vida sem movimento literário

Conexões da literatura, do cinema,da música e da rua com a vida. Em uma palavra, sinceridade.

Seane Melo

Jornalista, aspirante à escritora e especialista em algum movimento literário a ser descoberto. Também pode falar de horóscopo? Geminiana, então.

3 obras para repensar o “sexo com a pessoa que mais amamos”

O que a literatura e o cinema têm a dizer sobre o sexo "consigo mesmo"? Reunimos obras cujos personagens emblemáticos dão novas perspectivas sobre a masturbação.


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Se você assistiu ao filme Annie Hall de Woody Allen, já sabe que estamos falando de masturbação. Sempre relegada à esfera da vida mais que privada, a prática de fazer sexo “consigo mesmo” aparece em algumas obras memoráveis da literatura e do cinema, que você vai adorar conhecer.

Evidentemente, a definição de masturbação clássica de Woody Allen em si mesma já torna Annie Hall uma dessas obras para repensar a prática. No entanto, escolhemos três outros exemplos para você se inteirar do que anda rolando entre as quatro paredes da arte.

1. We Fuck Alone – Gaspar Noé

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O curta metragem de 23 minutos de Gaspar Noé é instigante e perturbador. Na obra, acompanhamos a atividade masturbatória de dois personagens solitários em seus próprios espaços, exibidos com uma iluminação estroboscópica. Ao, primeiro, superar o impacto da iluminação pulsante, o espectador é, depois, levado a refletir sobre o que emana daquelas imagens.

Essa pode ser uma visão bem particular, mas é, sem dúvida, muito curioso que em um filme chamado “We Fuck Alone”, os personagens utilizem todos os tipos de recurso na masturbação, incluindo ursinho de pelúcia e boneca inflável. O que me fez me indagar se, afinal, é possível fazer sexo sozinho? No curta, o outro está bem personificado nos objetos já citados, mas também aparece no filme pornográfico que um dos personagens assiste. De uma forma geral, acredito que nos deparamos sempre com a mesma contradição: a solidão, por um lado, e o espectro de um outro sempre presente, por outro.

2. Shame - Steve McQueen

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O longa metragem Shame, que estreou em 2011, deu muito que falar. Talvez pela atuação de Michael Fassbender, no papel do protagonista Brandon, ou pela proposta de tratar da vida de um homem viciado em sexo. Quem leu a sinopse do filme antes de assistir, pode ter se surpreendido com o resultado. Shame não é um filme glamoroso sobre um homem que faz sexo com várias mulheres. Mas a história de um homem que parece estar sempre aflito com a eminência da descoberta de suas compulsões.

É interessante como o filme trabalha os dilemas do personagem, desde os problemas de vírus por conta do consumo de pornografia na empresa até os próprios problemas sexuais que ele demonstra quando tenta se relacionar com outra personagem. Apesar de me sentir incomodada como a sensação de não saber nada sobre o personagem, incluindo informações importantes sobre o seu passado e sobre seu relacionamento com a irmã, Shame, sem dúvida, é um filme que trabalha bem a relação entre prazer e dor, privacidade e vergonha (a vergonha sendo sempre um olhar de outro sobre nós).

3. O Complexo de Portnoy - Philip Roth

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Philip Roth é um dos grandes expoentes da literatura americana atual e seus livros são tão bem aclamados, que é difícil pontuar quando seu sucesso deslanchou. O Complexo de Portnoy, livro lançado em 1969, é uma das obras que faz jus à reputação do autor. Se você já ouviu falar do livro, talvez também tenha ouvido falar de Alex Portnoy, seu protagonista. O que torna o judeu Alexander tão especial é que há algum tempo ele já é apresentado por alguns escritores brasileiros (como Reinaldo Moraes) como o maior punheteiro da literatura.

Apesar do merecido título – afinal, quem havia se masturbado na literatura com um pedaço de fígado antes de Portnoy? –, é indispensável ressaltar que os méritos de O complexo de Portnoy não param por aí. A vergonha e aflição do protagonista, sempre subjugado pela responsabilidade de ser um bom judeu e pela criação atípica de sua mãe, nos comovem, nos divertem e nos fazem ter vontade de confessar ao perturbado Alex que seus desejos podem ser comuns e perfeitamente aceitáveis. Ainda que nos dê muito material para reflexão, notadamente, sobre os limites do desejo socialmente aceito, a leitura do livro é deliciosa e, por si só, já vale a empreitada.


Seane Melo

Jornalista, aspirante à escritora e especialista em algum movimento literário a ser descoberto. Também pode falar de horóscopo? Geminiana, então..
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