vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Coffree - mudando o mundo pouco a pouco.

As sociedades actuais encontram-se com graves problemas ambientais. Estes problemas crescem de dia para dia, em parte porque continuamos a usar produtos descartáveis. É quase impossível não os usar, mas porque não torná-los mais amigos do ambiente? O Ecodesign é provavelmente a solução para um futuro sustentável.


Desde que me recordo sempre tive alguma consciência ambiental, fruto de crescer num Portugal dos anos 90. Um país que estava em crescimento e mudança, acompanhando o resto de uma Europa onde o movimento ecologista estava a ganhar uma força espantosa.

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Era comum o aparecimento de notícias sobre barcos da Greenpeace, contra a caça de baleias ou contra a morte de focas bebés. Outras vezes eram protestos algo ousados contra petroleiros e navios com material radioactivo, ou prejudicial ao ambiente, ou contra o abate de árvores na Amazónia. Todos estes eventos alertavam a população geral para os problemas ambientais. Eram dirigidos às pessoas comuns, para o João que trabalhava numa oficina, ou para a Madalena que trabalhava como secretária numa empresa de material de escritório. Começaram a aparecer e a serem introduzidas no nosso vocabulário palavras como sustentabilidade, biodegradável, reciclagem.

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E é nesta última, que incide em grande parte a nossa responsabilidade enquanto indivíduos de uma sociedade, que tendemos a considerar evoluída e civilizada. Tenho idade suficiente para conseguir perceber e analisar a evolução destes hábitos novos. A geração dos nossos avós não reciclava, mas a verdade é que produziam muito menos lixo do que a dos nossos pais, ou do que a minha, ou a dos meus sobrinhos. A “moda” do descartável sofreu também uma evolução, era o fruto do avanço tecnológico, um fruto podre, mas que se tornou indispensável. Era o domínio sobre a matéria. A manipulação do plástico e os seus variados inundaram a nossa sociedade. E a verdade é que com estes novos hábitos de consumo, o lixo produzido era cada vez maior. Não tenho nenhuma base científica para sustentar isto, e também nem me dei ao trabalho de procurar, mas parece-me bastante evidente.

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A” moda” da reciclagem transformava-se assim, na necessidade de reciclar. E este o papel que cada um de nós enquanto cidadãos, mais ou menos anónimos, podemos ter na melhoria da sociedade. Esta melhoria não será global nem efectiva. A ideia de que os hábitos humanos e sociais mudam em cinco ou seis anos, é no mínimo absurda. Demoram gerações, pelo menos duas neste caso, para se conseguirem enraizar estes hábitos, quer nos indivíduos em particular, quer na sociedade em geral. Conseguir que a nossa avó de setenta anos recicle, é de facto um feito, mas parece-me mais importante que crianças de três e quatro anos já tenham essa mesma consciência.

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Não acredito em extremismos de tipo algum, eu reciclo mas não reciclo sempre! Por vezes sou demasiado preguiçoso, outras apenas desleixado, mas a verdade é que na maioria dos casos acabo por reciclar. É um contributo pequeno, mas é o que eu posso dar.

As sociedades desenvolvidas e em vias de desenvolvimento, produzem quantidades de resíduos apenas comparados ao seu grau de evolução. Mas o desenvolvimento humano não necessita de estar assente sobre estes princípios, onde existe um excesso de produção de tudo, até de resíduos.

Mais uma vez digo, por vezes nem é fácil mudar hábitos em duas gerações, serão precisas quatro ou cinco gerações até que se consigam mudanças efectivas. Uma forma de se começar essa mudança é na análise dos problemas, e de como os resolver. Para isso foi criado um conceito moderno nos departamentos de design, o ecodesign, ou design sustentável, como lhe queiram chamar. Os seus princípios são os mesmos, mas com o intuito de diminuir o impacto no ambiente.

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Vou abordar apenas uma ideia, um conceito, e quiçá um objecto. O Coffree é uma ideia dos designers Young-an Seok, Young-woo Choi & Se-ryung Nam, que é nada mais, nada menos, que uma embalagem multifuncional de café solúvel. Esta embalagem não precisa de chávena ou copo, ela é o próprio café. Conceito estranho? Nada mais simples para um dos produtos mais consumidos a nível mundial.

A embalagem deste café em pó é inspirado no tradicional origami, necessitando apenas de água quente, e já está um café solúvel, mesmo prontinho a beber. Eu não tinha dito ainda, mas isto só funciona se tivermos água quente por perto…

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O conceito é simples e parece-me realmente funcional, evitam-se o consumo de embalagens descartáveis, estas são feitas de papel que é bastante resistente e ecológico. Ao retirar um lacre da parte superior da embalagem, desdobramos o origami e adicionamos água quente. Abusando do conceito nada se estraga, tudo se aproveita, o lacre funciona como colher para mexer o café, ou seja, o saco transforma-se em copo com café dentro, e o lacre que normalmente seria dispensado para o lixo transforma-se num elemento útil. Depois de usado o copo de papel é compostável, podendo ser misturado na terra onde entra em fermentação, decompondo-se e transformando-se em adubo.

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As vantagens ao nível de embalamento são simplesmente fantásticas, existindo aqui um argumento para tornar este produto bastante comercial. A embalagem ocupa pouco espaço depois de dobrada, sendo bastante resistente à humidade, um dos piores inimigos do café.

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Sim, a verdade é que não vamos conseguir evitar o uso de tanto plástico! O acto de tomar café, algo feito por milhares de milhões de homens e mulheres adultos diariamente, na maioria dos casos várias vezes ao dia, não vai mudar de um dia para o outro. Uma das maiores mudanças será sempre na tomada de consciência ambiental. Já temos adquirido e enraizado o conceito de reciclar, a separação do papel, vidro, plástico e resíduos domésticos. Na verdade agora parece banal, mas à vinte ou trinta anos atrás não o era.

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Reciclar e ter uma consciência ambiental, é ao mesmo tempo um dever e um direito. Não precisam ser extremistas ou de julgar quem não recicla, mas também não tenham a atitude de “ – Eu sozinho não faço diferença!”. Podemos não conseguir mudar o mundo inteiro de uma vez, mas podemos mudar cada um de nós primeiro.


Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo....
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