vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

O altar, o esmalte e o batom, com uma pitada de Nelson Rodrigues

Quando a realidade passa a ser fantasia?


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Ia e vinha como quem estivesse de plantão num hospital, esperando a morte chegar. Numa mão, o terço. Na outra, a Bíblia. Na mente, tudo que Deus não recomenda. E um espaço pequeno para o seu ódio caminhar.

— Ah, mas deixe ele chegar da rua com a cara cheia de cachaça, aquele cheiro de perfume barato e a gola da camisa manchada de batom! —, esbravejou sozinha, no meio da sala.

O espelho que ficava atrás da cômoda mostrou-lhe, numa das passagens, uma imagem diferente e ela gritou, não reconhecendo a estranha. Nem reparou que a imagem era ela pelo avesso. Um avesso que, na verdade, era o seu desavesso, o seu lado certo. Só não era oficial. Apertou o terço, fechou os olhos, ajoelhou-se diante do pequeno altar com sua santa preferida e começou a oração de sempre.

Mas a raiva agarrava uma por uma as veias do seu coração e apertava cada uma delas. O desejo puxava seu estômago com força, determinado a arrancá-lo de dentro da pobre e amarga senhora. E a devassidão mordia seus pulmões, esvaziando o ar e a vida. O que seria aquilo? E o espelho, quem estaria ali, se era um espelho?

— Deus, sou eu! Eu, como nunca me vi. Enlouqueci!

Desta vez, o reconforto da oração que alivia tudo não veio. Ela estava no escuro de si. Era ela, sim. Depois de velha, muito velha, o rosto enrugado, os joelhos desistentes do caminhar, agora a transformação. Ela, que estava no fim do fim, aparecendo nova em reflexo e querendo recomeçar para o prazer de viver. O prazer de viver de prazer. Ela, cheia de pecados, amores e dores reprimidas. Todas as mulheres que não fora estavam ali, refletidas em uma só, cobrando sua vez.

E o marido que não chegava. Vivera quase 50 anos com o mesmo homem, tivera filhos, fora severa em sua educação. Severa demais, mãe de menos. Agora, com mais de 80, sua alma deveria aquietar-se e desistir de arder. Rezou uma, duas, três vezes. Ergueu-se com dificuldade. O espelho. Pensou em olhar mais uma vez. Veria, é claro, que não era nada. Encararia seu bom e velho eu, tinha certeza. A roupa bege rendada, os óculos enormes, a pele acinzentada de quem está um pouco viva e um pouco não se sabe como. Decidida, foi.

Mas agora o que via era aterrorizante. Uma mulher da vida! Só poderia ser uma mulher da vida, não era ela: decote, saia agarrada com uma fenda lateral. Batom vermelho-pecado, unhas da cor vermelho-luxúria. E um sorriso insinuante de mulher da vida. Mas quando a voz saiu de dentro do espelho, ela ficou congelada, os pés cimentados no chão de tacos soltos.

A voz era sua. Nada de mulher da vida. Era ela, sim. Jovem, feia, mas sensual. Ria gostoso, fumava um cigarro malcheiroso numa piteira longa. E olhava com desdém para aquela mulher velha no meio daquela sala, esperando pelo marido. A mão saiu de dentro do espelho e veio buscá-la, resgatá-la de tanta vontade ilhada no preconceito, de tanta fissura nunca saciada.

— Olha o que você perdeu, mulher! Olha o que você queria! Vem buscar!

Justo ela, que sempre fora tão puritana. De repente, seu coração se encheu de vida; seus olhos, de brilho. Nem sentia dor nos joelhos. Foi. Estendeu a mão enrugada e trêmula até tocar a mão nascida do espelho. Nunca fora tão feliz, livre. Sumiu, engolida por si mesma, mas jovem. Enfim, o marido chegou, bêbado e com a camisa manchada de batom, sim. Devia ser de alguma mulher que se dispôs a fantasiar com ele, coisa que a sua nunca fizera. E lá estava ela. Em frente ao altarzinho já devorado pelos cupins. Sorrindo. Morta.

O terço e a Bíblia estavam sobre o móvel do espelho. Na capa da Bíblia, uma mancha de batom. Batom na cor vermelho-luxúria, anunciada tantas e tantas vezes nos intervalos da missa transmitida pela TV todos os domingos às 6h00. Todas as vezes, ela esbravejava. Dizia que aquele pecado não combinava com a missa. Algumas verdades, enfim, nunca conhecerão a luz do dia, nem o sal do mar. Mesmo vivendo na escuridão, entretanto, serão sempre verdades.

E ele, seu agora viúvo, nunca saberia disso. Que pena.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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