vida sem movimento literário

Conexões da literatura, do cinema,da música e da rua com a vida. Em uma palavra, sinceridade.

Seane Melo

Jornalista, aspirante à escritora e especialista em algum movimento literário a ser descoberto. Também pode falar de horóscopo? Geminiana, então.

Até quando seremos irônicos? We Can’t Stop e Miley Cyrus

O novo clipe de Miley Cyrus não quer dizer nada. Mas pode dizer muito sobre como é banal querer dizer alguma coisa hoje em dia.


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Dia 19, Miley Cyrus finalmente lançou seu novo clipe, We Can’t Stop. E as redes sociais e sites de notícias pipocaram de notícias. Em geral, a tônica seguia duas lindas: “Miley Cyrus sensualiza em novo clipe” e “Nunca senti tanta vergonha por outra pessoa”.

Não sou fã, nem ao menos conhecedora do trabalho musical da eterna Hannah Montana, mas os comentários efusivos me fizeram procurar o tal novo clipe. O estranhamento foi brutal. E em meio a tanta bizarrice comecei a lembrar de um texto do escritor americano David Foster Wallace.

Afinal, o que há de tão anormal no clipe de We Can’t Stop?

A resposta é simples: a ironia. Já nos anos 90, em A aura da Ironia, Wallace diagnosticava como a televisão e a publicidade haviam se apoderado da arma dos escritores pós-modernos, essa mesma ironia.

E a discussão não poderia ser mais atual. No início desse ano, a revista serrote publicou a tradução do texto de Christy Wampole, intitulado Como viver sem ironia. No texto, a autora defende, logo no comecinho, que se a ironia é o nosso éthos, os hipsters nos representam sim! O mote central da publicação demonstra como os hipsters, mais que uma tribo escrachada aqui e acolá, são o diagnóstico de como a nossa geração tem lidado com a realidade e com a ideia de futuro.

davidfosterwallace.jpg David Foster Wallace sem ironia.

Voltando para o texto de Wallace, o escritor nos lembra de que a ironia nunca foi uma novidade. E nos anos noventa, ele já assistia esse recurso revolucionário de luta ser totalmente absorvido pela indústria. Nesse ponto, a ironia deixa de ter utilidade. “Como diz Hyde (de quem eu obviamente gosto), ‘a ironia tem uso apenas emergencial. Estendida no tempo, é a voz do prisioneiro que passou a gostar de sua cela’”. O autor explica que o poder da ironia consiste na crítica e na destruição. Mas quando se trata de construir, ela pouco ou nada tem a acrescentar.

Em We Can’t Stop, vemos indiscutivelmente um clipe dos mais enlatados produzido por uma indústria com menos interesse em transgressão quanto seja possível. Mas a produção bebe da mesma fonte que temos bebido há algum tempo. Enquanto os sites de notícias alardeiam que “Miley Cyrus sensualiza em novo clipe”, eu vejo uma artista que assume a própria insegurança com a sensualidade. No clipe, ela rebola, faz poses e aparece seminua da pior forma em que isso poderia ser feito (se é que podemos falar de melhor ou pior forma). Mas a verdade é que sabemos que existe um imaginário do que é sensual, sexy e provocante. E em We Can’t Stop não se recorre a esse imaginário.

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Quase sem roupa, mas usando os piores trapos que se poderia usar, a produção do clipe mesmo já ironiza com o suposto desejo da cantora de ser sexy. Ainda que a sensualidade de Miley no clipe tenha sido o mais mencionado, a falta de sentido da peça como um todo aponta para o nosso estado de ironia generalizada. Com línguas para fora, bichos de pelúcia amarrados às costas, animações não finalizadas, falta de sentido representada em várias imagens descoladas, danças que se ridicularizam, entre outros espetáculos, We Can’t Stop esfrega na nossa cara que a ironia que tanto nos diverte quando oriunda de redes sociais e fontes “reconhecidas”, ainda faz parte da indústria e não está construindo nada.

O seguinte trecho do já citado texto de Wallace, parece ser o comentário perfeito para o novo clipe de Miley:

“E não resta dúvida: a ironia nos tiraniza. A razão pela qual nossa difusa ironia cultural é ao mesmo tempo tão poderosa e tão frustrante é que é impossível saber com clareza o que quer um ironista. Toda a ironia americana se baseia num argumento implícito: ‘Na verdade eu não quero dizer o que estou dizendo’. Mas então o que a ironia como norma cultural quer dizer? Que é impossível querer dizer o que se diz? Que talvez seja mesmo uma pena ser impossível, mas acorde para a vida e pare de sonhar? Acredito que no fim das contas a ironia de hoje está provavelmente dizendo o seguinte: ‘Que coisa absolutamente banal você me perguntar o que eu quero dizer’”.


Seane Melo

Jornalista, aspirante à escritora e especialista em algum movimento literário a ser descoberto. Também pode falar de horóscopo? Geminiana, então..
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