vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Princesas desencantadas

E se o encantamento se evaporasse, e se a princesa do conto infantil se tornasse uma mulher como as outras? Que dramas viveria, quais as suas desilusões e obsessões? Que neuroses teria? Depois de se desiludir no amor, haveria espaço para a felicidade? É isto que nos propõe Dina Goldstein com a sua série fotográfica "Fallen Princesses".


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No dia em que as crianças deixarem de acreditar nos contos de fada, o encantamento destes fica perdido para sempre. Este poderia ser o argumento para o começo de uma qualquer história infantil, mas é apenas a minha convicção.

As principais princesas dos contos de fadas, heroínas idolatradas por gerações de meninas (e meninos), aqui vistas e retratadas pela fria e realista objectiva de Dina Goldstein. Na série "Fallen Princesses", a fotógrafa retrata um outro lado das princesas, uma realidade alternativa (ou apenas a realidade), que não é contada nos contos de fada, uma realidade para além do "viveram felizes para sempre".

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O imáginário infantil destes contos, é invadido sem piedade pela cortante objectiva de uma adulta, que por sinal não leu contos infantis enquanto criança. A artista procurou as origens dos contos, e descobriu que quase todos tinham algo de grotesco, cruel e negro. Daí o mote de partida para a criação desta série. ariel11.jpg

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Efectivamente o caminho de beleza e felicidade trilhado por estas princesas, não é compatível com a realidade existente. As princesas vistas pela objectiva de Dina, possuem problemas reais, como doenças graves, vícios e depressões, ou até mesmo a obsessão pela imagem de perfeição física. Problemas reais que afectam mulheres (e homens) pelo mundo inteiro, mulheres que de encantado nas suas vidas, pouco ou nada têm.

Não deixa de ser uma interpretação inteligente , no entanto é muito fria e cruelmente distante de tudo o que um conto de fadas personifica, o sonho, o desejo de felicidade, mas acima de tudo o direito a ser criança e a fantasiar com histórias de amor, dragões e fadas ou outra coisa que possa ser imaginada! Será que é tão prejudicial crescer a acreditar em príncipes encantados, fadas madrinhas e felicidade eterna?

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Esta é uma obra crua, vista pelos olhos de uma adulta e dirigida (a meu entender) a adultos. As crianças terão tempo para aprender o que é a vida real. Faz parte do processo de crescimento estas pequenas desilusões da vida, o facto de o Pai Natal (Papai Noel), ser apenas um membro da nossa família que compra os presentes, ou que o tio Pedro não é um verdadeiro mágico, apenas sabe fazer dois ou três truques com cartas e moedas.

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Não obstante isto, as problemáticas retratadas afligem de facto a sociedade moderna, e em especial as mulheres, sendo que este ideal de beleza e felicidade eterna, raramente acontece como nos contos de fada, e invariavelmente não acaba com um viveram felizes para sempre.

A desilusão da Branca de Neve, que após casar e ter filhos se apercebe que o seu príncipe não é tão encantado como julgava, é a história de milhares de mulheres, Marias, Joanas, Anas, pelo mundo fora. A solidão de Pocahontas, que vive rodeada pelos seus gatos, ou até mesmo um grave problema de saúde de Rapunzel, que faz com que esta perca aquilo que lhe dá identidade, e que fez o seu príncipe apaixonar-se, o seu cabelo. A obsessão pela beleza de Bela, que com o passar dos anos de bela vai ficando só o nome, recorrendo à cirurgia para retardar os efeitos tão naturais do envelhecimento.

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Mas temos também um lado diferente, o de uma Jasmine guerreira, provavelmente uma metáfora para a luta que as mulheres têm de travar no médio oriente, principalmente nos países mais radicais, onde apenas pelo facto de serem mulheres vêm vedadas oportunidades, e escolhas tão simples como o direito a escolher com quem casar, ou até se quer casar.

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Quase como contraponto, surge o Príncipe, já idoso num lar de reformados à espera que a sua Bela Adormecida desperte, embora este já não tenha grandes esperanças disso.

Outros artistas como também têm uma abordagem muito própria da temática de contos infantis. Pode dar uma olhada no trabalho de Thomas Czarnecki num artigo publicado anteriormente no Obvious. Dina Goldstein Site

Fallen Princesses Site


Vasco Neves

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