vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Vida Alternativa

Passaram alguns meses desde que o meu pai morreu, tantos quanto os necessários para gerar uma nova vida. A morte para algumas pessoas é um assunto tabu, para mim sempre foi natural, parte integrante da vida. O grande ciclo da vida inclui a morte. Mas da morte também se faz vida, como diria Vítor Espadinha "Recordar é viver".


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O destino entendeu que eu cresceria distante do meu pai biológico. Isso não me impediu de ter uma família normal, com um pai, uma mãe e cinco adolescentes como irmãs. Era em tudo uma família igual às outras, apenas com a particularidade de serem personificados em tios e primas. Uma tia-mãe, um tio-pai, e cinco primas irmãs. Foi uma infância tão feliz quanto posso recordar, as idas ao parque e as manhãs de sábado a ver desenhos, o colo de seis mulheres que me mimavam até mais não, que eram as mesmas seis que me ralhavam e castigavam sempre que eu merecia...e foram muitas vezes.

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A primeira vez que vi o meu pai devia ter uns cinco ou seis anos, recordo-me de ser ainda mais pequeno e sempre que via um avião bem alto no céu, eu acenava esperando que fosse aquele o avião que traria o meu pai.

Eram outros tempos e o meu pai estava à distância de um continente. Os telefones e chamadas internacionais/intercontinentais não eram tão frequentes nem acessíveis como hoje, o skype e msn eram apenas produtos de ficção científica. Quando o meu pai regressa eu já sou uma criança crescida, envergonhada e sem perceber bem quem era aquele parente...era o meu pai, mas aquele não era o conceito de pai a que estava habituado...eu tinha um pai, mas chamava-lhe tio!

Durante anos não foi a distância física que nos afastou, mas a distancia afetiva. Nenhum dos dois sabia bem como se aproximar...com o passar dos anos melhorou...um pouco. Nunca tive uma relação de grande cumplicidade com o meu pai, tivemos o melhor que ambos conseguimos arranjar.

António Amaral das Neves, era um homem solitário, teimoso e bastante inteligente, era saudosista e tinha uma tristeza que o assolava na solidão. Tudo tem uma razão de ser, a morte da primeira esposa deixou António com um filho pequeno, e sem saber bem o que fazer...

O Jorge foi viver com uma tia, um tio e cinco primas. Não se enganem, eu não me chamo Jorge, é o meu irmão mais velho...pois é não vos tinha dito tenho um irmão. Assim sendo são: um irmão, uma tia-mãe, um tio pai, cinco primas-irmãs, e um avô. Eu sou filho de uma segunda união, a minha mãe morreu no parto e o meu pai tinha então 46 anos...talvez agora percebam um pouco melhor da personalidade do meu pai...eu demorei alguns anos, mas percebi.

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A perda precoce da sua própria mãe aos 10 anos havia sempre marcado António. Duas mulheres perdidas, e soldado num dos poucos conflitos directos que Portugal travou no séc. XX. Tudo isto deixou muitas mazelas, nenhuma delas física quase nenhuma psicológica, mas muita dificuldade afetiva. Percebi melhor o António quando ele morreu, fui eu que tratei das diligências da sua morte, não deixei que mais ninguém o fizesse, fui eu que recolhi da sua casa todos os seus pertences, fui eu que fiquei com a sua pequena biblioteca. Dizem que herdei a curiosidade dele, assim como a teimosia...

Possuía um acervo de fotografias bastante grande, não tivesse sido ele fervoroso entusiasta da fotografia. Quase todas a preto e branco, datadas dos anos 50 e 60 maioritariamente, muitas fotos de mim que eu nunca tinha visto. A sua preciosa Hermes Baby ficou para mim, afinada e a funcionar como se fosse nova.

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Passado dois ou três meses da sua morte, dividi as fotos em pequenos montes e entreguei a alguns amigos, pedi que me escrevessem uma história sobre o meu pai, mesmo sem o conhecerem. O ponto de partida seriam as fotos, apenas dei uma breve indicação espaço temporal, tudo o resto estava ao critério deles. Foi uma pequena homenagem, a minha visão da vida do António, a "Versão alternativa da história do meu pai".

Talvez seja verdade, talvez não... quem sabe...numa vida alternativa.

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Contexto: Não sei o nome deste amigo do meu pai, na foto nada dizia e não fui a tempo de lhe perguntar quem era, porque estavam abraçados ou quem tirou a foto.

Sei que a máquina era do meu pai, o ano da foto foi um cálculo da data de nascimento do meu pai e a data da entrada no exército.

Por um lado posso fantasiar todos estes aspectos, por outro são memórias que não foram partilhadas comigo são parte de um passado que jamais poderei recuperar, a não ser pelo acervo de fotos herdadas. Resta-me fantasiar e pegar nas boas memórias e sub-conscientemente preencher as lacunas de uma relação peculiar, de um pai e um filho!

Foto: A pinta destes dois personagens! Parecem saídos de um filme cómico a preto e branco, nos tempos em que ser cool e rebelde era usar óculos de sol, ter um casaco de cabedal e uma mota ( e isso o pai tinha).

As meias altas com o calção, farda do exército português em Angola, confere um estilo único a esta foto. O meu pai está com o fardamento principal, que difere no uso da calça, e nas botas em vez de sapatos.

Devo confessar que o amigo do meu pai tem muito mais pinta, com um bigode à Errol Flynn com o calção e a meia a rematar, mas a fazer rebentar de estilo está a mão no cinto, a dar um aspecto cool e descontraído. Dá vontade de lhe perguntar "-onde é que foste arranjar tanto estilo?"

Ter estilo nos anos 50 não era fácil, mas ser tropa ajudava bastante!


Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo....
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