vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

O Amor abriu (literalmente) o caminho na montanha

Disseram-lhe que era impossível, ele pegou num martelo, num cinzel, em corda e toda a sua raiva e amor e escavou, escavou a dor para fora do seu coração, enquanto abria um caminho para que todos pudessem ter igualdade de oportunidades. É dos homens simples que surgem os grandes feitos!


Diz-se à boca pequena que a fé move montanhas, se isso é verdade não sei. Na verdade sei que esta expressão é usada de forma metafórica para dizer que se acreditarmos muito, no final conseguimos alcançar o tão desejado objetivo. Eu, simples homem de fé (não sei se em Deus ou se nos homens) não acredito que baste acreditar!

Não sei se a fé move montanhas, mas sei que o Amor abre caminho pelo meio delas!

Não comprem as estórias que vos contam sobre o poder do acreditar! Não me interpretem mal, mas acreditar muito em algo só vai funcionar se, aliada à crença, colocarmos mãos aos trabalho.

Um preguiçoso que acredite muito, dificilmente chegará a algum sítio!

Parece confuso o que vos escrevo? É porque é mesmo confuso! Se ainda não fecharam o texto é porque estão no bom caminho.

Deixem-me recapitular, a fé move montanhas segundo dizem, e eu repito sobre isso não sei, mas só Amor pode abrir caminhos pela montanha!

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A estória que vos vou contar não é retirada de um filme, a realidade não poderia estar mais longe de um cenário cinematográfico. A estória que vos conto é de um homem simples, de um homem pobre que acreditou, que amou, que sofreu e literalmente com o seu Amor abriu um caminho numa montanha.

Dashrath Manjhi, era um simples agricultor Indiano. Ao contrário do imperador Shah Jahan, que mandou erguer, por amor, o Taj Mahal, em memória da sua esposa favorita, Aryumand Banu Begam, carinhosamente apelidada de ‘A jóia do palácio’, Dashrath não ergueu um Palácio mas, também por amor, abriu um trilho no meio de uma montanha.

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Um dia Dashrath estava a cortar lenha no outro lado da montanha (que separa a sua aldeia das outras aldeias em redor), quando a sua esposa ao escalar a montanha (o caminho mais curto, mas também mais perigoso) para lhe ir levar comida, caiu ficando gravemente ferida. Sem acesso aos médicos que ficavam do outro lado da montanha Dashrath pensou que tinha de arranjar uma solução para que estas situações não se voltassem a repetir.

Foi um ato de amor, mas também um ato de dor, de revolta de frustração. Foi uma forma de abrir, à força, com um martelo e um cinzel um caminho entre duas aldeias, mas foi mais do que isso, foi uma forma de homenagear a sua esposa, e todos os que na sua aldeia não tinham acesso às coisas mais básicas, como educação e saúde. A cada batida do martelo no cinzel, e do cinzel na rocha, a sua dor ia-se desfazendo, lentamente como a dura rocha.

Durante 22 anos, de 1959 a meados de 1981, Dashrath que ficou conhecido na região como o ‘homem da montanha’, desbastou a montanha. Esta jornada épica, quase louca, surge da dor e do desespero. A mulher de Dashrath gravemente doente, não tinha maneira de ser tratada num centro de saúde. A vila onde ficava o centro de saúde estava do outro lado da montanha, mas o caminho mais próximo estava a 50 quilómetros de distância. Parece pouco, mas na Índia rural um agricultor mal teria dinheiro para comer, muito menos para possuir um carro!

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A sociedade indiana é uma sociedade de castas, mas isso pouco importa, porque um pobre é um pobre em qualquer parte do mundo! Este pobre agricultor sabia que a sua voz nunca seria escutada pelos governantes. Sabendo que não veria atendido o seu pedido para que abrissem um trilho na montanha e ligassem as duas aldeias, Dashrath fez aquilo que a maioria de nós, por preguiça, recusa a fazer, meteu mãos à obra, e decidiu que o sucedido à sua esposa não seria em vão! Vendeu os seus poucos pertences de valor, as suas cabras, e gastou o dinheiro na compra de um cinzel, uns metros de corda e um martelo. Estes foram os únicos materiais que usou na tarefa, mas aliado a uma dose de coragem, amor e loucura!

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Demorou uns longos 22 anos para concluir a tarefa de escavar a montanha, com um martelo e um cinzel nas mãos. Depois de o terem chamado de louco, de terem duvidado da sua capacidade de levar avante esta hercúlea tarefa, Dashrath ‘o louco’ terminou a sua tarefa. Este trilho, que tem cerca de 5 metros de largura e um quilómetro de comprimento, tornou-se uma passagem real.

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Movido pelo Amor, este homem tem um ato de altruísta que parece pouco, a mim sentado em frente a um computador a transcrever esta história, mas que para as centenas de aldeãos (novos, velhos, mulheres e homens) que utilizam este caminho, esta história é real e cantada e contada como se de uma lenda se tratasse. Este novo caminho encurtou a distância da aldeia de Dashrath para as outras aldeias de 50 para uns meros 10 quilómetros.

Dashrath não escavou apenas um caminho pela montanha, escavou um caminho para o futuro do habitantes da sua aldeia.

Em 2007, depois de um longo período de doença oncológica, Dashrath o ‘Louco’, o ‘ Homem da montanha’, morreu em Nova Deli no Instituto Indiano de Ciências Médicas deixando um legado, um trilho na montanha.

Mas não foi apenas esse o legado deixado por Dashrath, após a sua morte, os seus amigos, os mesmo que chamaram de louco, continuaram o seu trabalho, muitos são velhos e muitos estão doentes, mas mantiveram-se fieis à obra deste homem, de quem um dia duvidaram da sanidade mental!

Um caminho na montanha e uma semente no coração dos Homens que conheceram Dashrath.

A si, leitor incauto que chegou até aqui, espero que a história de Dashrath coloque também uma semente no seu coração, ou então uma dúvida na sua cabeça. 'Mantenha os seus pensamentos positivos, porque os seus pensamentos tornam-se as suas palavras. Mantenha as suas palavras positivas, porque as suas palavras tornam-se as suas atitudes. Mantenha as suas atitudes positivas, porque as suas atitudes tornam-se os seus hábitos. Mantenha os seus hábitos positivos, porque os seus hábitos tornam-se seus valores. Mantenha os seus valores positivos, porque os seus valores... Tornam-se o seu destino' - Mahatma Gandhi


Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo....
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