vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

David Lynch - O sonho acordado

O despertar do sonho pode ser doloroso. Quando a realidade é a alternativa ao sonho, por vezes a não consciência parece uma bênção. David Lynch usa as nossas mentes como um baralho de cartas. Baralha constantemente e dá as cartas tal como um croupier cinematográfico. Cabe a cada um de nós perceber que naipe escolher, e que jogo iremos jogar.


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Começo por dizer que não sou crítico de cinema, e não quero criticar cinema! Sobre o cinema uso a regra que aplico nos outros planos da minha vida, ou gosto ou não gosto.

Posto isto, falemos então de coisas sérias.

O cinema nas suas variadas formas, da curta ao documentário, têm sempre um espaço na minha vida. Infelizmente sofro do síndrome de curta memória cinematográfica, aliás acho que tenho a pior memória cinematográfica de todos as pessoas que eu conheço.

Não é uma condição clínica séria e também não se enquadra em nenhuma patologia grave podem ficar descansados. A forma como é feita a gestão da minha memória em questão de filmes é a seguinte: arrumo os filmes que vejo em pequenas caixas dentro da minha mente. Sobre este assunto teria de ter uma conversa séria com o senhor Sigmund Freud.

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Cada filme encerra em si o gosto do meu estado de espírito. Por vezes eu preciso de ver um filme mais do que uma vez para o verdadeiramente apreender. Sou incapaz de definir um top 10 de filmes a ver na vida, e isso por vezes provoca-me um certo desconforto. Quase parece um problema, mas não o é verdadeiramente.

Quando nos permitimos a um ecletismo artístico, o vulgo "eu gosto disto, não me perguntes porquê, simplesmente gosto!" podemos descobrir coisas verdadeiramente espantosas. Outras vezes tentamos uma, duas, e até tentamos uma terceira vez, mas por mais esforço que façamos não chega para gostar.

O ditado diz de uma forma austera e quase em tom de lei: "Gostos não se discutem", eu acredito que os devemos discutir e durante horas a fio se for necessário. A palavra discussão raramente vem associada à troca saudável de ideias, surge quase sempre com uma conotação mais agressiva. Inúmeras foram as vezes, que após uma discussão agradável em torno de um copo de vinho, descobri bandas, filmes e livros que mais tarde se tornariam verdadeiras paixões.

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Dos vários filmes que vi na minha vida, Mulholland Drive de David Lynch é talvez um dos que mais me marcou. Nunca consegui bem explicar o porquê, talvez tenham sido as circunstâncias, talvez tivesse sido o facto de eu já conhecer o realizador, embora não mais do que da (grande) série Twin Peaks. Quem sabe não foi, o ímpeto de procurar algo que naquela fase da vida, era ainda era incerto. Tudo se passou há um bom par de anos, estávamos na transição do Milénio. Existia uma certa aura de incerteza que pairava sobre mim e sobre os meus amigos. O mundo havia mudado tanto e em tão pouco tempo. Numa década passámos do vinil e da cassete, para o compact disk (CD) e o minidisk. "Mais capacidade em menos espaço" poderia este ser o lema dos primeiros anos do século XXI. Numa década e meia, um simples objecto de uso diário e recreativo como o disco vinil, passou a ser um objecto coleccionável.

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Vivia a doce incerteza da juventude, as primeiras experiências enquanto adulto de papel passado. Legalmente já era adulto, socialmente ainda era um adolescente com o mesmo juízo de quando tinha 16 anos. Era maior de idade, mas simplesmente porque a distância que ia do meu nascimento até essa altura, já me permitia, entre outras coisas, votar e tirar a carta de condução. Já não seria a minha tia Lurdes a vir ralhar comigo sempre eu fizesse alguma asneira, agora seria a sociedade a acompanhar-me, a felicitar-me, ou reprovar-me neste último ritual de passagem. Era chegada a altura de perder a criança, para ganhar o homem. O caminho era em direcção a esse estádio permanente a que chamam de Idade Adulta. Tudo era incerto, tudo era bom!

E é nessa incerteza que me é apresentado o filme Mulholland Drive pela primeira vez. Talvez tenha sido em casa de um amigo, ou talvez tenha sido na minha. Não sei se foi depois de uma saída nocturna, ou se num final de tarde soalheiro. Eram os tempos de faculdade, a realidade era meio difusa, o dia por vezes misturava-se com a noite. Vi e revi inúmeras vezes este filme desde então, sempre com a esperança de encontrar um significado, mas no final apenas surgiam mais dúvidas que respostas. Talvez seja isso que faz deste filme, um ícone para muitos jovens que cresceram com a cultura do final dos anos 90 começo de 2000.

Club from Vasco Neves on Vimeo.

De todas as boas cenas deste filme, esta foi a que mais me intrigou, a do Club del Silencio, e dentro dessa cena um pequeno excerto de cerca de 5 minutos, com a actuação de "La Lõrona de Los Angeles". É sem dúvida (a meu ver) o ponto mais alto do filme, quer pela força que o áudio e o visual nos oferecem, quer pelo facto de ser um ponto de viragem do filme. Depois desta cena tudo muda, é a passagem do sonho para a realidade, ou de uma realidade para outra realidade. É o ponto onde a sinestesia presente ao longo do filme é mais vincada.

Mistura estranha esta, onde temos sonho e realidade(s). O Club del Silencio, ao contrário daquilo que o seu nome sugere, é por ventura o lugar onde é mais forte o som, de tal maneira forte que nos provoca um despertar.

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Esta cena é uma daquelas que nos fazem ficar colados ao ecrã. Rebekah Del Rio é simplesmente arrebatadora, e a sua poderosa voz confere à cena um toque surreal. Rebekah canta um "cover" em Espanhol da música Crying de Roy Orbison. Esta surge num tom mais fúnebre, e mais pesado do que a versão original. A força e poder da música surgem do facto, de a cantora cantar à "capella", sendo a voz o único elemento de destaque áudio. Visualmente tudo neste Clube do Silencio, é exagerado, falso, diferente, enganoso e estranho. Não é pois de admirar que no momento em que estamos colados ao pico da canção, o desmaiar da cantora provoque, tanto nas personagens, como nos espectadores (do filme), a sensação de acordar para a realidade. Pode ser duro este despertar do encantamento que por vezes a arte, seja ela de que tipo, lança sobre nós.

Mulholland - Cena Club Silencio Completa from Vasco Neves on Vimeo.

É um filme rico em variados clichés da "Meca do Cinema", a hollywood dos enganos, das falsas esperanças e das vãs verdades. Mas também a hollywood dos sonhos, dos que são sonhados e dos que são desfeitos. Esta capacidade que David Lynch tem de conseguir uma e outra vez baralhar-nos é simplesmente notável. A mistura cinematográfica de realidades estranhas e quase sonhadas, de universos paralelos mas suficientemente próximos de nós, para que sejamos atraídos para a obra deste grande mestre da realidade/alternativa, como estrelas em redor de um buraco negro.

"-Um filme de estrutura estranha" dirão alguns, outros dirão "- Isso é porque Lynch é um surrealista", outros até "- Que é uma estética característica do realizador, o chamado estilo Lynchiano". Para mim David Lynch é simplesmente um artista da cabeça aos pés, argumentista, pintor, produtor e até músico, a arte corre nas suas veias. Já trabalhou em muitas coisas ao longo da sua vida, mas o seu grande sonho inicial era ser pintor. Talvez esta ligação à pintura, lhe tenha moldado a forma como pinta as cenas dos seus filmes. Provavelmente se Salvador Dali tivesse sido realizador de cinema, se aproximasse da estética de Lynch.

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Para quem percebe de cinema, David Lynch e os seus personagens são facilmente catalogados de isto ou de aquilo, eu de cinema percebo pouco, mas gosto, e o meu gosto não é imparcial, não é isento, é simplesmente meu.

São várias as gerações que seguem David Lynch, certamente de uma forma mais massiva, desde o estrondoso sucesso de Twin Peaks nos anos 90. Mas já bem antes, no final dos anos 70 com o seu Heraserhead (1977), podiamos começar a ver os usos destas realidades alternativas, com que David Lynch constantemente nos presenteia.

Para mim o que diferencia os filmes de Lynch de outros, é toda a sua composição cinematográfica. Utiliza elementos por vezes estranhos, mas com os quais qualquer um de nós se consegue identificar. O uso do comum misturado com o absurdo, cria em nós a tal sensação de vertigem ilusória. Os jogos simbólicos das suas obras, são bastante ricos de referências do subconsciente, do que surge naquele estado em que nem estamos totalmente a dormir, mas também não estamos acordados. São as dicotomias, umas vezes opostas(vermelho/azul), outras vezes complementares (chave/fechadura) que baralham e dão sentido às histórias.

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Para os seus admiradores a curiosidade e excitação de um filme de Lynch, suplanta de longe essa falta(aparente) de coerência na história. A história de um filme de Lynch não é apenas uma, cada um de nós é obrigado a apropriar-se, e a interpretar à sua maneira, criando histórias paralelas, tantas quantos os universos cinematográficos de David Lynch.

É um realizador galardoado, principalmente fora do circuito comercial, este é demasiado "certinho" para o que David Lynch nos apresenta.

Tire um fim de semana e faça uma maratona de David Lynch, ou simplesmente escolha um DVD ao acaso (The Straight Story pode ser uma boa escolha para principiantes) e veja, mas veja sem pudor, permita-se a viajar, permita-se a ser enganado uma, duas, três vezes.

Mas aviso desde já, prepare-se para ficar com muitas dúvidas, dúvidas das boas, daquelas que nos "obrigam" a rever os filmes uma e outra vez.

Site (não oficial) Site

Sugestões:

Twin Peaks (Série)

The Elephant Man

Blue Velvet

Wild at Heart

Lost Highway

The Straight Story


Vasco Neves

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