vida alternativa

O mundo visto por um gato zarolho

Vasco Neves

Sento-me em frente ao mar, e a ele digo-lhe tudo aquilo que a ti não consigo...

Amadou e Mariam - A arte de ver a música com o coração

Quis o Acaso, o Destino, ou o Fado (o sinónimo do destino, não a canção) que um talentoso casal de cegos do Mali fossem os embaixadores de uma música, que ora nos chega em francês ora nos chega em bambara. A sua música quente e melódica traz-nos à memória uma África alegre, feliz e bastante criativa.


Será que a incapacidade de ver torna os nossos outros sentidos mais apurados? Eu acredito que sim, mesmo que me digam o contrário.

Amadou e Mariam são um Casal do Mali, mas não são um Casal qualquer - são um Casal de músicos, aliás são o Casal de músicos mais famosos do Mali! São também um Casal no sentido amoroso da palavra, na saúde na doença, na pobreza na riqueza, nos dias bons e nos dias mais ruins. Ah, já quase me esquecia são também um Casal de cegos - como se isto fosse importante para o resto do texto!

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Na verdade a minha última frase é um pouco enganadora, a cegueira de ambos é bastante importante para este texto, mas é acima de tudo porque teve um papel fundamental nas suas vidas.

Neste ponto estou a ter um diálogo imaginário contigo, sim contigo que estás a ler este texto ( estou meio doente e a febre faz-me delirar um pouco, mas em vez de ter visões, escrevo assim... de um modo estranho). Tu que és um leitor feroz e ávido de conhecer coisas novas, mas estás sempre preparado para a crítica ao leres o último parágrafo ficas furioso por estares a ler algo perfeitamente óbvio e dizes:

- Mas isso é perfeitamente óbvio Vasco! Não sei porque razão estou a perder o meu tempo a ler este texto! É claro que perder a visão condiciona a vida de uma pessoa, toda a gente sabe isso!

Calma leitor não te vás já embora, dá-me uma oportunidade para me explicar!

- Tens razão, é claro que perder a visão muda a vida de uma pessoa. Se hoje em dia é um grande desafio, nos anos 60 num país da África Ocidental isso seria ainda mais difícil. Mas foi a cegueira que nos deu ao mundo Amadou e Mariam, foi também a cegueira que lhes deu o que de mais precioso eles têm - nao é a sua música - o seu amor.

Mas este artigo não é sobre cegueira nem sobre música, é sobre duas pessoas que por acaso são cegas e músicos.

Não sei se esta resposta te deixou satisfeito e te fez continuar a ler o texto, espero bem que si. Espero que não seja pela forma estranha como eu junto as letras e formo as palavras, é que eu 'escrevo à portuguesa' e isso pode parecer estranho...mas não é nenhuma doença contagiosa, não se pega na leitura está descansado.

O Acaso, o Destino, ou o Fado (o sinónimo do destino, não a canção) tornou este talentoso casal do Mali, os embaixadores de uma música que ora nos chega em francês ora nos chega em bambara. A sua música quente e melódica traz-nos à memória uma África alegre, feliz e bastante criativa.

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Mas este texto não é uma crónica musical, é apenas a partilha de algo bom, de algo que talvez te seja desconhecido. Ninguém é obrigado a gostar do Amadou e Mariam (mas estudos recentes dizem que quem gosta é mais inteligente, bonito e boa pessoa)... não sou eu que o digo é a ciência...

A questão que vos coloco é a seguinte - Já conheciam o Amadou e Mariam?

SIM - Boa, parabéns - de certeza que és fã da world music, temos de nos tornar amigos no facebook.

NÃO - Como é possível? Eles cantam há mais de 30 anos... precisas urgentemente de te por a par das suas músicas, escuta lá esta música, uma das minhas favorita, é cantada em francês, mas num francês doce, melódico, sedutor e bastante quente. É uma música de amor por isso é assim lenta e arrastada.

... "Eu penso em ti meu amor, minha bem amada, não me abandones, meu amor minha querida"...

Mas o que torna estes dois tão especiais para mim? Não sei... é aquele sentimento de escutar algo que me faz sentir bem, mesmo que cantado em Bambara uma língua que não percebo ou em Francês de onde ainda consigo tirar alguns significados.

Mariam nasceu em Bamako a 15 de Abril de 1958 e em menina desenvolveu um interesse especial pela música, muito por culpa do aparelho de rádio do seu pai que andava sempre colado aos seus ouvidos.

Mariam aprendia todas as músicas que ouvia no rádio e cantava pela sua casa em plenos pulmões e de coração aberto as músicas das estrelas do Mali, como Siramory Diabaté, Mokontafé Sako e Fanta Damba, bem como clássicos de cantores franceses como Dalida, Sheila.

Ela começou a seguir os passos dos seus ídolos musicais e com seis anos, já cantava em casamentos e festas locais. Cresceu rodeada de música, mas acima de tudo com o amor, apoio incondicional e carinho de um pai amoroso. Mariam desenvolveu um forte sentido de auto-confiança e em 1973 entrou para o Instituto de Bamako para jovens cegos, foi uma das primeiras alunas do Instituto e além de aprender a ler Braille, ela também começou a mostrar as suas próprias habilidades para o ensino, dando aulas de canto e de dança para os outros estudantes.

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Amadou também nasceu em Bamako, a 24 de outubro de 1954. Ele começou a revelar talento musical logo em criança, e dominava uma variedade de instrumentos de percussão com apenas 3 anos. Aos 10 anos começou a tocar tocar flauta e outros instrumentos de sopro, mas o instrumento que realmente lhe fazia brilhar os olhos era a guitarra do seu tio, que para além de músico tradicional era também um apreciador de boa música influenciando o jovem Amadou com Jimi Hendrix, Led Zeppelin, John Lee Hooker e Eric Clapton. Amadou jurou que um dia também ele se tornaria um herói da guitarra.

A carreira de Amadou começou em 1968, quando ele começou a tocar na Orquestra Nacional do Mali. Entre 1974 e 1980, o Amadou também aperfeiçoou suas habilidades musicais tocando com os Les Ambassadeurs du Motel (um dos principais grupos a surgir na cena musical do Mali que incluía Salif Keïta (que merece um artigo dedicado só a ele). Ao tocar com os Les Ambassadeurs, Amadou teve a oportunidade de viajar, tocando em França, Costa do Marfim, Guiné Conacri e Burkina Faso.

Em 1975, ele inscreveu-no no Instituto de Bamako para jovens cegos, ele ficou cego ainda durante a adolescência, onde conheceu Mariam. Unidos por uma paixão comum pela música, o jovem casal descobriu que algo mais os unia.... o Amor.

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Os alunos do Instituto de Bamako para jovens cegos eram estimulados a expressarem-se através da música e o Instituto formou seu próprio grupo musical em 1976 e Amadou foi nomeado o seu como diretor. Em 1977, o Instituto também criou a sua própria orquestra, onde Mariam se destacou como solista.

Em 1980 Amadou e Mariam decidiram juntar-se para formarem a sua própria banda - na vida real e no palco! O casal casou-se nesse ano e começou a realizar os seus primeiros concertos juntos, recebendo um feedback muito positivo. Apesar de sua movimentada vida familiar ( tiveram 3 filhos) a dupla começou a criar um nome no cenário musical do Mali.

A fama da dupla acaba por se espalhar para além do Mali e eles seguem numa digressão de três meses no Burkina Faso. Com poucas possibilidades para gravar um álbum, o casal decidiu mudar-se para a Costa do Marfim e isto fez toda a diferença na carreira. Em 1988 foram para estúdio e destas primeiras sessões de gravação resultaram duas cassetes - "Volume 1" e "Volume 2".

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Amadou e Mariam começaram a ter um êxito crescente e a partir daí começaram a ser conhecidos como "O casal de cegos do Mali".

Muito mais existe para dizer sobre estes dois seres fantásticos, mas isso, deixo-vos a vocês para descobrirem. Não espero que fiquem a gostar de Amadou e Mariam, por causa deste artigo mal amanhado, mas pelo menos espero que os vossos horizontes fiquem um pouco mais alargado musicalmente.


Vasco Neves

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