vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

O final perfeito

O que vai na alma de um escritor? Que histórias percorrem sua mente até chegarem ao texto?


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— Chega, agora acabou!

Digitou “ F I M “. Assim mesmo, com espaços atrevidos entre as letras. Queria o jeitão de final de texto datilografado há milênios, naquelas máquinas de escrever antigas, que deixavam as letras com sombras, como na vida… as sombras que carregamos, os fantasmas que nos seguem.

Mas estava mesmo terminado? Franziu uma das sobrancelhas e deletou rapidamente a palavra. Amparou as costas cansadas do peso da vida na cadeira, pegou o copo de cristal e olhou pela janela, brindando com o destino. Perdera a noção da hora. Totalmente. Estava mergulhado ali, naquele livro: o prazo era curto; as emoções a relatar, quilométricas. Parafraseando Drummond, “e agora, José?”.

Fechou os olhos para deixar entrar o som quente da noite em seu coração. Deveria reler ainda uma vez antes de enviar? As 300 páginas, todas, uma a uma, novamente? A cada vez que relia, achava mais erros. Seriam mesmo erros? Não. O nome era outro: insegurança.

Colocou aquela música para tocar, aquela que fazia seu mundo despertar cheio de cor e emoção. O vinho já fizera sua mágica e tudo estava cheio de brilho, até a tristeza que esboçara com letras escarlate e o beijo que pintara de azul no texto. Estava tudo no ar, era só esticar as mãos e captar. Dali, de onde estava, parecia simples assim, num piscar de olhos, sem nada mais a perder.

No seu cômodo e covarde universo de letras, parágrafos e capítulos, ainda poderia escrever, reescrever, apagar, desistir, simplesmente ir embora, fugindo mesmo de si. Mas os seus dias não foram nem seriam assim. Dizem que a vida não dá direito a ensaios. Sorriu dolorosamente — com vontade, na verdade, de chorar. Lembrou-se dos erros, mais que dos acertos e soube, naquele instante, que foram, também, lições.

Os acertos? Ah, estavam guardados em porta-retratos coloridos e perfumados em sua mente. Mas eram momentos anônimos, que jamais divulgaria em seus escritos. Preciosos demais. Ele, egoísta demais para aceitar dividi-los.

Sabia, porém: de nada adiantava agarrar-se a momentos que passavam como o rio e jamais voltariam. Por isso escolhera escrever: tinha a ilusão de aprisioná-los ali para sempre. O efeito era o mesmo de um perfume, de uma música, acreditava. Mas eles partem; o perfume vai embora com o vento da inexorabilidade do existir; a música termina, deixando o silêncio que obriga a prosseguir.

A tristeza passou tantas vezes, quando pensou que morreria! Viver é isso mesmo! No momento do desespero, alguém jogou a corda, estendeu a mão, gritou seu nome — na grande maioria das vezes ele mesmo se socorreu. Por isso sabia que nunca estaria sozinho: tinha a si próprio, sempre, argumentando com seus vários eus, como o rico e maravilhoso Pessoa.

Foi até o terraço, cantando e deixando os instantes passarem, já que sabia que a decisão era deles. Sim, dos instantes que carregavam a vida consigo, no tique-taquear do tempo que arrasta tudo, menos o que precisamos com ele aprender. Fica, então, a lição.

Voltou para diante do computador e digitou novamente: “ F I M ” sem ler mais nada. O reflexo na tela do computador mostrou seu sorriso mais misterioso, aquele que só aparece no fundo do olhar.

— Pronto!

Aproveitou a onda de fé em si que o vinho proporcionara e clicou também na opção “Enviar”. Lá se foi seu texto para o ar. Partiu também, como qualquer momento da vida. Para nunca mais. Sempre.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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