vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Murakami e Bar conversando à beira mar sobre Kafka

A ideia foi fazer um refresh de 15 capas da obra de Haruki Murakami. A proposta partiu da editora Britânica Vintage Books, e escolheram um designer\ilustrador da agência Dutch Uncle. Noma Bar é Israelita e vive em Londres à vários anos. Com uma paleta reduzida, Bar criou novas capas em tons de branco preto e vermelho. Dois artistas que actuam em áreas diferentes, mas com mais em comum do que um primeiro olhar pode transparecer.


mur5.jpg Kafka on the shore

Algumas obras têm o condão de mudar as nossas vidas. Sejam álbuns musicais, filmes ou livros. Outras obras não possuem este condão, mas acabam por ser igualmente importantes, simplesmente porque fazem parte de alturas especiais da nossa vida. Poderia ter sido o último presente do meu avô que faleceu o ano passado, ou o livro onde o Pedro escreveu o pedido de casamento para a Ana. Poderia ser simplesmente o CD que se ouve incessantemente quando se termina um relacionamento amoroso, ou quando estamos a iniciar um novo romance. HM-Monkey.jpg Haruki Murakami

Foi assim que eu conheci Haruki Murakami, não por um livro mas por um CD. Já está fora de moda, mas os mais velhos lembram-se por certo das mixtapes, cassetes de áudio gravadas com selecções de músicas para oferecer a alguém, ou para andar no carro etc. Um dia um amigo deu-me um mixcd, um CD gravado com músicas que ele gostava. O nome que ele deu ao CD foi curioso - Kafka à beira mar (o nome de uma das obras de Murakami). Continha bandas como Moriarty – Jimmy, Belle Chase Hotel – Fossanova ou mesmo Elliot Smith – Say Yes.

DSC_0173.JPG Mix CD oferecido por um amigo

Eu só conhecia Murakami de nome, ainda tinha tido a oportunidade de ler nada dele. Durante algum tempo o CD rodou no carro, até que me cansei de o ouvir. Alguns meses depois voltei a ouvir este CD e algo curioso aconteceu. No mesmo dia em que o voltei a ouvir, fui a uma feira de velharias e coisas em 2ª mão, e o que vejo eu num monte de livros? Kafka à beira mar. Sabem aquela sensação de que não foi apenas um acaso? O rapaz explicou-me que tinha duas edições e que decidiu vender aquela, o livro estava em bom estado e era uma edição mais ou menos recente (2008). Foi desta maneira que Murakami entrou na minha vida, primeiro com um CD e depois com um livro. Talvez um dia eu faça um artigo sobre o livro, mas ainda não será hoje.

mur4.jpg After Dark

Com o intuito de dar uma nova vida à obra de Haruki Murakami, a editora britânica Vintage Books decidiu fazer uma reedição de 15 dos seus livros. A escolha para esta reedição recaiu sobre o designer e ilustrador Noma Bar, que ficou com a missão de dar uma nova vitalidade a estas capas. Murakami é um escritor que nos deixa sempre com uma sensação de que algo foi perdido ou escondido nos seus livros, existe sempre algo subjacente ao que realmente está escrito. O real e o fantástico misturam-se muitas vezes, e nem sempre é definível em que plano a história se passa. Era necessário para a tarefa de criar novas capas, alguém que conseguisse produzir poderosas ilustrações gráficas, que manipulasse e utilizasse o espaço negativo e o positivo a seu favor, conseguindo criar imagens primárias, secundárias e ilusões.

tumblr_mawthulSum1rxrxxxo1_1280.jpg As 15 capas elaboradas por Noma Bar

Podemos encontrar tanto na obra literária de Murakami, como nas ilustrações de Bar, esta ideia de dupla e tripla significação, uma sensação de ilusão permanente. E talvez seja este o principal elo de ligação destes dois artistas. Nem sempre é necessário lançar um livro novo para que um escritor seja motivo de interesse. A vasta e reconhecida obra de Haruki Murakami já foi galardoada em todo o mundo. Para muitos é um dos grandes escritores contemporâneos ainda vivos. Sinónimo de qualidade literária, a sua obra é um misto de tanta coisa diferente. A capacidade de conseguir pegar em pequenos pormenores da cultura japonesa, e conseguir misturá-los com elementos tão díspares como o Coronel Sanders, o símbolo do KFC, a cadeia de fast food norte americana, faz dele um escritor especial e diferente.

murakamibar1_0.jpg Norwegian Wood & The Wind-Up Bird Chronicle

Que Haruki Murakami é um escritor de excelência toda a gente o sabe. Os seus livros encontram-se em muitas livrarias físicas e virtuais. Podemos encontrar uma boa parte da sua obra traduzida na língua de Camões e Drummond de Andrade. Encontramos entre outros livros: Minha querida Sputnik (br)/Sputnik, meu amor (pt), Kafka à beira mar ou Norwegian Wood (Tóquio Blues). Os livros de Murakami não são leituras light, descomplexadas e simples como por vezes alguns resumos podem sugerir. Nada é tão simples como nos é apresentado inicialmente. São livros que exigem esforço do leitor, concentração e envolvimento. São obras que possuem temáticas diferenciadas, embora se possam encontrar alguns elementos recorrentes, tais como o fantástico e o sobrenatural, elementos tão comuns na cultura Japonesa. Assim como a tristeza e a sensação de não pertencer a lado algum, ou o isolamento e a solidão.

mur1.jpg After the Quake

mur8.jpg Dance Dance Dance

Murakami usa e abusa do seu conhecimento da cultura japonesa, mas também das influências que teve enquanto crescia. Estas influências eram provenientes do lado ocidental do nosso planeta, as obras e as músicas de autores Europeus e Americanos não só fizeram parte do seu crescimento, como também acabaram por lhe vincar o estilo de escrita. Cresceu num Japão do pós guerra. A derrota na segunda guerra mundial e o trauma, psicológico e físico, das bombas lançadas em Nagasaki e Hiroshima estavam ainda muito presentes. A sociedade Japonesa lambia as suas feridas, e nem sempre a procura da “ocidentalização” era vista com bons olhos. A sua vida estudantil foi marcada por protestos contra a guerra do Vietname (Vietnã). Definitivamente nunca foi um Japonês conformado às suas tradições ancestrais.

mur2.jpg South of the border West of the sun

mur6.jpg What i talk about When i talk about running

Para esta reedição era necessário encontrar alguém que também fosse um cidadão do mundo, não pelo fato de ter vivido em lugares e países diferentes, mas sim por possuir uma capacidade de expressão que fosse entendida por diferentes pessoas. Talvez seja por isso que a escolha tenha recaído sobre Noma Bar. De origem Israelita este designer gráfico, que vive e trabalha em Londres é um dos designers/ilustrador mais reconhecidos em todo o mundo. As suas mãos já ilustraram publicações tão importantes como o The Economist, a Time Out London, ou a Wallpaper*. É representado pela agência Dutch Uncle, uma das mais importantes da Grã-Bretanha e que tem agenciados artistas como Aesthetic Apparatus, Lyndon Hayes ou Tadaomi Shibuya.

Noma-Bar_Profile_Photo.jpg Noma Bar

Graduado em Arte e Design, descreve o seu trabalho simplesmente como comunicação visual, combinando a arte de ilustrar com o design. Utiliza a sua limitada paleta de apenas 3 cores, vermelho, preto e branco com bastante subtileza. Desta forma consegue manipular e transformar símbolos e pictogramas, fazendo com que estes ganhem novos significados. A gestão dos espaços negativos e positivos, ajudam a criar várias imagens, que embora contendo poucos elementos, conseguem passar de uma forma absolutamente eficaz a mensagem pretendida. O uso recorrente do círculo como elemento definidor da capa, acaba por fazer com que estas adquiram uma certa identidade e uniformidade. Noma Bar é também um escritor, contando já com dois livros publicados, Negative Space e Guess Who.

mur7.jpg The elephant vanishes

mur3.jpg Hard boiled wonderland and the end of the world

Dois artistas de quadrantes diferentes, mas com mais em comum do que um primeiro olhar poderá discernir. Pessoalmente penso que Murakami é um autor a ler, sejam as edições dos livros especiais ou não. Porque ler é saber mais.

“If you only read the books that everyone else is reading, you can only think what everyone else is thinking.” ― Haruki Murakami, Norwegian Wood


Vasco Neves

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