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Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

A verdadeira história de Murphy

Desista daquele papo chato sobre a Lei de Murphy! Existe uma versão muito mais interessante e divertida sobre como nasceram os responsáveis pelos azares do porvir.


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Murphy começou sozinho, como um ambulante que sai por aí vendendo as coisas de porta em porta. Filho de pai desconhecido e mãe esquizofrênica, sua história é triste demais para ser relembrada. Deixemos seu passado mais sombrio no passado e passemos ao que interessa, ao que realmente definiu seu destino.

Saiu de casa cedo e precisou encontrar suas habilidades profissionais com uma idade muito tenra. No escuro das ruas, descobriu seu dom: a infelicidade alheia. Assim, ganhou o mundo vendendo as piores previsões, os resultados mais desastrosos. Estragou penteados com chuvas imprevistas e improváveis; tirou o apetite dos comilões diante de pães caídos com a manteiga virada para baixo; arruinou grandes negociações por um detalhe quase insignificante; derrubou aviões; destruiu casamentos; matou incontáveis pessoas; destroçou corações. Seus poderes aumentavam cada vez mais.

Havia tantos lugares para vender o seu "Tônico Caseiro do Tudo-Errado Garantido", que ele montou uma fábrica. Depois, mais uma, outra e outra ainda. Passou a atuar em outros países e, finalmente, montou um site de vendas/contratação dos serviços murphianos, com débito direto no cartão de crédito e negociação especial em casos de grandes contratos. Murphy gênio.

O tempo voou e hoje, falamos da Murphy S/A, um conglomerado de capital estrangeiro/extraterrestre/extrassensorial com milhares de operários, escolhidos por meio de um dos mais difíceis processos de seleção. Eles são regiamente pagos para perturbar o sono, tirar a paz e, com sua secretíssima poção, fazem acontecer o improvável, desde que seja trágico.

A demanda por mão de obra especializada cresceu tanto que a Murphy S/A criou a Universidade Murphy, com matérias como Atuária (avaliação de riscos), entre outras, para aspirantes aos cargos da empresa.

Sim, vivemos rodeados por funcionários à paisana ou, dependendo da importância do caso, por elementos do alto escalão, com canetas Mont Blanc no bolso e um pequeno broche na lapela do terno com a logomarca Murphy S/A, na qual o M está partido ao meio por um raio. Olhem para os lados de vez em quando e reparem bem na fila do mercado, na farmácia, no carro do vizinho. Porém, notar sua presença de nada adianta. Desculpem pela franqueza, mas com eles, a história de "pensamento positivo" não funciona. Vislumbrar um funcionário da Murphy S/A é saber de antemão que algo muito perto de você não terminará bem.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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