vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Sofia e a Flor

E descobrimos, lá na frente da estrada, que o mais belo sempre foi o mais simples.


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— Sopra! — disse a avó, entregando-lhe a flor. — Sopra suave, mas não se esquece de fechar os olhos. E faz um pedido. Mas faz com fé — disse, sorrindo e piscando para ela.

— Qual é a direção do vento agora? — perguntou a menina, séria.

Não queria desperdiçar a única flor, justamente a do pedido. E precisava pensar em algo bem importante. Difícil. Tudo era importante para Sofia. Sempre fora.

A avó umedeceu o indicador e suspendeu o dedo no ar. Riram muito. Assim, de nada. Era tudo tão bom. Simples.

— Sofia, você sabia que esta flor nasce amarela? Chama-se dente-de-leão. E o vento faz suas sementes voarem e espalharem-se por aí.

— Como assim? — perguntou, decepcionada — Ela não nasce assim, leve, solta, livre, linda?

— Não, estas já são suas sementes — disse a avó sorrindo mais uma vez.

E ela pensou que era impossível aquela flor ser só sementes, não ser mais flor. Não imaginava aquela florzinha tão delicada de outra forma, com outra cor. A avó devia estar enganada.

Depois de segundos eternos, seus olhinhos de jabuticaba sorriram satisfeitos com sua própria sensibilidade.

“Transformou-se”, pensou. “E ficou linda, ainda assim! Mais bonita, talvez!”

Sofia decidiu não fazer tal comentário com a avó. E se fosse besteira?

Deu uma risadinha encantadora sem um dos dentes da frente, olhou para a flor pela última vez antes de fechar os olhos e fazer o pedido. E soprou.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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