vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Ganhando vida(s) pela escrita

Do acervo fotográfico do meu pai, surge uma vida que eu não conheci que está repleta de sonhos, fantasias e desgostos. A apropriação e partilha através das fotografias, foi mais do que uma catarse e fez-me conhecer melhor o homem a quem um dia chamei pai.


Na sequência do projeto "Versão alternativa da história do meu pai", publico estes 4 textos elaborados por um grande amigo, o escritor publicado e devorador de bolos de laranja António Catarino. As fotos fazem parte do acervo que herdei do meu pai, fazem parte do tempo em que passou na tropa. Os textos são ficcionais e baseados única e exclusivamente nas fotografias, (exceptuando o último texto que tem como referência a morte da minha avó, que o meu pai teve conhecimento por telegrama, dias depois do funeral.)

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I - 1953

O tecido assenta sobre a minha pele como uma segunda pele… Não é digno dum soldado passar horas à frente do espelho, como uma debutante a estrear o vestido. Não, um soldado tira fotografias e experimenta todas as poses, desde a formatura à posição de tiro, alternando o uniforme de verão com o de inverno, a espingarda com a metralhadora, o capacete com o quépi. Vamos lá marchar com brio, que o brilho das nossas baionetas cegaria instantaneamente qualquer espião! Ó Fagundes, carrega aqui no botão que é para eu aparecer também! Agora como uma equipa de futebol, os mais altos sentem-se ou fiquem de cócoras, senão não cabemos todos. Vá, atenção, todos a olhar para mim… Olha o passarinho! Lá em casa, na metrópole, anseiam por notícias e, como se costuma dizer, uma imagem vale mais do que mil palavras. Será vaidade dizer que a farda me assenta realmente muito bem?

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II - 1954

Os campos de batalha deveriam ser substituídos por refeitórios, acabavam-se todas as guerras se conseguíssemos sentar as partes beligerantes à mesa. A política amarga qualquer prato, mas tenho a certeza de que se as entradas não calassem todas as questiúnculas, durante a sopa a maior parte das bocas estaria já demasiado ocupada a saborear o caldo para perder muito tempo em rezinguices. Quando chegasse o momento do prato principal ninguém deixaria de deglutir a tenra carne para insistir em tira teimas. Pela altura da sobremesa haveria lugar apenas para unânimes elogios à perícia do cozinheiro e o brinde final coroaria a amizade entre os irmãos desavindos, ficando o conflito sanado duma vez por todas. Os jipes, camiões e tanques de guerra com as bandeiras de todas as nações pintadas, ficariam ordeiramente estacionados ao lado do refeitório. As espingardas, metralhadoras e pistolas estariam arrumadas no bengaleiro. Os inimigos de outrora posariam para o retrato da ocasião com sorrisos de orelha a orelha, embora (aqui para nós que ninguém nos ouve) esteja para nascer quem seja capaz de posar melhor do que eu e os meus camaradas para uma máquina fotográfica. Acreditem em mim: o cenário ideal para travar uma batalha é um refeitório, as guerras do futuro serão ganhas por cozinheiros e não por generais.

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III - 1956

Ontem à noite sonhei com uma pirâmide formada por três das nossas espingardas assentes sobre si próprias. Estava convencidíssimo de que, por algum mistério e desconhecido sortilégio, as três armas se disparariam simultaneamente. O que aconteceria então? Na pior das hipóteses, talvez as balas se fundissem numa só, ao cruzarem-se no impossível ponto de mira, ziguezagueando sem destino por todo o quartel. Não havia como saber! Pelo sim pelo não, eu permaneci de plantão, vigiando ferozmente a impertinente pirâmide, e por lá me deixei ficar até acordar.

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IV - 1957

O silêncio. O recolher obrigatório da voz. A lei marcial caiu sobre o som. E, todavia, persiste o grito das letras impressas a tinta sobre o papel… como uma pegada, um decalque deixado pela dor. Na oficina todos tentam animar-me, todos procuram fazer-me esquecer, todos me dão palmadinhas nas costas. Alguém tira uma fotografia que a minha mãe já não vai ver. Aceno a cabeça aos bem-intencionados comentários circunstanciais. As palavras não chegam, as palavras não são o suficiente, as palavras também nunca chegariam a tempo do funeral.

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Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo....
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