria música. As músicas têm uma cara lavada, não muito diferente do original constante no álbum, mas o suficiente para que a simbiose entre áudio e vídeo seja feita de uma forma quase perfeita.

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Runaway retrata uma história de amor entre um Homem e uma Fénix. Ela, um elemento estranho na terra, consegue ver o mundo com um distanciamento que nós humanos já não somos capazes. Toda esta obra é uma crítica, que ganha força na ligação perfeita entre o vídeo e áudio, e ilustram a forma de estar de Kanye na música, mas principalmente a forma de estar na vida. Isto está patente nos poucos, mas muito elucidativos, diálogos desta curta. O auge é atingido sem dúvida com tema que lhe dá o nome, cantada em tom de desabafo em cima de um piano, com bailarinas clássicas a dançar à sua volta Mas também é interpretado com a força da revolta.

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É esta revolta interna, esta veia revolucionária, que faz com que Kanye por vezes passe a barreira do que é aceitável socialmente (mais vezes do que necessário), e em muito esta curta-metragem, é uma expiação por parte do artista disso mesmo. É nas transições entre músicas, que se vê o lado mais criativo e inteligente deste artista enquanto produtor, temos a sensação de estar a escutar uma longa e única música de 35 minutos.

As referências à cultura Pop estão subtilmente presentes. A dicotomia branco/negro é usada de uma forma muito inteligente em partes do vídeo, conferindo-lhe uma estética muito peculiar de crítica. Provavelmente a grande mensagem será: nesta sociedade tudo o que é diferente, ou não é aceite, ou então tem de se formatar à norma vigente, uma alusão ao próprio Kanye. No fim, já ninguém se lembra do estilo do álbum que está na base desta curta. Mas Kanye é do Hip Hop, e no fim do dia, é lá que se sente bem. Com um visual muito próprio, e afastado da norma em relação aos seus pares (não tivesse ele também várias linhas de roupa, e fosse um grande entusiasta da moda), mas onde não falta o dente de ouro, símbolo por excelência destes artistas. É esta junção de quem que estudou artes, que teve uma educação musical clássica, onde o piano aparece como algo natural, assim como as caixas de ritmo, ou os jogos de palavras, que se vai criando e engrandecendo um artista. Esta obra surge certamente do seu narcisismo positivo, de uma vontade de ser o melhor fazendo algo diferente. Por que o HIP não se esgota no HOP, abra um vinho e relaxe, pois vale a pena dar uma oportunidade a este Runaway, que primeiro estranha-se e depois entranha-se.


Vasco Neves

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