vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

No cardiologista

Quando meu coração – espetado na cortiça do meu escritório numa foto intensa – brigou comigo, entendi o recado. Foi um papo sério. Eu? No fim, calei. E não é que, embora irracional, ele tinha razão?


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Ontem retornei ao cardiologista com exames de rotina. Levei uma bronca por ter "roubado" uma imagem do meu intenso coração. Expliquei rindo que destruí unzinho só, um mais antiguinho. Pedi clemência e ele riu novamente, mas perguntou, curioso, o porquê do assalto. A consulta tinha acabado, recebi nota mil de saúde (ufa!) e relutei em explicar, mas... vamos lá... contei.

— Doutorzinho do meu coração, recortei a imagem e preguei na cortiça de casa. Olho para o meu dono e senhor todos os dias. Ele olha ainda mais para mim. Pisca, manda beijos, me corteja, diz que me ama, sussurra flores, carinhos e cafunés, me abraça forte, quer que eu preste mais atenção ao que ele diz. Dali da cortiça, prima das rolhas de vinho em românticas noites de amor, o coitado pulsa, espetado por uma tachinha malvada. Deve ter-se lembrado das flechadas que levou ao longo da vida. Poucas, mas intensas.

Fazendo certo suspense para vender o meu peixe, dei um tempo, calei, baixei o olhar para a sacola cheia de resultados de exames. Levantei os olhos novamente e vi que ele sorria, esperando pelo fim da história. E continuei:

— Então minha ficha caiu, Doutor do Amor. Ele bate ali, na cortiça, pedindo por vida; vida mais leve, por um deixar fluir que não morava mais em mim.

— Chorou. Disse, Doutor, veja só, estar cansado de tanta indiferença da minha parte. Fiquei chocada e desandei a tagarelar sem parar. Ele esperou que eu argumentasse. Riu de maneira debochada e fiquei duplamente irritada, mas aí ele retrucou. E coração, Doutor, quando argumenta, acaba com qualquer argumento racional. Taí um cara que poderia ser advogado. Do amor.

— Falou baixinho, mas escutei, sim. Escutei lá de dentro, do fundo da minha sala escondida do sentir: "Sabe, Laurinha (ah, que lindo!), você está errada. Sinto muito. Muito errada. Deixe estar, deixe ser. Deixe não ser. Deixe simplesmente. Você não prega a leveza? Então! Parta, chegue, deixe partir. Receba o novo. Jogue água na brasa da resistência e da incrível falta de flexibilidade que mora em você. Faxine o que você espera; jogue fora aquilo que você só acha que será bom para você, mas nunca sabe ao certo. Você me vê como realmente sou? Eu sou uma montanha-russa. Feche os olhos e quando estiver de ponta-cabeça, solte as mãos. Eu lhe peço, mocinha: confie em mim e saiba que você, cérebro Laurinha, nada sabe do outro lado do mar. Mas confie no fato de você ser você. Isso deve lhe bastar, porque é muito, mesmo que você, Laura Razão, não acredite."

— Então eu chorei, Doutor do Pulsar. Muito, muito, muito. Mas compreendi tudo. Como ele, às vezes estarei descompassada, acreditarei estar à beira da morte, mas... tal drama nem é para tão já. Ele me pediu uma chance, implorou para respirar. Gritou por silêncio. Ficou de joelhos ali, diante de mim, e ordenou que eu arrancasse todos os nomes dos meus baús, todas as datas dos meus calendários, as lembranças mais resistentes de algo que não é mais. Que eu me lembrasse somente da montanha-russa. Que me deixasse, enfim, levar por ela. Que eu recebesse o novo com a maravilhosa humildade de quem desconhece, de quem ignora. Que eu afogasse urgentemente a ansiedade nas águas do porvir.

— Parei. Pensei, pensei, pensei. Ele balançou a cabeça em desaprovação, decepcionadíssimo, mas sem dizer nada. Entendi: nesses assuntos, pense zero, Laura! Abra as caixas de presentes. Apenas isso. Reconheça-os e aproveite. Carpe diem!

— Foi então, Doutor da Vida, que olhei para ele e pela primeira vez, ele sorria. Agora ele sabe que eu sei que não sei mesmo. E que isso é lindo. Ele está feliz.

Contagiado, o Médico do Essencial sorriu, me abraçou e disse: — Volte no ano que vem, mocinha. Só para eu te ver cada vez mais saudável. Em todos os sentidos.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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