vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Klimt e Emilie - A Luz e a Sombra

Podes não saber o nome dele à primeira, tens de pensar uma, duas ou até mesmo três vezes e provavelmente mais depressa pensas em Van Gogh ou Monet antes de te lembrares do nome deste pintor, mas toda a gente sabe reconhecer a sua pintura quando a vê - os nossos olhos iluminam-se perante a grandiosidade, beleza e vivacidade da cor da sua pintura - Gustav Klimt - este é o nome que estava a escapar. Mas nunca paraste para perguntar se aqueles vestidos alguma vez foram reais, ou apenas fruto da fértil e criativa mente do pintor? Mas quem estava por detrás dos vestidos utilizados pelas belíssimas mulheres da sociedade vienense?


É sempre bom voltar aos locais onde fomos felizes, e é assim que me sinto sempre que abro o backoffice da obvious para escrever. Por vezes passam-se meses sem visitar esta casa, mas é como um velho amigo e assim que chegamos reconhecemos tudo o que é bom! Por vezes lemos, visualizamos ou sentimos algo que tem de ser partilhado com o mundo e é na obvious que eu gosto de o fazer!

Podes não saber o nome dele à primeira, tens de pensar uma, duas ou até mesmo três vezes e provavelmente mais depressa pensas em Van Gogh ou Monet antes de te lembrares do nome deste pintor. Se te pedirem para dizer o nome do pintor que foi um dos maiores representantes do simbolismo austríaco e fundador do movimento de secessão vienense, é normal que não saibas responder - eu não saberia! Mas se esta questão for feita com um quadro desse mesmo pintor ao lado, a resposta torna-se muito mais simples!

Toda a gente sabe reconhecer a sua pintura quando a vê - os nossos olhos iluminam-se perante a grandiosidade, beleza, erotismo e vivacidade da cor presente na sua pintura - Gustav Klimt - este é o nome que estava a escapar. No traço característico são notáveis e destacados os vestidos usados pelas mulheres da alta burguesia, que Klimt gostava de retratar. As coloridas e psicadélicas cores usadas nas pinturas tornaram-no num dos mais influentes e reconhecidos pintores da sua época. As suas obras são vendidas, em leilão, por milhões de euros estando as suas obras entre as mais caras de sempre.

Mas por algum momento paraste para te perguntar se aqueles vestidos alguma vez foram reais? Ou eram apenas o fruto da fértil e criativa mente deste magnânimo pintor? Quem estaria por detrás dos vestidos utilizados pelas não menos belíssimas mulheres da sociedade vienense?

Esta é a questão que vos deixo!

emiliefloge.jpg

Os vestidos eram de facto reais e foram concebidos por Emilie Flöge, um nome esquecido nas sombras do tempo. É ela a autora dos vestidos utilizados na pintura de obras como 'Retrato de Adele Bloch-Bauer I'.

emiliefloge1.jpg

Emilie começou a sua carreira como costureira no virar do século em Viena. Ela e a sua irmã mais velha venceram um concurso de costura em 1899 e o prémio foi a possibilidade de desenharem uma peça para uma prestigiada exposição de moda da altura.

A partir desse concurso começou uma carreira de sucesso como como empresária de moda, abrindo um salão de alta costura com o nome de Schwestern Flöge - as irmãs Flöge - situado numa das principais ruas de Viena.

emiliefloge3.jpg

emiliefloge4.jpg

emiliefloge5.jpg

O salão passou a ser um dos principais espaços de moda para as senhoras da sociedade vienense, estando ao nível dos salões de Paris. Mas fora do seu salão, Emilie tinha um gosto mais rebelde e completamente fora da sociedade convencional, que dificilmente conseguiria ser aceite naquela época.

Mas um certo pintor, boémio e irreverente, de seu nome Gustav Klimt ficou fascinado com aqueles vestidos e especialmente com a sua autora.

emiliefloge6.jpg

emiliefloge7.jpg

Gustav e Emilie conheceram-se quando ela tinha apenas 18 anos. A sua irmã mais nova, Helene, tinha sido casada com o irmão de Gustav, Ernst Klimt que morreu um ano após o casamento. Gustav tornou-se 'guardião' de Helene na ausência de seu irmão (como costume de época) sendo uma figura frequente na casa de verão da família de Emilie, no lago Attersee.

emiliefloge8.jpg

Gustav e Emilie tornaram-se muito próximos. Alguns diziam que eles eram amantes e que o casal retratado no quadro 'O Beijo' de Klimt eram na verdade Gustav e Emilie. Talvez fossem amantes, talvez fossem amigos, mas era inegável toda a cumplicidade, física, psicológica e artística. Emilie tornou-se a companheira de vida do pintor cruzando-se nos diferentes círculos, desde as festas da alta sociedade até às festas boémias.

emiliefloge9.png

emiliefloge10.jpg

A ligação de Emilie e Klimt era visceral, uma combinação criada nas estrelas! Como Klimt, com seu estilo provocador e arte erótica, Emilie Flöge tinha uma propensão para criar peças revolucionárias. Os seus vestidos de assinatura eram criados sem os espartilhos tradicionais de época e pendiam dos ombros com mangas largas, roupa confortável.

emiliefloge11.jpg

emiliefloge12.jpg

Os desenhos de Emilie eram claramente influenciados pelo movimento feminista, propondo um um estilo mais prático e confortável, mas levavam também o toque inspirador e boémio, influência de Gustav.

Klimt criou ao lado de Emilie, com Emilie, para Emilie e vice-versa. Ausência de corpete tornava a roupa mais confortável, mas também era uma forma de liberdade, liberdade da forma, liberdade do peito, liberdade de um estilo formatado e idealizado pela sociedade.

emiliefloge13.jpg

emiliefloge14.jpg

Mas os vestidos de Emilie não vendiam, eles eram demasiado revolucionários, muito à frente de seu tempo. Por outro lado os seus vestidos convencionais, os vendidos no seu salão em Viena, vendiam-se bastante bem. Mesmo usando os vestidos de Emile para vestir as senhoras da alta sociedade que pintava, a influência de Klimt não era suficiente para que senhoras como Adele Bloch-Bauer, a 'Woman in gold', os utilizassem fora do circuito intimo em que Klimt as pintava. Em 2006, 'Retrato de Adele Bloch-Bauer I' foi vendido por cerca de 123 milhões de euros.

As pinturas de Klimt não foram suficientes para desencadear uma carreira de sucesso como designer de roupa, não da roupa habitual, mas da sua 'roupa'. O sucesso que já era tardio acabou por nunca chegar para Emilie.

emiliefloge15.jpg

O conceituado desfile de moda Valentino Outono / Inverno 2015 foi inspirado nesta criadora esquecida no pó do tempo. Embora tardio, Emilie Flöge teve o seu mérito reconhecido pelo mundo da moda. No panfleto do desfile Emilie estava indicada como a inspiração para a toda a coleção, 'Valentino FW 2015 x Emilie Louise Floge'. A maioria dos presentes no desfile não fazia a minima ideia de quem era esta 'Emilie'.

emiliefloge16.jpg

No começo da Segunda Guerra Mundial, Flöge perdeu a maioria de seus clientes após a invasão nzai da Áustria, sendo forçada a fechar o seu salão. Começou a trabalhar a partir do último andar da sua casa, mas já perto do final da guerra, um incêndio devastador destruiu todo o edifício, destruindo todas as suas coleções, incluindo objetos valiosos pertencentes a seu grande amigo e alma gémea criativa Gustav Klimt.

emiliefloge17.jpg

emiliefloge18.jpg

Apesar de ter herdado metade do espólio de Klimt, Emilie perdeu sua inspiração para continuar a criar e inovar após a morte prematura de Gustav, quando tinha apenas 56 anos devido a um acidente vascular cerebral em 1918.

Dizem que as últimas palavras de Gustav foram - 'Chamem a Emilie'.

emiliefloge19.jpg


Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo....
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp //Vasco Neves