vide verso

Porque a vida sempre tem o outro lado

Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever

Desapego

Alguém sabe lidar com despedidas? Ninguém é mestre em tal especialidade, embora o adeus seja uma rotina da qual não nos damos conta.


10675712_834757609899710_7431090014088188618_n.jpg (ilustração: Nidhi Chanani)

Despedidas em qualquer tipo de viagem — um dia na praia, um mês em Paris ou para nunca mais — são árduas. O outro toma uma parte de nós para si e nos empresta uma dele.

Partir é levar-se embora de alguém, privar-se de parte de alguém. É ficar/deixar amputado de amor, cuidados, diversão, aborrecimentos, enfim, de algo único, que o outro tem como uma digital e que, na sua ausência, faz brotar uma cratera de saudade.

Mas partir faz parte. Deixar ir é missão das mais difíceis, já que os teimosos dedos do eternizar estão sempre segurando uns aos outros.

Com o tempo-bálsamo, porém, descobrimos em nós a parte que o outro deixou como tatuagem n'alma, seja a viagem de um dia na praia, um mês em Paris ou para nunca mais. O outro já não é outro, nem nós somos apenas nós.

Esbarramos uns nos outros ao longo do caminho e podemos até seguir, sem parar para olhar o que aconteceu. De qualquer forma, algo ficou: um presente, um dom, um perfume, uma noite, uma vida. Algo que apenas nós sabemos, lá no fundo, identificar.


Laura Gillon

O segredo é fechar os olhos, deixar o mistério ser a bússola mais fiel e, pelas trilhas, aprender — sempre! — a (d)escrever.
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