vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Crianças, casas assombradas, e arte...uma conjugação perfeita

Uma das mais fantásticas características do ser humano é a sua adaptabilidade. Foi essa capacidade de desconstruir e dar uma nova visão às obras de arte, que a Torafu Architects empregou neste projecto com o Museu de Arte Contemporânea de Tóquio. Aprender a brincar...uma receita de sucesso garantido.


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Quando penso em arte, e tendo a sorte de ter visitado vários museus, fico sempre com a sensação que por vezes estes são pouco adaptados aos diferentes públicos, a ideia com que fico é que são muito direccionados para um público adulto. Será que a arte nos museus é apelativa para as crianças?Eu acho que não, especialmente quando falamos de arte mais clássica. A própria ideia de não fazer barulho num museu, de não se poder tocar nas peças de arte é algo que não se coaduna com o espírito jovial, irrequieto e sonhador das crianças.

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E talvez por isso grande parte dos museus não consiga ser apelativo às crianças, principalmente porque parece existir uma inabilidade de conseguir chegar até elas. Nunca fui adepto da infantilização das coisas, as crianças têm uma capacidade cognitiva que por vezes os adultos acabam por ignorar, não se deve infantilizar a arte, mas sim saber como adaptá-la de forma a cativar e criar interesse nos mais pequenos. É certo que para uma criança estar num museu a olhar a peças de arte clássica pode ser um tanto ou quanto aborrecido. Como diz o velho ditado se Maomé não vai à montanha...

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E foi neste sentido que o pessoal da Torafu Architects percebeu que a visão da arte por parte das crianças segue trâmites diferentes dos de um adulto. De uma maneira simples (quase sempre é assim, a solução dos problemas é mais simples do que imaginamos) eles conseguiram contornar esta questão e decidiram tornar a arte (direccionada para as crianças) mais interessante, ou será que o termo certo é aterrorizante...

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Não sei quanto a vocês, mas eu quando era miúdo adora ir às feiras. Adorava todos os barulhos, as cores, os movimentos e cheiros, mas gostava especialmente dos sabores...do algodão doce e das pipocas ... um verdadeiro orgasmo dos sentidos. Adorava andar nos diferentes divertimentos e os meus favoritos sempre foram as casas assombradas. Quase sempre de qualidade duvidosa com as teias de aranha falsas, os esqueletos de olhos vermelhos e os risos maléficos, mas que criavam um misto de medo e excitação. Esta foi a maneira da Torafu Architects tornar a arte apelativa aos olhos das crianças.

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Com um conceito simples e saindo do padrão comum de sala de museu/galeria de arte, eles decidiram criar uma “galeria de arte assombrada” para as exposições no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio. A exposição apresenta réplicas de arte diferentes, são interativas podem ser "vistas com as mãos", o que transforma toda esta experiência dos mais pequenos num alegre passeio dos sentidos. Aqui o sentido do tacto assume uma função pouco comum na maioria dos museus, onde a regra do não tocar é seguida religiosamente, aqui a regra é inversa, quanto mais se tocar mais se tira da experiência. Em algumas pinturas os olhos movem-se, noutras é possível fazer parte da própria peça. E é nesta apropriação das peças por parte das crianças que faz com que toda esta agradável experiência se torne memorável.

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O ponto alto é a passagem secreta, que permite que quem está lá dentro manipule as peças para os que estão a ver da parte de fora. A arte deve também ser isto... ter este carácter lúdico, deve ser concebida a pensar também para as crianças. Vivemos num mundo onde as crianças nascem com um cordão umbilical digital, e no meio de tanto estímulos como televisão, internet, jogos de vídeo, por vezes é difícil tornar apelativo e conseguir cativar o interesse dos mais novos para o museu.

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Os tradicionalistas da arte de visitar museus poderão torcer o nariz a este tipo de visita, mas eu acredito que não existe arte maior que o riso estridente de um grupo de crianças, da surpresa ao descobrir que aquela pintura ou escultura foi feita por um senhor ou senhora mais velho do que os seus avós. A arte é vida e sem vida a arte é apenas um conjunto de objectos.

Aprender e brincar são complementares, não devem andar separadas pois crianças felizes são mais inteligentes, seja a nível cognitivo, seja a nível emocional. E crianças felizes transformam-se em adultos mais tolerantes.

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Vasco Neves

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