vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Buffalo Soldier - Sangue Suor e Glória

Convido-vos a fazer um exercício mental simples... uma associação de ideias, por exemplo as palavras - "Buffalo Soldiers"... a grande maioria dos leitores (os que conhecem o termo) vão associar estas palavras a uma das mais famosas músicas do ícone do Reggae Bob Marley. Mas este termo é mais do que uma canção... Uns dirão que é história americana, ou outros que é história negra...eu digo que é história humana...nada mais. Conheça um pouco dos regimentos compostos apenas por soldados Negros na guerra civil americana e no pós guerra.


Buffalo Soldier foi o nome atribuído pelos índios das planícies norte americanas aos regimentos de soldados negros, mais particularmente a dois regimentos de cavalaria do exército durante a Guerra Civil Norte Americana. O nome era devido ao cabelo encaracolado dos soldados e à sua bravura em batalha, que lembravam aos povos índios o poderoso Bisonte das Planícies.

Estima-se que durante a Guerra Civil Norte Americana existissem mais de 180 mil soldados negros a lutar. A grande maioria destes soldados estavam em regimentos segregados no exército da União. Muitas destas unidades alcançaram feitos dignos de distinção em combate. É certo que também existiam soldados negros ao serviço da Confederação, a grande maioria recrutada à força e para cumprir tarefas menores, assim que tinham oportunidade acabavam por fugir e render-se aos soldados da União...afinal a ideologia da Confederação tinha como base a manutenção do trabalho escravo.

1.jpg Buffalo Soldier I

Bob Marley tem na letra de Buffalo Soldier um resumo simples, mas ao mesmo tempo acertado sobre a condição dos negros na Guerra Civil Norte Americana. E no que a sociedade dos Estados Unidos da América se viria a tornar. Fundiu-a com a filosofia Rastafari, atribuindo ao Buffalo Soldier características típicas como os dreadlock e denominação de rasta. Foi o paradoxo entre o negro africano escravo que é o mesmo que ajuda a fundar a nova sociedade Norte Americana.

"I'm just a buffalo soldier in the heart of america, Stolen from africa, brought to america, Said he was fighting on arrival, fighting for survival; Said he was a buffalo soldier win the war for america."

4.jpg Buffalo Soldier II

A história sempre foi um dos meus objectos de interesse enquanto crescia. Desde a história da humanidade, a história portuguesa e europeia, mas sempre tive um interesse especial pela sociedade norte americana. Se eu fosse antropólogo de certeza que iria achar interessante o complexo facto de um povo colonizador - os Europeus -, um povo escravizado - Africanos, e um povo subjugado e quase aniquilado - os Índios Americanos, se encontraram em alianças, guerras e jogos de dominação e poder.

10.jpg Regimento Buffalo Soldier cerca de 1870 A escravatura foi a base da economia norte americana durante muito tempo, na verdade não era a escravatura directamente, mas o trabalho escravo que permitia aos latifundiários do Sul enriquecer com poucos custos envolvidos. Se pensarmos bem historicamente não é nada de novo, essa foi a prática dos homens durante vários períodos nas diferentes sociedades...Os Egípcios escravizaram os Hebreus, e construíram dos mais belos e duradouros monumentos da humanidade.

A condição do homem escravo negro era simples, retirava-se o "homem" ficando apenas o "escravo negro"... A escravatura deixava os negros num patamar abaixo do infortúnio que também era partilhado pelos índios. Os povos índios na sua maioria nunca se deixaram dominar ao ponto de se tornarem escravos físicos, embora muitas vezes fossem tratados com tal. A condição humana (também) é assim...estranha, mesquinha...podem surgir vontades de exercer poder sobre o outro, de domínio e subjugação do outro. Hoje em dia temos escravos de outros tipos, mas igualmente em condições degradantes. A nova escravatura é igual à velha escravatura...seres humanos a explorar outros seres humanos.. sujeitos à subjugação sexual, laboral...onde é retirado a estes humanos a capacidade de serem isso mesmo...Humanos.

0 (2)-By SkyLovers.jpg Acampamento de soldados de patrulha

Quando em 1866 o Congresso Norte Americano, já em tempos de paz, reorganizou o exército reconheceu os méritos militares dos soldados negros. Foi autorizada a criação de dois Regimentos de Cavalaria, a Nona Cavalaria e a Décima Cavalaria dos Estados Unidos, e seis Regimentos de Infantaria, constituídos apenas por soldados negros. No ano de 1869 os Regimentos de Infantaria negros foram consolidados em duas grandes unidades,a Vigésima Quarta Infantaria e a Vigésima Quinta Infantaria dos Estados Unidos.

15 (2).jpg Regimento Buffalo Soldier II

Estes quatro Regimentos( dois de Cavalaria e outros tantos de Infantaria) eram compostos por homens negros alistados e comandados na sua maioria por oficiais brancos, embora tenham existido algumas excepções como Henry O. Flipper, um soldado americano e ex-escravo, que foi o primeiro negro a formar-se na prestigiada, elitista e tradicional Academia Militar dos Estados Unidos em West Point. Estávamos em 1877, apenas 12 anos após o final oficial da escravatura nos Estados Unidos, atingiu o posto de segundo tenente do Exército dos EUA.

5.jpg Henry Ossian Flipper (21 March 1856 – 3 May 1940)

Este texto não pretende fazer qualquer glorificação do estatuto militar, é uma enaltação do espírito do ser humano. Estes homens superaram o preconceito interno e quase institucionalizado do exército e das comunidades onde estavam em serviço. Eram soldados mas também membros das localidades que protegiam, e sempre tiveram uma folha de serviço excepcional. Tiveram um papel fundamental nas grandes campanhas contra os indios Cheyenne, Kiowa, Comanche , Apache, Sioux e os índios Arapaho . Treze homens receberam a medalha de honra durante as guerras com os índios, assim como seis oficiais, e mais cinco soldados que conseguiram a mesma condecoração durante a Guerra Hispano-Americana. Pouco são de orgulho estas medalhas à luz dos dias de hoje, mas alguns anos antes era impossível a um negro ser condecorado...quis o destino que fosse ajudando a subjugar um outro povo das suas liberdades. Mas até na guerra surge o amor...

17.jpg Buffalo Soldier e a esposa Índia

O destinos dos índios norte americanos estava traçado, o outrora povo dominante das planícies era no final do séc XIX um povo praticamente subjugado e confinado a pequenas reservas. Foi um tipo de escravatura diferente este... não foi uma escravatura física, mas era igualmente terrível... foi uma escravatura cultural. Nas guerras existem várias visões...e a maioria acredita que luta pelo lado certo. A história Norte Americana (como quase todas as outras) foi feita à custa da guerra...a morte como companheira e o gosto metálico do sangue e do suor dos que lutaram e morreram como aperitivo.

16.jpg Foto de cerimónia cerca de 1905

O Vigésimo Quarto foi o último Regimento segregado, quando foi desativado em 1951 (e em como todas as outras unidades) os seus elementos foram integrados noutras unidades do Exército. A guerra é democrática... torna todos os homens iguais em combate, a morte estará sempre presente, o sangue de um homem tem apenas uma cor...vermelho vivo...vermelho sangue, ainda que a pele possa ter uma cor diferente.

15.jpg Regimento Buffalo Soldier cerca de 1930

A música escrita em 1978 por por Marley e Noel G. Williams (aka King Sporty), Buffalo Soldier terá sido inspirada num artigo sobre os Buffalo Soldier do começo do séc. XIX, que Marley terá lido. Nos anos 60 da década de 90 o elevado número de westers produzidos por hollywood, alguns dos quais versados sobre as companhias de buffalo soldiers, trouxeram para junto do grande publico este pedaço de história norte americana... Um dos mais famosos é o clássico de 1960 Sergeant Rutledge.

09.jpg Western Sgt Rutledge de John Ford(1960)

Quase que me atrevo a dizer que hoje em dia qualquer pessoa que lute pela bondade e justiça é um Buffalo Soldier, independentemente da cor da pele, do género sexual ou de qualquer outro critério que queiramos utilizar para catalogar alguém. A luta pela justiça, igualdade e integração não deve ser levada de animo leve, as diferenças existirão sempre quer seja na cor da pele, seja na religião, seja no estilo de vida... Mas será sempre mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa.

11.jpg Momentos de descontração

A guerra é destruidora - a aniquilação cultural sofrida pelos índios (que não pode ser simplesmente recompensada por licenças especiais para a construção de casinos), ainda não teve um reconhecimento sério, digno e justo pela sociedade norte americana... e a guerra construtora , um veículo de afirmação de uma franja da população, que ficou na sua maioria pobre, posta de lado, explorada e desvalorizada... mas que também conseguiu alguns feitos históricos que haveriam de culminar na luta pelos direitos civis.

Que 2014 vos traga o sentimento de serem Buffalos Soldiers.


Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo....
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